Como fazer jornalismo na web independente do Facebook?

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“Nós temos que, antes de acessar o Facebok ou outra rede social, entrar nos sites dos jornais e veículos de comunicação de credibilidade”. A frase é do jornalista Alexandre Brito, subeditor de Informação da emissora RTP de Portugal, dita durante o Congresso Internacional de Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM), promovido e sediado na Universidade da Beira Interior em Portugal.

A ideia de Brito era que o jornalismo deveria ter essa prioridade como uma meta, tanto para os profissionais quanto para o público. Hoje, é comum que o cidadão, ao acordar, tenha como um dos seus primeiros hábitos, ver o feed de uma rede social (Twitter e Facabook, principalmente).

Perguntei então, para o subeditor da RTP e para os outros jornalistas que participavam do debate: como convencer o público a acessar o site de um jornal primeiro se a maioria dos planos de celulares não descontam a franquia das redes sociais? Como convencer o cidadão a acessar o site do jornal se muitos portais trabalham com o Instant Articles, ou seja, com o conteúdo dentro do Facebook, sem descontar da franquia?

A partir desta pergunta, abri um debate (no próprio Facebook) que amplio aqui no blog: usar ou não o Instant Articles? É certo entregarmos o conteúdo que produzimos para a plataforma de Mark Zuckerberg em troca de likes e mais visualizações? O Facebook já é a maior rede social, se o público majoritariamente preferir ler textos no Instant Articles (por ser mais rápido de abrir, sem custos adicionais, etc), vamos aceitar que a rede social controle todo o fluxo de notícias do mundo? É seguro deixar na mão do algoritmo?

A discussão é pertinente pois no momento o Facebook anuncia que pretende combater os sites que difundem notícias falsas usando as redes sociais. São páginas que não possuem credibilidade, mas que ganham relevância no algoritmo da rede social. O Face foi acusado de acabar ajudando na eleição de Trump, pois vários sites souberam usar o algoritmo para espalhar notícias falsas em prol do candidato republicano.

Diego Queiroz Andrade, um dos editores do diário português Público, participou do debate e afirmou que a desinformação causada nas redes sociais podem não terem sido tão decisivas no caso das eleições americanas, mas foi fundamental no referendo inglês que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Já Alexandre Brito entende que o jornalismo errou no passado, não soube acompanhar as novas tecnologias e hoje paga por isso, no caso, vê uma rede social cada vez mais forte controlando as informações no mundo.

A dependência dos jornais com o Facebook é tanta hoje, que segundo Andrade, alguns veículos portugueses chegam a ter 80% do tráfego com origem na rede social. Ou seja, uma mudança no algoritmo de visualização na timeline dos usuários pode derrubar toda a audiência do jornal na web.

Afinal, o jornalismo online é hoje dependente do Facebook? Como um veículo na web, que produz conteúdo para mobile, pode ser independente da rede social, tornando ela apenas uma ferramenta de divulgação? Ou jogamos a toalha e esperamos o movimento do público nos próximos anos?

A imprensa local e as novas mídias: como fazer a sustentabilidade?

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Até o NYT abandonou um APP. Imagina os jornais locais

A Universidade da Beira Interior em Portugal promove nesta terça-feira (22) e quarta-feira (23) o Congresso Internacional de Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM). E logo nas primeiras comunicações científicas o modelo de negócio para os veículos de comunicação entrou na pauta: há uma necessidade/obrigatoriedade de os jornais impressos acompanharem as transformações tecnológicas, hoje focadas nos dispositivos móveis, mas ainda há dúvidas de como ganhar dinheiro com isso, principalmente longe das grandes metrópoles.

Se de um lado, a doutoranda em Comunicação pela USP Isadora Ortiz de Camargo apresentou o caso do New York Times, onde a mobilidade tornou-se uma peça chave no modelo de negócios da publicação, a professora da UFRGS Vivian Batochio e o professor Pedro Jerónimo da Instituto Superior Miguel Torga (Portugal) mostraram o conservadorismo de grandes jornais brasileiros e da imprensa de interior portuguesa com os dispositivos móveis.

Na imprensa portuguesa do interior, há pouca familiaridade dos veículos com os dispositivos móveis e as novas tecnologias. Segundo Jerómino, os poucos casos são iniciativas isoladas dos próprios jornalistas, que acabam fazendo sem receber a mais por isso, pois não há incentivo dos proprietários.

Com uma análise dos APPs dos jornais brasileiros para smartphones e tablets, a professora Vivian Batochio apontou a falta de inovação nos veículos nacionais. A maioria dos APPs para visualizar a edição imprensa trazem apenas a reprodução do produto em papel, sem nenhuma recurso a mais.

Até mesmo no New York Times, jornal que segundo a apresentação da pesquisadora Isadora Ortiz de Camargo é um case de sucesso na mobilidade, um aplicativo desenvolvido há dois anos pelo grupo chamado “NYT Now”, destinado ao público mais jovem, foi “descontinuado” por falta de retorno financeiro. Era um APP com mensalidade, algo que não deu certo.

Por que os jornais inovam tão pouco?

Há muitas respostas que podem ser dadas, mas a sustentabilidade dos veículos é um fator que precisa ser destacado. Afinal, como se ganha dinheiro com uma mídia em tempos de mobile? Fazer como nos meios impressos que viviam de anúncios não é, definitivamente, o caminho. A venda de publicidades não avançou na web, algo já comentado aqui neste blog. Com a maioria do público se informando através de smartphones e por redes sociais, ficou mais difícil ainda.

Como convencer, então, um dono de um jornal local, que ainda mantém uma receita de anúncios da forma tradicional no impresso, ainda que em queda, que ele precisa inovar para se manter no futuro? Vale a pena pensar em crowdfundings em mídias locais? Como seria este engajamento?

Como sobreviverão as mídias locais no futuro?

 

 

A globalização e a vitória de Trump

c05601Jornais do mundo inteiro ficaram perplexos com a vitória de Donald Trump nas eleições americanas, produzindo reportagens analíticas tentando compreender porque os americanos escolheram um empresário polêmico sem experiência política, com discurso de ódio. O livro “Globalização – As consequências humanas” de Zygmunt Bauman, publicado em 1999, dá pistas do que levou os americanos a tal decisão.

O voto do americano foi um protesto contra a globalização, tão vendida como única saída pelos americanos nas últimas décadas, cujas consequências também foram negativas para o povo de lá, principalmente para aqueles que perderam seus empregos aos verem as fábricas se mudando para a China.

Bauman afirma no livro que a globalização é ao mesmo tempo algo que “devemos fazer se quisermos ser felizes” para uns e “a causa da nossa infelicidade” para outros. De qualquer forma, o autor reforça que “estamos todos sendo globalizados e isso significa o mesmo para todos”.

Para o autor, a “globalização tanto divide como une, divide enquanto une” e “as causas da divisão são idênticas às que promovem a uniformidade do globo”. A globalização gera uma “progressiva segregação especial”, uma “progressiva separação e exclusão” das sociedades – de um lado uma elite globalizada e de outro o resto da população, que permanece localizada.

Enquanto as elites globais buscam dar um padrão de regras e valores para o planeta, a maioria da população vive em outras condições, não dispõe de recursos para fazerem do mundo cosmopolita. Se por um lado as elites se tornaram extraterritoriais, ou seja, desprendidas de nacionalidades e que buscam uma cultura hibridizada, global, multicultural, a maioria da população está desconectada, cada vez mais distante e os resultados são uma cultura cada vez mais separada, segregada.

Por que isso acontece? Porque as pessoas fora das elites não dispõe de recursos para alcançar esse padrão globalizado. Bauman afirma que “os centros de produção de significado e valor são hoje extraterritoriais e emancipados de restrições locais — o que não se aplica, porém, à condição humana, à qual esses valores e significados devem informar e dar sentido”, isto é, as elites globais criam padrões que não se aplicam as condições humanas da maioria.

A mobilidade
Para Bauman, “no mundo do pós-guerra espacial, a mobilidade tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais em escala cada vez mais mundial”.

Essa mobilidade é o ponto de partida de uma elite extraterritorial, desgarrada de obrigações locais. Não há como dissociar a globalização com o capitalismo, pois como afirma Bauman “livrar-se da responsabilidade pelas consequências é o ganho mais cobiçado e ansiado que a nova mobilidade propicia ao capital sem amarras locais, que flutua livremente. Os custos de se arcar com as consequências não precisam agora ser contabilizados no cálculo da “eficácia” do investimento.”

Bauman cita o executivo americano aposentado Albert Dunlap, que afirmava que “a companhia pertence as pessoas que nela investem – não aos seus empregados, fornecedores ou à localidade em que se situa” como base para o pensamento da empresa globalizada. Ela não possui vínculos, responsabilidades, deveres com uma localidade. Pode a qualquer momento deixar uma cidade onde atua e ir para outra atrás de vantagens fiscais (ou de outras naturezas) sem dar explicações para a comunidade onde funcionava. “A companhia é livre para se mudar, mas as consequências da mudança ficam”, assinala Bauman. Uma situação oposta das antigas elites não extraterritoriais como “proprietários fundiários do início dos tempos modernos e corretores imobiliários da era moderna recente”, que não podiam fazer o livre movimento do capital.

Trump, um megaempresário global, soube explorar na campanha o sentimento dos americanos que sofrem as consequências da extraterritorialidade das empresas. O discurso protecionista e a promessa da volta dos empregos foi o que fez o povo apostar em Trump contra uma candidata ligada ao capital financeiro internacional, ao establishment político, a manutenção do status quo.

Não se trata de ser contra a globalização, um fenômeno com vantagens e desvantagens, mas entender as consequências para todos os povos e os problemas que isso pode gerar.

O jornalismo como agente da democracia

000001222971As crises que as democracias vivem nos últimos anos, com o surgimento de políticos e partidos contra o establishment político colocaram o a importância do jornalismo novamente em evidência. O posicionamento da imprensa na sociedade, de observador e fiscalizador, vem sendo questionado diante da avalanche de movimentos populistas e autoritários, rescendendo a discussão sobre um jornalismo mais ativo no processo democrático. O jornalismo cívico, também chamado de jornalismo público, é apontado como uma ferramenta importante para o período de instabilidade que vivemos.

A escola de jornalismo cívico, iniciada no fim dos anos 80 nos Estados Unidos, foi conceituada e debatida no livro Jornalismo Cívico (Livros Horizonte, 2003) que tem os professores Nelson Traquina e Mário Mesquita como organizadores. A obra traz oito artigos sobre a escola jornalística, dois conceituais e seis de debate sobre antecedentes, caraterísticas e experiências do formato.

No texto de abertura, o jornalista e professor Nelson Traquina aborda os cenários da política e da mídia americana nos final dos anos 80 e início dos anos 90, período em que surgem os primeiros movimentos do jornalismo cívico. Citando o jornalista norte-americano Davis Merritt, Traquina explica que o jornalismo americano passou por uma onda de denuncismo após o escândalo de Watergate dos anos 70 e a enxurrada de notícias ruins levou a um descrédito da população não apenas com os políticos, mas com toda a vida pública. Esse cenário permitiu que surgisse um novo movimento, que colocasse o papel do jornalista não apenas como um “cão de guarda” da democracia, mas de um agente que fizesse a conexão do poder público com os cidadãos, incentivando a democracia participativa.

Merrit foi o editor do jornal Wichita Eagle, lançado em 1990 e que segundo Traquina, utilizou-se de pesquisas de opinião para saber quais os assuntos a população mais se preocupava no âmbito público para a partir daí, definir a linha editorial da cobertura das eleições, deixando de lado as brigas diretas dos candidatos.

Também organizador do livro, Mário Mesquita mostra como o jornalismo cívico é alinhado com a filosofia “comunitarista”. A proposta de um jornalista não ser apenas um observador, mas um participante da sociedade surge em um país com tradição em participação popular, principalmente em decisões a respeito de questões locais, apesar de os defensores do “public journalism” argumentarem que essa tradição vem sendo perdida nos Estados Unidos e o jornalismo viria justamente para ajudar a recuperar.

Um dos professores americanos que mais defendem essa escola, Jay Rosen assina dois textos selecionados na obra:   “Tornar a vida pública mais pública” (tradução de José João da Silva Costa) e “Para além da objetividade” (tradução de Victor Flores). O primeiro aborda os aspectos sociais da vida comunitarista e a relação que os jornalistas devem ter com a sociedade. O segundo trata de uma das principais características do jornalismo convencional que é a linguagem objetiva. Assim como os teóricos do “novo jornalismo”, Rosen questiona o mito da objetividade e sua eficiência para a imprensa imparcial: “a objetividade enquanto teoria sobre como se chega a verdade está intelectualmente esgotada”, afirma.

As filosofias e conceitos de sociedade pensadas por filósofos no século XX como uma base para o surgimento do jornalismo cívido é o tema do artigo da jornalista e professora norte-americana Renita Coleman (tradução de José João da Silva Costa). A partir de pensadores como John Dewey e Jürgen Habermas, a autora busca elencar os antecedentes para o surgimento da escola jornalística.

O último artigo do livro é um contraponto aos defensores do jornalismo cívico. O jornalista norte-americano William E. Jackson Junior (tradução de José João da Silva Costa) critica a prática a partir do que viu nas eleições de 1996 no Carolina do Norte, Estados Unidos. O autor faz a principal contra argumentação do chamado “public journalism”: o risco de dar poderes excessivos a mídia na organização dos temas mais importantes para a cobertura de um processo eleitora.

O jornalista conta que viu do Charlotte Observer, maior jornal do Estado e defensor do jornalismo cívico, deixar de lado assuntos como uma denúncia contra um dos candidatos ao Senado por não entrar dentro dos temas definidos com a comunidade. A campanha do Charlotte Observer para o período eleitoral “Your Voice, Your Vote” teria sido desmontada pelos partidos políticos, que descobriam através de pesquisas, o que o povo mais queria falar e com isso, restringia as campanhas a isso. “Os imperativos de Your Voice, Your Vote restringiram a cobertura e encorajaram os candidatos a lidar com a situação dizendo aos eleitores aquilo que eles queriam ouvir. Houve pouco incentivo a que lhes falassem de coisas por que eles não pareciam interessar-se tanto (e por consequência a imprensa não se interessava tanto”, afirma o jornalista.

O contraponto do último artigo serve como um alerta nas discussões sobre como fazer um jornalismo cívico nos dias de hoje, com a internet permitindo maior interatividade com os cidadãos, sem ser ingênuo quanto a reação das elites política e econômica quanto a manipulação da opinião pública, seja se preparando para mudar o foco diretamente om os cidadãos ou via abuso do poder frente aos donos de jornais. Um jornalismo cívico de verdade precisa ser independente, uma busca quase inalcançável no jornalismo dos dias de hoje.

É possível reconectar a política com os cidadãos?

maxresdefault1O crescimento do discurso anti-política, anti-establishment nos países ocidentais foi o tema do artigo anterior. A vitória do empresário João Dória em São Paulo, com uma campanha onde afirmava “não ser político” e o perigoso sucesso de Donald Trump nos Estados Unidos mostrava que o eleitorado está cansado da velha política e como vivemos um momento de crise (ou seria transformações), o discurso populista de extrema-direita anti-política ganha força.

Mas a narrativa atual do cenário político não precisa ser de um filme de terror e há exemplos no mundo de tentativa de reconectar os cidadãos a política. Na Espanha, os movimentos de rua deram origem a novos partidos políticos: O Podemos (à esquerda) e o Ciudadanos (ao centro) apesar de serem antagônicos em diversos pontos sobre a política espanhola, convergem quando o assunto é a estrutura política: a horizontalidade.

Pelo menos em tese, esses novos partidos buscam colocar o cidadão no centro da política, tentando acabar com o conceito de classe política, ou melhor, estendendo a todos. Mandatos compartilhados, decisões abertas a todos os cidadãos (não apenas um pequeno grupo com direito a voto) e a tentativa de eliminar a figura dos caciques partidários estão na pauta daqueles que tentam ressignificar a política.

Um colóquio discutiu na segunda-feira (17) à tarde na Universidade da Beira Interior (UBI) em Covilhã, Portugal, as crises da democracia e a mídia. Como já dito aqui e no artigo anterior, a Europa passou por uma crise econômica e agora passa por uma migratória, abrindo espaço para movimentos extremistas eurocéticos de partidos como o AfD (Alemanha), Frente Nacional (França) e Ukip (Inglaterra). A saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit) foi o primeiro grande resultado dessa onda.

Jornalista e professor da Universidade Lusófona, João Almeida Santos foi direto ao ponto ao falar da crise que envolve partidos tradicionais da Europa: eles não conseguem se adaptar ao mundo de hoje, um mundo onde todos estão conectados e todos têm voz: “A rede está a introduzir uma nova lógica no poder, uma lógica do poder diluído, disseminado. O cidadão deixa de ser expectador frente aos media, ao poder público, deixa de ser passivo. Muitos dos agentes protagonistas ainda não perceberam isso”.

Se os agentes protagonistas não perceberam, outros grupos estão abrindo os olhos. Na Itália, o Movimento Cinco Estrelas aposta na democracia digital, com a participação direta popular através da internet. Na Argentina, o Partido de La Red criou uma plataforma digital para participação dos eleitores e todos os parlamentares eleitos pela agremiação seguem o “DemocracyOS” na hora de votar um projeto de lei. O Partido Pirata, que está com chances de vitória na Islândia, defende o que eles chamam de “democracia liquida”, também direta, colaborativa

Voltamos ao Brasil: qual partido hoje consegue se conectar com os eleitores? Qual partido hoje consegue se livrar do caciquismo e ser mais democrático internamente? O presidente Michel Temer afirmou que o alto número de votos nulos e abstenções é um recado para a classe política: a classe entendeu? vai fazer alguma coisa? Ou vai ajustar o processo eleitoral para impedir que novos movimentos políticos tenham êxito sobre a velha política?

O cenário político para 2018 apresenta uma disputa entre Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Alguém acredita que dessas duas forças políticas sairá alguma renovação? O PT levou uma surra nas eleições e mostra ter dificuldades em se renovar. O PSDB saiu fortalecido esse ano, mas sabe que os votos nulos e as abstenções obtiveram sucesso maior. São votos desperdiçados esse ano, mas que podem ser direcionados a novas forças nos próximos pleitos.

O PMDB dispensa comentários. O PSB mostra estar perdido sem Eduardo Campos. A Rede surgiu como um partido para renovar a política, inclusive citou o Partido de la Red (ARG) e o Podemos (ESP) em seu primeiro horário eleitoral. Mas houve traços de caciquismo em algumas cidades nessas eleições, onde a vontade da maioria dos militantes foi derrotada pela preferência dos líderes nacionais em coligações de algumas cidades.

As eleições de 2016 não significaram apenas uma paulada no PT. Todo o sistema foi abalado com uma descrença geral no processo político. Ou surgem novos movimentos políticos, horizontais, cidadãos, decididos a reinventar a política brasileira, ou o eleitorado continuará fugindo das urnas, dando espaço para movimentos autoritários e populistas saírem vitoriosos.

 

Triste? Decepcionado? O primeiro turno das eleições municipais deveria ser esperado

trumpO Facebook se tornou um muro de lamentações da esquerda (e parte da centro-direita também) após os resultados do primeiro turno das eleições municipais. De Norte a Sul do país, é possível constatar a falta de mudanças, o crescimento de personalidades pitorescas e um número muito alto de brancos, nulos e abstenções. Todos nós já sabíamos que isso poderia acontecer, mas a esperança nos cegava da realidade.

O número alto de bancos, nulos e abstenções era óbvio. O brasileiro nunca levou muito a política partidária a sério e perdeu ainda mais a vontade com o noticiário dos últimos anos. Apesar de estarmos vivendo o não o auge da corrupção, mas o início de uma limpeza, o fato de as pessoas passarem a entender como funciona o meio político afasta o eleitor das urnas. As pessoas sabiam que isso existia, mas não queriam detalhes. Agora estão com nojo. Se a maioria da população soubesse que a regularização do título é rápida e custa menos de R$ 5, as abstenções seriam muito maior.

Se a maioria dos eleitores de São Paulo preferiu não votar ou anular/branco, era possível esperar que um candidato que viesse com um discurso anti política fosse o vencedor. Dória tem a cara do coxinha, do empresário mauricinho, mas não tem cara de político. Bastava ele uma campanha bem feita e deixar o serviço sujo de destruir a imagem do PT para aqueles de sempre.

A mesma São Paulo que elegeu o Dória elegeu o Suplicy vereador com mais de 300 mil votos. Apesar da experiência pública de décadas, o ex-senador do PT continua passando a imagem de outsider do meio político.

O Rio de Janeiro, onde a esquerda deposita todas as suas esperanças, também prova isso. Um bispo da Universal e um candidato do PSOL no segundo turno é a prova que o discurso anti-establishment está na moda. O Rio não colocou PT, PMDB, PSDB e outros partidos tradicionais no segundo turno.

O Freixo é a nova força da esquerda justamente porque é diferente. Ele consegue captar a juventude indignada pelo formato político atual.  Se ele ganhar o segundo turno, o Rio de Janeiro será a base para a esquerda no país todo, como foi o governo de Olívio Dutra (PT) em Porto Alegre entre 1989 e 1992.

Com uma campanha diferente, sem recursos de empresa, com pouco espaço para divulgar, as cidades que não possuíam alternativas contra o establishment mantiveram os mesmos. Em Blumenau (SC), o destaque na Câmara foi Bruno Cunha (PSB), que fez uma campanha sem destacar o partido pelo qual é filiado, sem utilizar os termos da velha política.

O sistema político tradicional está falindo no mundo todo. Syriza na Grécia, Podemos na Espanha e Marcelo Freixo no Brasil são exemplos da esquerda que acorda para este novo momento. Trump nos Estados Unidos, Movimento Cinco Estrelas na Itália são exemplos da direita que também sai do modelo tradicional, apelando a uma veia neopopulista.

Os momentos de crise são propícios para o crescimento dos partidos extremistas. Os mais ligados ao Centro precisarão se reinventar.

É hora de falarmos sobre os comentários

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A partir de agosto, o maior jornal do Brasil vai restringir a sessão de comentários no seu portal de notícias na internet. Apenas assinantes poderão comentar as matérias e não poderão ser usados apelidos para identificação: aparecerá o nome do assinante junto com o comentário. A decisão da Folha pode ser vista como radical no primeiro momento, mas é uma triste consequência e uma medida de proteção a selvageria que se tornaram as sessões de comentários dos sites e também nas redes sociais nos últimos anos.

A internet permitiu uma revolução na liberdade de expressão, quebrando o monopólio da emissão de informação, antes reservado aos veículos constituídos. O espaço de expressão do cidadão, antes espremido na área de artigos dos jornais ou em momento de abertura e enquetes de rádios e TV, ganhou novas proporções com a rede. Mais do que interagir diretamente com o veículo, comentando, analisando, rebatendo as informações publicadas, qualquer cidadão passou a ter o direito de ser dono do seu próprio veículo, seja com um blog ou mesmo com um perfil nas rede sociais.

O ônus dessa revolução na liberdade de expressão, como não poderia deixar de ser, é o uso indevido, irresponsável dessa liberdade. Em uma sociedade deseducada, onde o ensino é estritamente técnico e a formação cidadã é deixada de lado, as pessoas ainda não sabem o poder que as redes sociais, os espaços de comentários possuem e acabam escrevendo nele como se fossem conversas reservadas a conhecidos.

O resultado é assustador: mensagens de intolerância, preconceito, ameaças e uma cultura de ódio se prolifera como um a epidemia pela internet. Escondidos atrás de perfis falsos ou mesmo sem o conhecimento que podem ser responsabilizados judicialmente pelo que escrevem, odiadores pregam a barbárie principalmente quando o assunto envolve polícia ou política.

A bárbarie dos comentários de portais de notícias já fez o jornalista e professor Leonardo Sakamoto fechar a sessão de comentários. As ameças contra o jornalista, que é doutor em Direitos Humanos, saíram da internet e começaram a ocorrer fora, levando o autor a refletir sobre isso no livro “O que aprendi sendo xingado na internet”. O assunto também inspiração literária. O escritor Bernardo Carvalho traçou um perfil dos “comentárias de portais” no romance “Reprodução’, lançado em 2013.

Estamos chegando a mais um processo eleitoral, talvez no auge das redes sociais no país como o Facebook. A criação de perfis falsos para denegrir a imagem de adversários será, infelizmente, uma estratégia utilizada em todo o país. Além dos fakes, existem aqueles que se sujeitam a fazer o serviço sujo mostrando a cara, transformando o seu perfil na rede social em um verdadeiro bunker de guerra.

A decisão da Folha de São Paulo, há dois meses das eleições, é um alerta. A previsão é que a baixaria se intensifique nas próximas semanas e o jornal não pretende ser o palco dessa guerra seja que não interessa a ninguém.

Enquanto os jornais se protegem da guerra, é preciso começar a repensar a participação pública nos veículos digitais. A sessão de comentários em baixo de cada notícia precisa ser discutida. Ela realmente é um espaço de interação com os leitores? Possui alguma utilidade? Hoje qualquer cidadão pode se expressar montando um blog ou um perfil no Facebook, Twitter. Será preciso mesmo o espaço de comentários em baixo das notícias? E até quando vamos confundir liberdade de expressão com discurso de ódio?

Jornal Metas tetracampeão em Novas Mídias

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O Jornal Metas (www.jornalmetas.com.br) conquistou no dia 25 de junho, o tetracampeonato no Troféu Pena de Ouro de Novas Mídias, promovido pela Associação dos Jornais de Interior de Santa Catarina (AdjoriSC). Esse prêmio foi criado em 2013 para avaliar os melhores sites dos jornais de interior do Estado e somente o Metas venceu ele. Em 2012, os sites eram uma subcategoria do Prêmio de Ouro do Jornalismo e o bissemanário gasparense também foi o vencedor.

Desde 2012, o site do Jornal Metas está sob minha responsabilidade. A plataforma de conteúdo utilizada é o Polopoly, pertencente a inglesa Atex. É um CMS pouco conhecido por aqui, mas usado por toda a Adjori catarinense.

O layout atual, vencedor esse ano, foi desenvolvido no ano passado por mim e pelo designer gráfico Fábio Moretto. Seguindo um padrão de grandes portais, a capa do site é dividida em setores: Manchetes, Notícias, Plural (lazer) e Esportes. Acrescenta-se ainda a parte multimídia (fotos e vídeos) e os cadernos especiais do jornal.

 

Sobre ética, publicidade e dependência dos jornais

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Folha de São Paulo demite vários jornalistas. Estadão faz limpa na redação. Passaralho na Editora Abril. Notícias de demissões de jornalistas e redução de equipes de redação são cada vez mais frequentes nos dias de hoje. A crise nos jornais impressos não é apenas brasileira, mas anda apavorando os profissionais do setor com os estragos, principalmente no eixo Rio-São Paulo. Mas por que os jornais estão em crise? Por que ser jornalista não é uma boa opção? O mercado editorial conseguirá se recuperar?

Não, não vai. Mesmo que a economia cresça no país, mesmo que os jornalistas tenham sindicatos fortes em todos os estados, aquelas redações gigantes dos jornalões não existirão mais. Por que? Porque a fonte de sustentação dos veículos é a publicidade. E a cada dia de passa, o mercado publicitário se interessa menos pelos jornais.

Com o dinheiro que uma empresa gastava para colocar um anúncio de uma página na Folha de São Paulo, por exemplo, o departamento de marketing investe em publicidade no Google, no Facebook e em outras ferramentas digitais, com um resultado bem melhor. Sim, o Google e o Facebook são adversários do jornalismo na hora de repartir a grana da publicidade, e muito mais atrativos. Para começar porque atinge diretamente o público alvo. Em segundo, porque os jornais impressos possuem cada vez menos leitores. Alguém conhece um adolescente de 13 anos que se interessa por impresso? Pois esse será o consumidor alvo dos próximos anos…

A regra é essa: o jornal depende da publicidade para sobreviver e as empresas gastarão cada vez menos com publicidade em jornais. Sobreviverão os veículos locais, cuja a relação com a cidade onde atuam vai muito além da informação. Os jornalões continuarão, mas com equipes bem mais enxutas que as de hoje.

MAS POR QUE OS JORNAIS DEPENDEM DA PUBLICIDADE?

Por que os veículos erraram lá no começo. Partindo do princípio que a informação é um serviço que se compra, podemos concluir que as empresas de comunicação cobram um preço MUITO BAIXO PELO PRODUTO QUE DESENVOLVEM. A participação das assinaturas e vendas em banca no orçamento de uma empresa é irrisório. Em muitos casos, o jornal é distribuído gratuitamente, ou seja, NÓS DEPRECIAMOS O PRODUTO JORNAL.

Acostumamos os leitores em décadas que a informação é algo “baratinho”, quase de graça. Com a internet, convencemos ele que é bobagem pagar pela informação. Tudo isso porque sobrevivíamos com a verba da publicidade, que agora não gosta tanto da gente como no passado.

Alguns jornalões como a Folha estão tentando reverter essa situação. O paywall no site é uma tentativa de valorizar o produto jornalismo. O cidadão pagaria para ter um produto diferenciado, de qualidade. Os jornais tentam aprender com serviços online como Netflix e Spotify, exemplos bem sucedidos com número alto de assinantes por um produto que não é físico, mas possui qualidade. O problema é que acostumamos demais o público a não pagar (ou pagar pouco) pelas notícias.

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ÉTICA, CREDIBILIDADE E DEPENDÊNCIA

A grande moeda do jornalismo é a credibilidade. Sem ela, é impossível fazer com que o cidadão vá pagar por uma notícia (seja por compra avulsa ou assinatura). E os jornais impressos vivem uma crise de credibilidade. Por que? Porque viveram da publicidade, seja ela empresarial ou estatal, venderam uma imparcialidade que não existe e na internet 3.0 são diariamente questionados.

Existe imparcialidade num jornal que depende da publicidade?Claro que não! Um veículo desses pode ser ético? Depende o que se entende por ética. Admitir que é sustentado por empresas ou estatais e que não irá bater de frente com seus anunciantes seria ético, mas jogaria o mito da imparcialidade no lixo.

E os blogs e sites que surgiram nos últimos anos com posicionamento político claro? É ético um portal de notícias que vive de verbas de um governo fazer um jornalismo parcial para a legenda que o sustenta? Qual a diferença desses sites para os veículos tradicionais, sustentados por grandes empresas que têm seu lado na política?

O jornalismo precisará se reinventar nos próximos anos. Quem não fizer isso irá sumir do mapa. É possível ver dois caminhos: o independente, que buscará recursos juntos aos leitores, cobrando pelos seus serviços e o dependente, que viverá da publicidade ou de apoio de grupos aliados, mas que precisará ser honesto na sua parcialidade.

 

 

Como mensurar qualidade nas redes sociais?

Quantidade ou qualidade? Eis uma pergunta que pode ser aberta em qualquer tipo de discussão. Não importa o segmento, quando falamos em produção, prestação de serviços, este questionamento sempre surge gerando uma controvérsia. Sempre existirão aqueles que avaliam a partir da quantidade, cuja mensuração é matemática, e outros pela qualidade, cuja análise é subjetiva.

A página no facebook de um pequeno site de opinião que administro tinha um número pequeno de curtidas. Decidi ampliar através através do Facebook Ads. Foram poucos reais para ampliar o alcance de algumas postagens interessantes e também em propaganda direta da página, aonde a rede social já apresentava um cálculo que quanto poderia aumentar o número de “likes”.

O resultado, em termos numéricos, foi satisfatório. As postagens tiveram o alcance que resultou em boa repercussão dos artigos publicados no site e o número de likes cresceu conforme prometido pelo Facebook.

Mas quem passou a curtir a página? Trata-se de um blog regional e a publicidade foi direcionada para Blumenau e municípios vizinhos. Comecei a analisar o perfil dos novos “curtidores”. Muitos eram sim, da região, mas o número de pessoas de fora assustou. Até mesmo entre os seguidores locais, o perfil de alguns não eram dos leitores habituais do site. Em alguns casos, pessoas que, se pararem para ler o blog, passarão a não gostar dele.

Eu paguei para o Facebook para ter mais likes e ganhei. Mas preferia ter um número talvez menor, mas com um público mais interessado, engajado. E daí veio a velha pergunta: o que é mais importante? Mais likes ou likes qualificados? Mais visitas ou visitas de pessoas de um público específico?

Na Grande Porto Alegre, o jornal Diário Gaúcho chegou a passar a Zero Hora no número de tiragens na metade da década passada (não sei o cenário atual). Os dois jornais são da RBS e o Diário Gaúcho era o mais lido da região. Ainda sim, o anúncio na Zero Hora era mais caro. Por que? Porque são veículos para públicos diferentes, o mais popular na classe C e o outro nas classes A e B. O que importa nesse caso, não é quantos lêem, mas quem lê.

Trago essa discussão novamente para a internet, onde ferramentas como o Google AdSense é a ferramenta popular para publicação de anúncios. A Google paga pela quantidade de cliques, independente de quem tenha clicado. Vários outros sites utilizam esse formato, chamado de CPM (Clique por Mil Impressões).

O Google filtra esses anúncios e eles só aparecem para o leitor do site se ele tem interesse no assunto, isso ajuda a dar qualidade, levando o anúncio a apenas quem interessa. Mas ainda sim, há dúvidas sobre a qualidade da audiência do site.

Uma página no facebook com milhares de curtidas é uma página popular, certo? Mas quem curte? Quem realmente gosta da página? Uma postagem pode ter 100 comentários, mas boa parte deles pode ser negativos, com críticas ao conteúdo postado. Tem quantidade, tem popularidade, mas não necessariamente qualidade.

Como medir a qualidade de uma página no facebook? Como saber se uma conta no twitter é boa? Quais os critérios para fizer se um blog é bom? A qualidade é, quase sempre, subjetiva. Mas o perfil de quem gosta do site ou da página pode ajudar em muito.

Google e Facebook trabalham nessa segmentação do público. Mas ainda estamos muito preso aos números…