O maior fake da história e a pós-verdade além da notícia

O suposto fotógrafo foi investigado pela BBC Brasil

Um fotógrafo brasileiro de 32 anos, que se recuperou do câncer e virou fotógrafo da ONU, retratando os horrores das guerras pelo mundo. Um humanista talentoso com as lentes, com mais de 120 mil seguidores no instagram. Conhecia pessoas em todo o mundo, mantinha contato com fotógrafos e profissionais de imprensa. Já tinha sido tema de reportagem em vários veículos como a BBC Brasil e a revista canadense Vice.

Uma senhora de meia-idade, militante política de um partido no Brasil, que comentava em todos os portais de notícias e blogs locais durante as eleições municipais brasileiras em 2012. Os blogs que cobriam as eleições recebiam comentários da senhora em todas as postagens. O perfil dela no Facebook trazia poucas informações pessoais, era composto basicamente de postagens políticas, próprias e compartilhamentos.

O primeiro é fake, a segunda existe de verdade.

Eduardo Martins é nome de uma grande farsa descoberta pela BBC Brasil semana passada, talvez o maior fake da história. Suas fotos são roubadas e alteradas, suas histórias, seu emprego, é tudo falso. As fotos de perfil são na verdade de um surfista britânico, seu nome também deve ser falso, pois a conta no instagram e a página pessoal, vamos deletadas após o cerco de fechar. O fake não deixou rastros e sim uma legião de jornalistas e seguidores enganados em todo o mundo.

A militante partidária, que a imprensa local acreditava ser um fake criado para trollar nas eleições, apareceu durante o comercial de TV do candidato que apoiava. Ela existe: nome, fotos, as poucas informações que divulgou sobre si eram reais.

A comparação entre o fake descoberto pela BBC Brasil e a militante política precisa ser feita: na internet, o fake era mais real que a pessoa que existe de verdade. Mas afinal o que é verdade nos tempos de pós-verdade?

Pós-Verdade foi o termo do ano em 2016 segundo o Dicionário de Oxford, editado pela famosa universidade britânica. As razões da escolha estavam principalmente na vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e do Brexit no Reino Unido: a relativização da verdade, quando a crença pessoal vale mais do que os fatos.

Jornalista e pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (UFSC), Carlos Castilho relaciona a pós-verdade com a velocidade que recebemos as informações pela internet.

A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.
Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.

Se uma “verdade” pode ser construída a partir de indícios, de versões, sem comprovação dos fatos, se uma notícia não precisa ser comprovada por quem já possui as mesmas convicções, por que seria preciso que uma notícia, um fato fosse relatado por alguém que exista de verdade?

A estratégia não é nova, está apenas sendo aperfeiçoada. Para difundir notícias falsas, pós-verdades, os seus responsáveis já utilizavam páginas apócrifas na internet como meio de difusão do conteúdo. Sites supostamente jornalísticos são abertos sem expediente, sem um jornalista responsável, sem assinatura dos textos. A hospedagem dessas páginas normalmente ocorre fora do país onde atua, para dificultar uma investigação.

Notícias falsas, páginas apócrifas e as convicções dos leitores que se tornam mais importante que os fatos. O kit da pós-verdade ganha mais um ingrediente. O fake real, um personagem bem construído nas redes sociais, mais verossímil que perfis reais, que passa a ter uma vida na internet como se fosse um character de Second Life.

Profissionais da comunicação fazem campanhas para os leitores prestarem atenção na origem da fonte quando recebem uma notícia via internet. E se o autor da informação for um fake como Eduardo Martins?

A sociedade está doente. E a imprensa tem parte da culpa

Uma professora de Língua Portuguesa agredida em sala de aula por um aluno de 15 anos na cidade de Indaial, Santa Catarina. As imagens da professora com o olho roxo e o rosto sujo de sangue deveriam chocar a sociedade. Por algum intante, imaginei que todos sairiam em defesa da educadora, pedindo providências ao Estado quanto a segurança dos profissionais, com discursos sobre a necessidade da autoridade do professor em sala de aula. Alguns pediriam uma punição maior para o estudante agressor, outros diriam que esse é retrato da insegurança no país, mas haveria um consenso que ela é somente vítima nessa história.

O que vimos, no entanto, foi assustador. A postagem da professora no Facebook teve uma enorme repercussão, mas além das mensagens de apoio e de revolta contra o caso, houve quem atacasse a educadora. E não foram poucos aqueles que se manifestavam dizendo que ela “mereceu”. Por que? Porque ela seria supostamente “de esquerda” e teria feito mensagens de apoio aos protestos contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

É difícil dizer que chegamos ao fundo do poço com a polarização partidária que vivemos, pois a cada diz que passa, algo pior acontece em alguma parte do país, mas basta uma passada nas seções de comentários de portais de notícias e nas redes sociais para afirmarmos a polarização política vive um período doentio e perigoso. Estamos perdendo o controle, a civilidade no debate politico. O que em algum momento do passado foi uma disputa acirrada, mas saudável sobre visões políticas é hoje uma guerra fundamentalista, religiosa, com seguidores fanáticos mais preocupados em destruir (nem que seja socialmente) o adversário que convencer que suas ideias são boas.

O cidadão que, ao saber de uma agressão de um aluno (com histórico de problemas) a uma professora quer saber primeiro se ela é “de direita ou esquerda”, esse cidadão está doente. A pessoa que acha que alguém mereça apanhar somente porque pensa ideologicamente diferente dela possui problemas. Quem defende tortura precisa de um psicólogo urgentemente. E ao que parece, o número de pessoas assim só aumenta.

Esquerda e direita não são religiões. Não são se quer, ideologias e sim classificações para correntes ideológicas sob o aspectos principalmente econômicos. Há esquerdas e esquerdas, direitas e direitas. Nem toda esquerda é marxista, nem toda direita é liberal. Mas isso pouco importa para quem transformou esses conceitos em religiões, em dogmas. Para esses, o que vale é se apegar a algumas características e atacar quem pensa diferente.

A guerra política deixou a sociedade doente. E a imprensa tem culpa nisso. Como? Explico abaixo.

Repare nos argumentos utilizados pelos fundamentalistas dessa guerra. Seja de direita, de esquerda, o que for. Anote os argumentos mais utilizados e faça uma pesquisa ampla no Google. Muitas dessas expressões e ideias foram difundidas na mídia por colunistas, comentaristas e outros formadores de opinião contratados por jornais, emissoras de TV e portais de notícias. Esses formadores lançaram os dogmas e os fieis seguidores passaram a repeti-las nas redes sociais.

A imprensa brasileira fomentou a guerra política. Muitos veículos tomam posições favoráveis ou contrários a determinados governos. Até aí, tudo bem. O problema é que muitos da imprensa embarcaram no fla-flu partidário e se tornaram integrantes da guerra. Como? Contratando brutucus que não tinham a intenção de fazer a crítica política, apenas provocar, ofender, fazer campanha contra o partido adversário. Jornais, revistas e rádios colocaram formadores de opinião desinteressados no debate, queriam apenas a doutrinação: seja ela de direita ou esquerda.

Vimos o monstro do ódio, da intolerância, do fundamentalismo ideológico crescer na internet nos últimos 10 anos. E a imprensa ajudou a alimentar esse monstro para ganhar mais audiência. Agora que a criatura saiu do controle, estamos todos assustados.

Um grupo de nazistas faz passeata em uma cidade pequena dos Estados Unidos e a discussão no Brasil é se o nazismo é de direita ou esquerda. Ou seja, ninguém discutiu o que aconteceu, o foco é atacar o “inimigo”.

A imprensa brasileira está reagindo. Vários desses brutucus perderam espaço nos últimos anos e essa guerra insana está na pauta. Mas os fanáticos ignoram. Talvez seja tarde demais. Eu ia sugerir uma discussão sobre educação e comunicação. Sobre ensinar mídia nas escolas, sobre fake news e pós-verdade. Mas se fizermos isso seremos acusados de “doutrinação”. E agora?

 

 

Newsletter: a volta do e-mail como alternativa às redes sociais

Produção de conteúdo volta a uma ferramenta mais personalizada, distante do casos das redes sociais

Caixas para assinaturas estão de volta a capa dos sites

Mais de 20 mil assinantes mensais, com contas em sua maioria empresariais, que pagam U$ 8 mil por mês por cinco assinaturas. Os números são do serviço de notícias norte-americano PoliticoPro, lançado em 2010 que utiliza a newsletter para levar um conteúdo exclusivo ou em primeira mão para seus assinantes. A proposta, que já possui uma iniciativa semelhante no Brasil, abre uma tendência dos dois últimos anos para a produção de conteúdo: a volta do e-mail como alternativa às redes sociais.

O Politico surgiu em 2007 e a versão Pro (assinantes) em 2010. Segundo o brasileiro Poder 360, são cerca 3550 contas que atingem os 20 mil assinantes. Nem todos utilizam a conta de U$ 8 mil (alguns pagam mais), o que garante mais de U$ 28 milhões por mês a empresa, que possui 200 funcionários na operação, a maioria jornalistas.

O que leva as empresas a pagarem pelo produto? Um conteúdo exclusivo, especializado, enviado com antecedência para os assinantes em newsletters cujas informações trazidas são essenciais para a atividade das empresas (basicamente política e economia). A segmentação é uma tendência do conteúdo digital desde a criação da internet comercial, a novidade agora é o novo papel das newsletters, principalmente como contraponto às redes sociais.

As newsletters surgiram ainda nos anos 90, no início da internet comercial no Brasil e no mundo. Nos anos 2000 a popularização do “mail marketing” na web fez explodir os spams. A compra de listas de e-mails na internet fez com que as caixas de mensagens fossem lotadas de porcarias e com isso os servidores passaram filtrar o conteúdo com as caixas de spams e ou mesmo a criação de uma aba só para conteúdo comercial, como no Gmail.

O MailMarketing permaneceu no mercado, principalmente no e-commerce. Mas o conteúdo jornalístico acabou migrando para as redes sociais, inicialmente o twitter e depois para todas as outras redes. Porém, o excesso de informações nessas redes abriu a possibilidade para o retorno do e-mail, um local aonde o usuário consegue selecionar melhor o conteúdo que deseja ler com mais atenção.

“O que as newsletters fazem, e as redes sociais não, é devolver para o leitor o poder de escolher o que receber e ler. Do lado das empresas de mídia, ainda ajudam a entender melhor o comportamento e os interesses do usuário.
Assinantes de newsletter são, em regra, leitores mais leais e engajados, que querem se relacionar com as marcas e consumir seus conteúdos”, afirmou a gerente de mídias sociais e colunista da Zero Hora, Sabrina Passos, em uma coluna publicada no início do ano.

O próprio Facebook ajudou a potencializar as newsletters no ano passado, quando alterou seu algoritmo dando maior prioridade ao chamado conteúdo “friend-family”, isto é, postagens e fotos pessoais, reduzindo a visibilidade de postagens de páginas de empresas. Ao invés de pagar por anúncios na rede, muitos projetos de conteúdo optaram por mudar de estratégia na divulgação.

O Poder 360, projeto editorial do jornalista Fernando Rodrigues, também aposta no e-mail. O portal de notícias conta com publicidade e está aberto ao público (sem paywall), mas o foco é a ferramenta Drive, semelhante ao PoliticoPro, uma assinatura paga de uma newsletter focada em informações estratégicas da política nacional.

Sair do e-mail para que?

Tanto no Brasil quanto em Portugal, os principais jornais online já utilizam (ou sempre utilizaram) as newsletters, que aparecem cada vez com mais destaque na capa do site e com várias opções de assinaturas, personalizando a distribuição do conteúdo.

O destaque agora é para a criação de veículos exclusivos em newsletter ou com destaque principal, diminuindo a necessidade de audiência pelas redes sociais. O Manual do Usuário que é também um podcast, é um dos bons exemplos no Brasil, assim como o Canal Meio, que envia seu conteúdo apenas por e-mail (a página na internet é uma mera apresentação).

Jornalista e professor, Evandro de Assis lançou recentemente em Blumenau o “Fio“, um serviço semanal de notícias também focado na Newsletter, apesar de estar presente nas redes sociais e com o conteúdo disponível em um blog no Medium. A proposta do Fio é fazer um resumo do que está acontecendo na região de Blumenau numa leitura de cinco minutos, oferecendo também links para outros sites.

“A estratégia é mesmo não depender do Facebook. Por isso o conteúdo vai todo no email. O leitor não precisa acessar nosso site para ter acesso ao conteúdo”, comenta Evandro que afirma preferir mil inscritos a 100 mil acessos, já que garante uma maior fidelização.

Os brasileiros confiam nas notícias e os números que vem da Espanha

O Brasil é o segundo país onde os usuários de internet mais confiam nos meios de comunicação, com 60% de confiança. O líder é a Finlândia com 62%. Os números são do Reuters Institute Digital News Report 2017, um estudo feito pela Universidade de Oxford com 72 mil pessoas em 36 países e foi usado como base para o Digital News Report 2017 Espanha, produzido por pesquisadores do Center for Internet Studies and Digital Life da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, publicado nesta quinta-feira (22).

Os números detalhados da Espanha apontam para um crescimento do consumo de notícias pela internet e também um aumento da confiança nas notícias, com 51%, 9% a menos que o Brasil. Mas outros dados apresentados servem de alerta não apenas para a imprensa espanhola, mas para todo o mundo. O desinteresse dos jovens pelas notícias, a resistência ao conteúdo pago na internet, a força dos móveis e a queda livre dos impressos já eram esperados e estão provados no relatório.

O Digital News Report 2017 Espanha você confere AQUI. Veja abaixo, alguns números interessantes do relatório:

50%

dos entrevistados afirmaram que evitaram ler notícias por diversas razões

53%

do público digital não paga NADA para se informar (em meio nenhum) e apenas

9%

pagou por conteúdo digital em 2016.  e já

57%

acha muito improvável que vá pagar alguma informação digital em 2017.

Entre os que pagam

39%

contrataram uma assinatura digital, contra 38% de uma assinatura que inclui outros serviços

e apenas

14%

fez algum tipo de doação sem assinatura para um serviço de informação digital. Leitores de blogs e redes sociais são os que possuem menor disposição para pagar pela informação, comparado aos que são informados mais por meios impressos, rádio, TV e outros digitais.

E o motivo principal para as pessoas não pagarem por conteúdo é óbvio: para

55%

o motivo é a facilidade para conseguir as notícias gratuitamente.

Além de não pagarem, os usuários estão impedindo que a publicidade apareça nos portais de notícias com

28%

afirmando que usa os “ad blocks”. Quando o público se restringe dos 18 a0s 24, o número de usuários com bloqueadores sobe para 47%.

A televisão é ainda o meio favorito para se informar com

42%

da preferência. A internet vem em segundo com 39%.

Entre os jovens, a internet já lidera a preferência com

61%

contra 27% da televisão tradicional. Só as redes sociais e blogs possuem 33%

Observações:

Além do dado que o Brasil é um dos países com maior confiança online nos meios de comunicação (aquele seu amigo revoltado vive numa bolha) destaca-se o posicionamento dos jovens espanhóis na pesquisa. A maioria lê pelas redes sociais/blogs, não paga por conteúdo, não acredita muito nos meios tradicionais e ainda bloqueia a publicidade que poderia bancar o veículo. Como sustentar um jornal digital voltado a esse público?

 

A Globo, a greve e os critérios de noticiabilidade

FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil

Você pode ser contra uma manifestação como a Greve Geral, mas como jornalista, você precisa abordá-lo

Na última sexta-feira (28), a primeira greve geral do Brasil em 21 anos teve a adesão de mais de 30 milhões de brasileiros segundo as centrais sindicais, responsáveis pela mobilização. O protesto foi contra as medidas de austeridade do governo Michel Temer que incluem a reforma trabalhista, já aprovada na Câmara dos Deputados e que segue para o Senado, e previdenciária, ainda nas comissões legislativas. Os serviços públicos essenciais como saúde, educação e principalmente o transporte coletivo (ônibus e metrôs) foram os que registraram maior adesão, afetando significativamente a população brasileira.

O assunto recebeu ampla cobertura midiática no dia da greve, que iniciou com manifestações ainda na madrugada. A cobertura não foi feita apenas por veículos brasileiros, mas também pela mídia internacional, com destaque para BBC e El País, que possuem redações no Brasil. No entanto, a cobertura antes do dia 28 da principal emissora de televisão do país chamou a atenção.

Jornalista responsável por um blog sobre televisão no portal UOL, Maurício Stycer destacou a ausência da pauta da greve nos noticiários da TV Globo na quinta-feira (27), véspera do protesto. O Jornal Nacional, carro chefe da emissora no jornalismo e no SPTV, edição local para o Estado de São Paulo não fizeram menções ao evento, anunciado em março, com confirmações de adesão ao longo da semana.

“O ‘SPTV’ segunda edição, que sempre presta serviço aos espectadores em caso de decretação de greves em serviços essenciais, não tratou do protesto que ocorrerá nesta sexta-feira em São Paulo. O principal telejornal da emissora, o ‘Jornal Nacional’, igualmente ignorou o assunto, apesar de o movimento ter alcance nacional”, afirmou Stycer em seu blog.

Durante a sexta-feira (28), a emissora cobriu os protestos e ressaltou que tinha sua equipe de cobertura desde o início da manhã acompanhando o assunto. Porém, não se manifestou sobre a não menção ao assunto no dia anterior. Stycer encontrou apenas uma resposta do apresentador do programa Bom Dia RJ, Flavio Fachel, que foi questionado no Twitter sobre o silêncio: “O que é notícia? O que acontece. E a greve? Se acontecer, a notícia é amanhã. #Jornalismo”, respondeu o apresentador.

Noticiabilidade

Tratando o fato como uma decisão editorial da TV Globo (não é possível imaginar que tenha ocorrido um mero esquecimento), voltamos a discussão sobre os critérios de noticiabilidade. O que é uma notícia, afinal? Quais assuntos se tornam notícia e, por isso, devem ser reportados pelos jornalistas?

Para definir os critérios de noticiabilidade, utilizamos o conceitos de Mauro Wolf, que define noticiabilidade como “O conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, de entre um número imprevisível e indefinido de factos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias“. Segundo o autor, os acontecimentos que reunirem o maior número de critérios de noticiabilidade serão transformados em notícias para publicação.

Entre os critérios estão o impacto do acontecimento sobre a nação e o interesse nacional, a quantidade de pessoas envolvidas no fato, a relevância e significatividade do ocorrido, além da atualidade e da disponibilidade do veículo de comunicação poder fazer a cobertura sobre o assunto.

No caso, o fato é que os sindicatos haviam anunciado a paralisação dos serviços de transporte e educação básica, entre outras categorias que aderiram à paralisação. Somente a greve nos metrôs e ônibus já atende quase todos os critérios citados anteriormente: atinge a maior parte da população de uma cidade, é de interesse nacional (protesto contra reformas de austeridade), é extremamente atual (ocorreria no dia seguinte), fácil de se noticiar e a emissora possui estrutura para cobrir a paralisação (tanto que fez isso).

Ética e posição editorial

Um levantamento da ONG Repórter Brasil feito na última semana apontou que os principais veículos de comunicação do país fizeram uma cobertura desequilibrada da reforma de previdência. Foram analisados textos e matérias em vídeo entre 21 de novembro e 20 de dezembro de 2016, período que compreende duas semanas antes e duas semanas depois da protocolação do projeto de lei pelo Executivo no Congresso. A TV Globo foi a de maior adesão a proposta, 91% do tempo das matérias dedicadas ao assunto foram para argumentos favoráveis. No impresso, a maior cobertura favorável foi da mesma empresa: O diário O Globo dedicou 90% dos textos para defender o projeto.

No entanto, a posição favorável as reformas de austeridade do governo não foi vista na véspera do protesto contra essas reformas, já que a emissora se quer abordou o assunto. O Código de Ética dos Jornalistas, em seu artigo 2, afirma:

Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não governamentais, é uma obrigação social.
V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.

 Considerações

O posicionamento da TV Globo, favorável as reformas trabalhista e previdenciária e contrária ao movimento de greve geral contra as reformas é evidente e um direito da emissora, apesar de questionamentos éticos sobre o posicionamento político de uma emissora com concessão pública também poderem ser feitos. Porém, este posicionamento editorial não justifica a omissão da informação, um explícito delito ético com consequências negativas para a sociedade.

A tentativa de defender as reformas omitindo os protestos contrários não impediu que a greve geral ocorresse e prejudicou cidadãos que eventualmente se informaram sobre as notícias apenas pela emissora. A não funcionamento de serviços essenciais como transporte e educação precisa ser noticiado, independente da concordância ou não com os motivos da paralisação.

A TV Globo não apenas desdenhou do movimento, mas também da população, pois os demais veículos de comunicação, em rádio, TV, impresso e internet divulgaram a greve.

Crise no Ads? A qualidade de volta no centro da pauta

A crise dos veículos de comunicação impressos continua no mundo. No começo do mês foi a vez da Gazeta do Povo, maior jornal parananese, apostar na internet tornando a edição impressa semanal (antes diária). Os mundiais New York Times e El País já se preparam para deixar suas edições no papel. Neste cenário, o maior desafio dos veículos digitais sempre foi a sustentabilidade, já que a publicidade possui outras plataformas para anunciar como as redes sociais, diminuindo o poder dos jornais. No entanto, um artigo recente do inglês The Times, também reproduzido no Wall Street Journal abriu um novo ponto de discussão na publicidade online: a qualidade do conteúdo versus a audiência.

O artigo mostrava vídeos extremistas publicados no YouTube com anúncios de grandes empresas. A lógica é simples: através da ferramenta de monetização da plataforma, o anunciante escolhe local, público e assuntos relacionados, mas não escolhe quais vídeos no YouTube aparecerão sua marca. Vídeos com conteúdo extremista, violentos ganham audiência justamente pela sua natureza. Com isso, indiretamente a grande empresa acaba anunciando o canal.

A repercussão do artigo foi enorme e várias empresas anunciaram o cancelamento de campanhas no YouTube, que decidiu reagir anunciando mudanças no programa de monetização. Além de obrigar o canal a ter pelo menos 10 mil visualizações, eles passarão por uma análise antes de começar a receber.

O caso despertou a ira de muitos youtubers brasileiros, que acusam o Wall Street Journal se lançar uma campanha contra o YouTube. Eles reclamam que a monetização sofreu uma drástica redução deste então, prejudicando os negócios.

Audiência x qualidade

A grande questão da internet em relação aos outros meios está justamente na sua forma de publicidade. O Google AdSense e o Facebook Ads têm a audiência como única métrica para avaliar um site ou um canal no YouTube. Fazem isso porque é um critério numérico, que pode ser feito por um computador. Não há como o algoritmo do Facebook, por exemplo, avaliar critérios éticos de um produto jornalístico.

Com a promessa de um anúncio mais preciso, especificando o público por idade, sexo e gostos (a partir de palavras-chaves), as ferramentas das redes sociais monopolizaram a publicidade digital. Mas agora o The Times e o Wall Street Journal apontaram claramente a falha: o risco de associar a marca das empresas com conteúdo de má qualidade.

Essa discussão no mercado publicitário é fundamental para os rumos da comunicação. É fundamental para a sociedade, para as democracias, que o jornalismo ético, responsável e de qualidade continue existindo. Para isso, ele precisa ser financiado, por leitores ou anunciantes.

Não há um caminho definido, uma fórmula pronta de como será os veículos de comunicação online das próximas décadas. Por isso, o debate agora é fundamental e uma pergunta continua em aberto: como medir a qualidade do conteúdo?

Publicidadade online: UOL questiona modelo do Google AdSense

Pós-verdade, fake news, sites de notícias falsas, crise nos veículos de comunicação. Alguns dos termos mais usados na comunicação em 2016 continuam em voga no ano de 2017. E o maior portal de conteúdo do Brasil resolveu se manifestar oficialmente contra o modelo consagrado do Google, o AdSense: anunciar na plataforma significa ajudar a financiar as fake news? Ou a culpa é somente do leitor?

O editorial do UOL, algo não muito comum na empresa, foi publicado na sexta-feira (31) com o seguinte título: É hora de repensar a publicidade online. O texto cita a decisão de anunciantes que não utilizar mais plataformas digitais para suas propagandas (ou então uma redução nesse investimento), uma referência a notícia que empresas norte-americanas como AT&T e Verizon decidiram cancelar campanhas no Google e YouTube para não ter a marca associada a vídeos e publicações extremistas.

Vem aí o ataque ao modelo AdSense. Diz o UOL: “alguns dos maiores anunciantes do mundo reduziram ou encerraram o investimento em algumas das principais plataformas de mídia digital. O motivo? Propaganda associada a conteúdos falsos ou ilegais. Pela impossibilidade de controlar o contexto de veiculação e pela falta de transparência nas métricas para mensuração das entregas e resultados. Entendemos que essas notícias sinalizam o início de um movimento importante do mercado“.

A associação é simples. Quando você anuncia no Google AdWords, você escolhe palavras-chave, ocorrências, regiões, mas não define quais sites dentro dessas palavras-chave vão usar o banner do Google internamente. Por exemplo: uma shopping center investe R$ 500 em Google AdWords e foca em uma cidade específica, com público variado. Um blog de notícias falsas da mesma cidade coloca um banner do AdSense e utiliza o nome do município constantemente na página. O anúncio do shopping acaba parando na página que, se tiver uma audiência muito grande, receberá dinheiro do Google. O empreendimento não apenas ficou com a imagem associada ao blog, como ajudou a financiá-lo.

O texto do UOL provoca em outras duas oportunidades: “…finalmente algumas empresas perceberam que colocam suas marcas em risco ao anunciar em páginas e vídeos sem se preocupar com o conteúdo ou contexto que está associado a elas…nos apresentamos como empresa confiável para audiência e anunciantes, uma alternativa segura, com alcance…com baixíssimo risco em associação com conteúdo indesejado, tráfego fraudulento ou discrepância entre o que é contratado e o que foi efetivamente veiculado, ainda mais se comparando com investimento em ‘mar aberto’, focado apenas nos dados de audiência…”.

O fuga dos anunciantes de jornais e portais de notícias para plataformas como Google e Facebook (que acabam ficando com a maior parte da receita) é um assunto discutido há alguns anos no jornalismo, comentado inclusive aqui neste blog. Agora, com os sites de notícias falsas em evidência, o UOL apresenta em um editorial, uma das estratégias dos veículos jornalísticos para recuperar esses anunciantes: a associação da marca com um produto de credibilidade.

Google AdSense é usado em sites de notícias falsas, mas também em de grande credibilidade como El País

Mas o que levou os anunciantes a deixarem os jornais e partirem para essas plataformas? Uma crise de credibilidade dos veículos ditos tradicionais? A facilidade de alcançar o público-alvo sempre foi visto como o principal. No Google e Facebook, você escolhe a idade, a região e outras palavras associadas, isto é, você consegue segmentar o público e ter resultados com maior exatidão. Mas tem mesmo?

Dificilmente o Google e o Facebook terão seus monopólios ameaçados em curto prazo, até porque, as empresas estudam formas de excluir os sites de notícias falsas do seu modelo. Mas a movimentação do UOL é interessante e pode trazer algum resultado. Para isso, o anunciante não poderá olhar apenas os números, mas também a imagem, aonde está estampada sua marca.

 

A Amazon e a “polêmica” com Dória. Aonde vamos parar?

O ano de 2014 ainda não acabou. Não foi apenas do 7 a 1 que viveu este fatídico ano, mas também nas eleições presidenciais, que teve a morte de um presidenciável, reviravoltas nas pesquisas e o aprofundamento da rixa PT/PSDB que dura até hoje e ninguém aguenta mais. O nível do debate entre petistas e tucanos está tão baixo e paranoico que até mesmo uma propaganda boba da Amazon é motivo de polêmica.

Tudo isso porque a Amazon decidiu fazer um comercial em vídeo para o seu e-reader Kindle brincando com a polêmica dos muros pintados de cinza em São Paulo. A propaganda inicia com a pergunta “Cobriram a cidade de cinza?” e depois mostra projeções nesses muros com frases famosas de livros. No fim, a Amazon afirma que “cobriu o cinza com histórias”.

Uma brincadeira leve com a polêmica da cidade e uma referência ao kindle, aparelho não colorido que possui uma tele num tom cinza bem claro. Mas houve quem viu ação política no caso e até mesmo o prefeito João Dória (PSDB) entrou nessa e respondeu provocando a Amazon.

Pronto. O assunto caiu nos trendtopics do Twitter com petistas e tucanos se matando novamente, agora por causa do comercial. Quem assistiu e não está contaminado percebe que foi uma mera brincadeira da Amazon, sem o objetivo de criticar a ação do prefeito, apenas aproveitaram o ganho do cinza para vender kindles. Mas para os fanáticos (dos dois lados) foi uma ação politizada.

Blogueiros de esquerda elogiaram a Amazon e aproveitaram para trazer o assunto de volta. O tal Movimento Brasil Livre (MBL), comportando-se como um cão de guarda da gestão Dória, partiu para cima nas redes sociais (e no seu site satélite) contra a empresa americana a ponto de dizerem que o comercial foi um fracasso.

Aonde é que nós chegamos? Tudo no Brasil vira a rivalidade PT-PSDB, até mesmo um comercial bobo de uma empresa para vender e-readers.

 

Atletiba no Youtube/Facebook – o futuro do entretenimento chega ao futebol brasileiro

A Federação Paranaense de Futebol bem que tentou, mas o maior clássico do futebol do Paraná foi para a internet. Atlético Paranaense x Coritiba fizeram o primeiro “Atletiba” transmitido exclusivamente pela web, através das páginas oficiais dos times no YouTube e Facebook. Há quem diga que isso é uma revolução dos clubes contra o império da rede globo e o monopólio nas transmissões de futebol. Que nada, isso é apenas o princípio de uma adequação a realidade. Vamos aos fatos:

– Coritiba e Atlético Paranaense romperam com a Globo no Brasileirão. Eles fecharam com a TV Esporte Interativo, hoje pertencente a Turner Broadcasting System, dona da CNN, TNT e outros canais americanos. A mudança será em 2019. Eles trocam para se livrar da tirania da Globo? Não, apenas trocaram por alguém que paga mais para transmitir o jogo deles.

– Coritiba e Atlético Paranaense romperam com a Globo no Campeonato Paranaense. Eles não aceitaram a proposta da emissora para o torneio estadual, que tem os direitos de transmissão mediados pela Federação Paranaense de Futebol (no Brasileirão, a negociação é direta). Não aceitaram porque entenderam que o valor era baixo demais.

– Para o clássico, eles decidiram transmitir o jogo pela internet. Contrataram quem para isso? Gente da Esporte Interativo, claro. Isso é maldade? Não, é uma obviedade. Se a nova emissora esportiva já é parecida dos clubes, porque não contratar profissionais deles para o evento?

– A Federação Paranaense não deixou a primeira partida ocorrer, alegando que a equipe de transmissão não estava credenciada, justificativa fraca, pois eram funcionários contratados pelos clubes e não uma imprensa externa. Por que a entidade fez isso? Porque ela sai perdendo financeiramente quando os clubes negam uma venda de direitos de TV mediada por ela.

– Isso é uma revolução? Não. Não há nada de revolucionário, de desafiador em transmitir pela internet. Romper com a Globo e apostar numa emissora nova, sem muita audiência e tradição no Brasil é uma decisão muito mais difícil de ser tomada, mesmo que a proposta financeira seja mais alta. Não há como comparar a audiência da Globo com qualquer outra emissora de TV.

– É uma ameaça ao império da Globo? Ainda não, mas um bom recado. A população mais jovem vive no YouTube, no Netflix e não na frente da televisão do meio tradicional. A maior parte da população brasileira, HOJE, ainda se informa e se entretém da forma tradicional, pela TV aberta, mas com o passar dos anos a tendência é que a coisa mude.

A Esporte Interativo já sabe disso. E já vende alguns pacotes de transmissão pela internet, como do Nordestão e a Champions League. A transmissão de eventos ao vivo não é novidade nem no Brasil. Em 2008, o Portal Terra colocou cinco transmissões simultâneas das Olimpíadas, de graça, em seu site. O YouTube, desde que lançou a plataforma ao vivo, já passou shows e outros eventos de entretenimento. Uma hora chegaria ao futebol.

Os times do Paraná são pioneiros, trouxeram algo que era inevitável ao futebol. Daqui a uns anos, estaremos lembrando desse jogo como pontapé inicial. Mas não chega a ser uma revolução, pois é algo que já acontecia em outros entretenimentos e também no esporte (outros países/modalidade). A questão não é enfrentar a Globo, a questão é levar o futebol aonde os mais jovens estão.

– Vamos nos livrar da Globo? Não, necessariamente. A maior emissora do Brasil ainda possui créditos com os clubes e possui totais condições de se adequar ao novo mercado. Talvez, o que mude logo seja o engessado Pay Per View, que não dá nenhuma opção ao consumidor, a não ser comprar o Brasileirão todo.

Ah, sim. A Netflix ainda não entrou nessa de transmissões ao vivo. Mas uma hora entrará….

O mundo se reorganiza ideologicamente. Menos o Brasil que entrou agora numa “guerra fria”

FOTO: Matt A.J.

Explicar a conjuntura política internacional nos últimos anos está cada vez mais difícil. A complexidade do tema tornou-se ainda mais profunda depois da crise mundial de 2008 e os recentes resultados eleitorais em diversos países fazem com que aquele organograma de ideologias políticas que aprendemos no Ensino Médio fique ultrapassado.

Começamos pelos Estados Unidos. O país do capitalismo, o líder mundial do processo de globalização elegeu um presidente dito ultraconservador republicado. Até aí, a ideia que temos é de um novo Ronald Reagan, responsável pela desregulação dos mercados na década de 80. Mas o empresário Donald Trump possui ideias muito diferentes: pregou contra a globalização nas eleições, defende políticas protecionistas exageradas e suas primeiras ações como presidente foi tirar os Estados Unidos do acordo comercial do TransPacífico e agora quer rever o NAFTA, o acordo de live comércio da América do Norte, com Canadá e México.

Vamos a Europa, aonde também cresce uma “direita extremista” por aqui. A Frente Nacional da França, o Partido da Liberdade dos Países Baixos, Alternativa para a Alemanha e o UKIP do Reino Unido têm em comum o nacionalismo, a crítica a globalização, a defesa de adoção de medidas contra o live comércio mundial, a adoção de moedas próprias e o populismo.

É estranho, no primeiro momento, vermos uma direita agindo contra o livre comércio. Mas é isso mesmo que estamos vendo. E outros fatos devem ser acrescentados: Marine Le Pen, líder da FN na França, apoiou a elogiou o governo dito de extrema-esquerda na Grécia do SYRIZA, quando o primeiro ministro grego decidiu enfrentar o FMI e a União Europeia fazendo um plebiscito para saber se a população apoiava pagar a dívida externa que o país possuía. Sim, uma líder de direita elogiando uma ação que em terras brasileiras era pregada principalmente pelo PSTU (Não a Alca, a dívida e o FMI, quem lembra desse lema?).

E a direita tradicional europeia? Na poderosa Alemanha, governa de mãos dadas com a centro-esquerda. A CDU de Angela Merkel governa JUNTO com o SPD, tendo o líder social democrata Sigmar Gabriel como vice-chanceler.  A mesma Merkel que é aliada de primeira hora de François Hollande, o presidente da França eleito pelo Partido Socialista, também de centro-esquerda.

O que está acontecendo, então, na Europa? A centro-direita e a centro-esquerda andam tão parecidas que chegou ao ponto de se unirem oficialmente na Alemanha. Hollande, na França, trabalha na reforma das leis trabalhistas, Merkel governa com uma grande de proteção social, ou seja, os dois se encaminham para o CENTRO, com uma política social-liberal, capitalista que não abre mão dos direitos sociais. Um centro internacionalista, europeísta e liberal nos costumes.

Esse movimento já ocorria há alguns anos na centro-direita e centro-esquerda europeia, mas a crise de 2008 mudou o jogo. Esse centrismo passou a ser questionado pela população, que exige resultados de seus governos. Abriu-se, então, espaços para novos atores políticos: a direita nacionalista cresceu muito e a esquerda mais radical começa a dar seus passos, inicialmente na Grécia e agora dentro dos partidos de centro-esquerda. O PS francês pode lançar para presidente esse ano, um crítico do próprio governo que eles detém. E o líder do partido trabalhista inglês é também um sujeito que sempre foi rejeitado pela cúpula partidária.

Na Espanha e em Portugal, a direita nacionalista ainda não ganhou corpo por razões específicas. Em Portugal, a centro-esquerda precisou dos partidos ditos mais extremistas para voltar ao poder. Na Espanha, há dois movimentos horizontais, de centro (Ciudananos) e esqueda (Podemos) que embaralhou todo o cenário político.

A Itália já possui um partido no poder que é de “extremo-centro”. O Partido Democrático (PD) já é a junção da centro-direita e centro-esquerda. Seus principais adversários são a direita extremista do Berlusconi e o “anti-tudo” Movimento Cinco Estrelas, mas que também tem posições nacionalistas.

Ou seja, na Europa a polaridade direita-esquerda continua existindo, mas deixa de ser o eixo principal para dar lugar a dualidade nacionalistas extremistas x centristas europeístas. O que separa a extrema-direita e a extrema-esquerda é a visão sobre os refugiados, pois a crítica ao comércio global é praticamente a mesma. Se bem que Jeremy Corbyn, o líder do trabalhismo inglês, vem sendo acusado de não lutar contra o Brexit.

E o Brasil?

Bom, o Brasil também está entrando em uma nova fase. Uma fase que o resto do mundo ocidental passou nos anos 50, 60, 70 e 80, a guerra fria. A crise política e a falência do discurso dos rivais PT e PSDB somada a todo o fisiologismo do PMDB fez com que nascesse no Brasil uma direita anos 80 no país. Preocupada em combater um regime político que sumiu do mapa em 1989, essa nova direita evoca um conservadorismo de Reagan, mas sem conseguir compreender o que ocorre no mundo hoje.

Essa nova direita paranoica apoia Trump chamando Hillary Clinton de esquerda, sem conseguir enxergar que as ideias de Trump para a economia são mais parecidas com as do PT, enquanto o PSDB se espelha mais no modelo de Clinton. É uma direita que olha para o bilionário capitalista George Soros como um “esquerdista” só porque ele usa seu dinheiro para combater o novo governo Trump (uma obviedade, visto que o bilionário sempre lucrou com o livre comércio mundial).

Se essa direita (que acha que a Globo é socialista) cresce e ameaça o monópolio eleitoral do PSDB, o lado da esquerda também não anda muito bom. Apeada do poder no ano passado, a esquerda tupiniquim está rachada e numa crise existencial. De um lado o PT, um socialdemocrata em crise que tenta se recuperar sem autocrítica, achando que o povo tem a obrigação de votar em Lula em 2018 pelos feitos ocorridos há uma década. O partido conta com uma militância que possui uma ala ultrarradical que enxerga somente nela a salvação para o país (fui bloqueado por um fake famoso deles, aliás). Do outro o PSOL, um partido acadêmico, com ideias novas, mas ainda muito longe daqueles que eles afirmavam mais defender.

Ou seja, o cenário político brasileiro é incerto e nada parecido com as movimentações que ocorrem pelo mundo, a não ser pelo crescimento do populismo, comum em qualquer república durante tempos de crise…