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O desafio de se fazer um jornalismo mais colaborativo

WordPress e outras experiências mostram os resultados de um trabalho coletivo

Lisboa recebeu no último final de semana (18 e 19 de maio) uma edição do Wordcamp, congresso da comunidade do WordPress, a mais popular plataforma de conteúdo. Programadores e designers dominaram o evento entre os participantes, mas as lições da Wordcamp devem ser colocadas em questão na imprensa. É possível fazer um jornalismo mais colaborativo?

Cerca de 34% das páginas da internet utilizam WordPress. Se contarmos apenas as plataformas de gestão de conteúdo, o WordPress chega a dois terços da internet. Quais os segredos do sucesso deste CMS (Content Management System)? Uma plataforma fácil de usar, aplicável para qualquer tipo de proposta online, com atualização permanente e totalmente gratuita.

O WordPress é um código aberto sob de uma fundação sem fins lucrativos, mantido e atualizado por uma comunidade internacional de programadores, designers. Todo mundo pode contribuir com o desenvolvimento da ferramenta, que melhora muito a cada atualização, sem custos para instalação e uso.

Ações e resultados

Fórum para desenvolvedores, tradução, a comunidade de WordPress se organiza de forma prática. Quem quiser colaborar de algum jeito, terá espaço e orientação para fazer isso. O resultado deste trabalho colaborativo é a ferramenta cada vez melhor. O WordPress surgiu em 2003 como um blog e é hoje uma referência para qualquer tipo de página.

Hoje é possível montar blog, portais de notícias, sites institucionais e até lojas no WordPress. A comunidade garante versões em todos os idiomas e ajustes de acordo com características de cada país.

Voltamos ao jornalismo. Desnecessário falar sobre artigo sobre a crises das empresas de comunicação e a necessidade de se reinventar. Mas quem possui capital e força de trabalho para fazer as devidas inovações? Quem consegue se arriscar em um mercado cada vez mais incerto?

Experimentações interessantes

Pesquisar e propor alternativas a crise é também papel das faculdades de comunicação. As universidades, em tese, possuem condições de criar laboratórios para inovação. E sobre colaboração, destaca-se um caso da Escola de Comunicação e Mídia da Montclair State University dos Estados Unidos, relatado aqui.

Para contar histórias sobre imigração, a escola de Comunicação fez um trabalho coletivo com a partir dos estudantes e em poucos dias tinha mais de 32 matérias, programas de TV ao vivo entre outras ações. A publicação do Nieman Lab (traduzida pelo Poder 360) traz ainda outro caso da Inglaterra, onde jornais locais se uniram por uma campanha em prol de melhorias no Norte do país.

Queremos ser colaborativos?

Quanto o jornalismo deseja ser colaborativo? Qual o real interesse das empresas de mídia em colaborar entre si? Se os jornais possuem dificuldades financeiras e precisam seduzir seus públicos, por que não atuam em conjunto?

Espirito de concorrência? O grande concorrente de um jornal não é outro jornal e sim o descrédito da população pelas empresas de mídia. No artigo anterior deste blog, foi abordada a necessidade de se fazer um jornalismo ainda mais qualificado. Os argumentos apresentados pelos donos de jornais é sempre a falta de recursos para isso, mas poucos buscam saídas alternativas.

Pode fazer sentido o espirito de concorrência falar mais alto em grandes conglomerados de comunicação. Porém, quando falamos em imprensa local, o argumento se se desfaz. Um jornal pequeno tem, de fato, pouco espaço e dinheiro para inovar, mas teme demais em ousar, em colaborar. Para alguns jornais locais, o digital não é prioridade porque concorre com o impresso. Se eles não querem colaborar nem dentro da empresa, imagina fora.

Caminhos

Convencer um dono de jornal, um editor que está há 30, 40 anos fazendo jornalismo da mesma forma a mudar é realmente difícil. Porém, as soluções apresentadas neste texto podem ser aplicadas aos novos media. Convencer jornalistas independentes e pequenos novos projetos e trabalhar de forma colaborativa talvez seja a saída. Será assunto para um novo post, em breve.

O jornalismo ainda pode pautar a opinião pública

Fazer jornalismo ficou mais difícil, porém não impossível

As discussões em torno de um impeachment do presidente Jair Bolsonaro dominaram o Twitter nesta sexta-feira (17), com a hashtag #impeachmentbolsonaro sendo a mais comentada do dia no Twitter, a principal rede social usada por políticos. Porém, não foi uma denúncia específica contra o presidente que fez com que os usuários subissem a hashtag e sim um artigo do jornalista Reinaldo Azevedo publicado no site da Folha de São Paulo.

Apesar dos primeiros meses do governo serem marcados por polêmicas e pelas investigações contra um dos filhos do presidente ter avançado nas últimas semanas, foi o artigo que fez o assunto ser abertamente discutido nas redes sociais. Outro artigo do mesmo jornalista, em seu blog no mesmo dia, também tornou-se um viral e manteve o assunto na ordem no dia. E a discussão que proponho aqui não é sobre a política partidária brasileira, é sobre o papel do jornalismo nos dias de hoje.

Foi um artigo de um jornalista (e não um digital influencer) publicado em um jornal antigo e conhecido que pautou o Twitter. Ainda no campo político, apoiadores do presidente fizeram na quarta-feira (15), mais uma campanha para o público boicotar o Jornal Nacional naquela noite. Era o dia de grandes protestos contra o governo e todos sabiam que seria esse o assunto principal do jornal. Milhares foram às ruas e os apoiadores do presidente se preocupavam com a repercussão no mais famoso telejornal brasileiro.

Canal direto com a sociedade

Os exemplos envolvendo o presidente do Brasil são simbólicos. Bolsonaro foi eleito com apenas oito segundos na TV no primeiro turno e muitos anunciaram a morte da importância da TV aberta por causa disso. O entendimento era que se o presidente foi eleito sem precisar do horário eleitoral gratuito na TV (foco total em campanhas pelo Whatsapp), as emissoras não tinham mais o poder de antigamente.

Os telejornais brasileiros falaram de Bolsonaro o tempo todo. Positivamente ou negativamente, o atual presidente foi o personagem central da cobertura do noticiário. Antes da eleição, o personagem principal do noticiário na TV era Lula, que liderava as pesquisas.

Pergunto: o marketing eleitoral de Bolsonaro ignorou a TV ou soube usá-lo ao seu favor, criando fatos que tornavam o candidato o assunto principal dos noticiários? Bolsonaro ganhou sem a ajuda da televisão ou ganhou sabendo usar a televisão ao seu favor, mesmo a principal emissora não apoiando sua candidatura?

As redes precisam do jornalismo

No interior dos Estados Unidos, o fechamento de alguns jornais locais fez com que o Facebook perdesse força nessas praças. Por que? Sem o jornalismo local para pautar os assuntos, o povo não conversava, não discutia no Facebook. As redes sociais distribuem conteúdo produzidos por terceiros, como jornais e conteúdos dos usuários.

A premissa que qualquer cidadão pode produzir material não se aplica a uma notícia de qualidade, bem produzida, com alta relevância. O bom jornalismo não possui concorrência com os cidadãos.

Voltando ao caso do começo deste artigo. Bolsonaro sempre foi assunto no Twitter e muitos já falavam em impeachment do presidente. Eis um assunto que sempre e citado em cada escândalo que surge. Porém, foi depois de um artigo jornalístico que o assunto realmente tornou-se tendência. O que Reinaldo Azevedo fez de diferente dos outros que já tinham abordado o tema na internet? Escreveu um texto bem feito e publicou na hora certa, em um jornal com alcance nacional.

Em defesa do bom jornalismo

Não se pode negar que os jornais perderam força com o surgimento de novos atores. A concorrência aumentou e a publicidade diminuiu com a distribuição sob controle de empresas como Google e Facebook, porém, pode-se afirmar que parte da crise do jornalismo tem a ver com a capacidade dos jornalistas de saberem pautar a comunidade, ter relevância nela. E isto deve ser feito fazendo um jornalismo bem feito, bem escrito, publicado na hora certa (ter o feeling).

No livro “A crise no jornalismo tem solução?”, o professor e jornalista Rogério Christofoletti destaca a necessidade de agregar valor ao produto “jornalismo”, pois a informação por si só tornou-se uma commodity.

É preciso, então, “agregar valor” ao produto jornalístico, evangelizam no jargão administrativo. Na verdade, usam-se outras palavras para designar o que antes se referia a fazer bom jornalismo. Reportagem, entrevista, nota ou qualquer produto jornalístico tem valor quando contém exclusividade, originalidade, atualidade, relevância e utilidade. É também um bom produto quando gera prazer na experiência de consumo, adiciona novidades ao conhecimento já acumulado, e quando apresenta uma satisfatória relação custo-benefício.

Saber pautar a comunidade onde atua não vai resolver a crise no jornalismo e nos jornais. A proliferação de produtores de conteúdo com a internet de hoje definitivamente aumenta as dificuldades do jornalismo ser reconhecido nas sociedades. A exigência é muito maior e o profissional precisa estar muito mais qualificado. Porém, é evidente que precisa-se ir muito além de escrever um lead para produzir algo que tenha impacto na sociedade. Para dar meras notícias, qualquer um dá.

O problema vai muito além do corte de 30%

FOTO: Mídia Ninja

Cortar recursos em tempos de crise é normal em governos democráticos. Cortar recursos na educação é normal no Brasil, um país onde a educação raramente é tratado como prioridade. Mas há um ponto importante a ser destacado nos protestos dos estudantes contra as “balbúrdias” praticadas no Ministério da Educação: o ataque ideológico as universidades.

Todos os governos anteriores cortaram da educação. O governo Dilma cortou o orçamento do MEC nas vésperas do primeiro grande protesto que pediu seu impeachment, em março de 2015, ou seja, ajudou os manifestantes. A diferença do que acontece agora com os governos anteriores é que SÓ ESSE TEM ORGULHO EM CORTAR DINHEIRO PARA A EDUCAÇÃO.

Vamos aos fatos: primeiro, o ministro Weintraub cortou recursos de três universidades alegando explicitamente razões ideológicas. Afirmou que UnB, UFBA e UFF praticavam balbúrdia e por isso perderiam recursos. Depois, estendeu os cortes para todas as universidades. Depois, cortou os institutos federais e até a educação básica levou tesourada.

Parte do governo começou a alegar questões financeiras, com o argumento que os cortes eram necessários para colocar as contas do governo em ordem. Foi isso que os governos anteriores alegaram (e ainda sim, sofreram desgaste político).

Mas a atual gestão mantém o discurso contra as universidades. A máquina de fake news do bolsonarismo voltou a funcionar para atacar as federais. Militantes governistas chamam alunos de maconheiros, vagabundos e o próprio Weintraub vai à Câmara Federal para atacar as instituições de ensino.

Cada vez que o governo ataca as universidades por razões ideológicas, ele joga fora o argumento que os cortes eram necessários por questões financeiras

REAÇÃO DESASTRADA

Se os ataques ideológicos às universidades federais já irritaram os brasileiros, fato que impulsionou os protestos, a reação do presidente foi pior ainda. Bolsonaro comete o mesmo erro do petismo em 2013 e 2015, que considerava que as manifestações de rua eram formadas apenas por inimigos declarados do governo. Pior, Bolsonaro se elegeu prometendo acabar com o viés ideológico e o que se viu nos quatro meses foi apenas brigas ideológicas.

Ao considerar todo mundo que protestou como gente de esquerda, Bolsonaro ajuda seus adversários políticos. Se as esquerdas souberem trabalhar para que todos participem da manifestação sem precisar aderir ao “Lula Livre”, por exemplo, os protestos podem crescer.

Para um governo de natureza populista, que passou quatro meses brigando e desarticulando com o Congresso, ter as ruas gritando contra é a pior coisa que pode acontecer.

O festival de trapalhadas do MEC

FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ricardo Vélez na Educação, Ernesto Araújo nas Relações Exteriores e Damares nos Direitos Humanos. De todas os ministros escolhidos por Jair Bolsonaro, os três citados são aqueles que mais assustam não apenas à esquerda, mas também como a direita no Brasil. São duas indicações do astrólogo Olavo de Carvalho e uma da bancada evangélica, pessoas despreparadas que vem colecionando pérolas desde o início do governo.

BADERNA

Damares pode ser a mais folclórica, mas é Vélez na Educação que mais gera noticiário ruim ao governo. Além de bizarrices como pedir para que as escolas mandassem vídeos dos alunos cantando o hino nacional, Vélez mostrou que não faz ideia do que fazer a frente de um ministério que virou palco de inúmeras guerras internas no governo, com várias demissões em menos de 90 dias. Dono de um dos maiores orçamentos da União, o MEC está à deriva nas mãos de um incompetente.

RENOVAÇÃO

A esquerda tem motivos para ter esperanças. A renovação nos quadros à esquerda do Congresso mostra-se interessante. Ontem, na comissão de Educação da Câmara, Vélez foi destruído por duas deputadas em primeiro mandato, em ascensão na política: Tabata Amaral (PDT-SP) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) têm muito potencial para crescerem. Juntas, agiram como “policial boa” e “policial má” no depoimento de Vélez na comissãol

TABATA

Formada em Ciências Políticas na Universidade de Harvard, Tabata Amaral (PDT-SP) já era notícia desde suas vitórias nas olimpíadas de matemática no Brasil, e depois por ter ganho bolsa de estudos nos Estados Unidos. Ativista da educação, foi a “policial boa” no depoimento de Ricardo Vélez: tratou ele como se fosse um ministro de verdade e fez perguntas técnicas sobre gestão pública na Educação. Com classe, mostrou que o escolhido do astrólogo não tinha feito nada em quase três meses de gestão.

FERNANDA

Vereadora por dois mandatos em Porto Alegre, Fernanda Melchionna (PSOL-RS) é a estrela em ascensão no PSOL gaúcho, que sempre teve a ex-deputada Luciana Genro como rosto principal. Com um histórico de bandeiras em defesa do serviço público, foi a “policial má” com Vélez: listou as pérolas do atual ministro da Educação e foi bem direta, ao melhor estilo PSOL: a melhor coisa que Vélez pode fazer pela Educação é deixar o cargo.

BARRIGADA

Se foi proposital eu não sei, mas que o governo conseguiu manter sua militância unida mesmo diante das bobagens de Vélez usando a imprensa. Eliane Cantanhêde, jornalista do Estadão e Globo News, anunciou que Bolsonaro havia decidido demitir o ministro da Educação. O presidente negou a informação pelo Twitter e fez com que os bolsonaristas focassem em atacar a Globo por mais essa barrigada.

ESTRATÉGIA?

É possível e provável que Bolsonaro tenha realmente dito a um membro do governo que cansou de Vélez. Porém, a imprensa já deveria saber que o presidente usa deste artifício, proposital ou não: quando a imprensa se antecipa, ele volta atrás para acusá-la de fake news. Supreende uma jornalista com a experiência de Eliane ter caído nessa sabendo o histórico do governo.

PALPITE

Ricardo Vélez deve cair, mas Bolsonaro deve adiar um pouco só para dizer que a imprensa estava errada.

 

 

A esquerda precisa ser mais protagonista na Previdência

Nós temos um sistema previdenciário injusto, com muitos privilégios e a realidade do brasileiro é muito diferente de 1988. É necessária uma reforma da previdência não apenas para melhorar as contas públicas, mas também para corrigir distorções do formato atual.

A frase anterior é quase uma unanimidade: tanto setores à direita quanto à esquerda concordam que é necessário mexer no sistema previdenciário brasileiro. Candidatos mais à esquerda, como Ciro Gomes (PDT) apresentaram uma proposta em 2018 para o assunto. Direita e esquerda se digladiam nas propostas para fazer a reforma, não sobre a necessidade dela. Ciro, por exemplo, propôs a criação de um Plano Nacional de Renda Mínima para idosos de um salário mínimo fora do sistema previdenciário, como política de governo, algo que já mudaria muito as contas.

O desastre na articulação do governo Bolsonaro para aprovar a reforma abriu uma nova oportunidade aos partidos de esquerda: tomar protagonismo em meio ao caos e conduzir uma reforma que inclua os direitos sociais defendidos pela esquerda.

As últimas notícias de Brasília, como a aprovação da PEC do orçamento impositivo na Câmara, a não ida de Paulo Guedes a Comissão de Constituição de Justiça e declarações fortes, como a de Kim Kataguiri (DEM-SP) que a reforma de Bolsonaro morreu fizeram que o Centrão tomasse a iniciativa de excluir alguns pontos mais polêmicos da proposta, como as mudanças no Beneficio de Prestação Continuada (BPC), aposentadoria rural e retirada de pontos da Constituição. É um sinal claro que o Congresso está disposto a aprovar alguma coisa, mas não aquilo que Bolsonaro propôs.

Ao invés de simplesmente negar tudo, a esquerda poderia articular com o Centrão uma reforma que preserve os direitos sociais: não aumentar tanto o tempo mínimo de contribuição e vincular a idade mínima a questões geográficas e da profissão do cidadão.

O mercado é contra essas bandeiras da esquerda? É! Porém, com o tempo, vão preferir uma reforma mais leve do que nenhuma reforma. O governo Bolsonaro criou uma confusão com a tramitação do projeto pela sua incapacidade de articulação: o partido que resolver essa bomba ganhará crédito.

1964: a nova cortina de fumaça de Bolsonaro

FOTO: Arquivo Público do Distrito Federal

55 ANOS DO GOLPE

A ordem do presidente para que se façam comemorações alusivas ao dia 31 de março, 55 anos do golpe que depôs o presidente João Goulart, nada mais é do que uma cortina de fumaça para esconder a sua incompetência e manter o país no clima eleitoral do ano passado. O atual ocupante da presidência sempre foi um defensor da Ditadura Militar e sempre vangloriou 1964 mesmo que este golpe tenha sido dado pelos civis do Congresso Nacional. Mas Bolsonaro busca agora, brigar com os setores progressistas e tirar o foco das inúmeras crises do seu governo.

GOLPE CIVIL, NÃO MILITAR

Quando o assunto é 31 de março de 1964, é bom sempre lembrar que este golpe foi civil, unindo UDN, parte do PSD, imprensa, setores da sociedade civil, igreja e também os militares. Quem executou foi o Congresso, que declarou a cadeira de presidente vaga acusando Goulart de deixar o país sem permissão (ele estava no Rio Grande do Sul e não no Uruguai). Foi o Congresso que depôs Jango e colocou o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco na presidência. Foi feito tudo às claras, com o Supremo e com tudo, como diria Romero Jucá.

PROBLEMAS REAIS

Discutir esse tema hoje, em meio a polarização extrema, é inútil. Vai apenas acirrar ânimos. E é exatamente isso que Bolsonaro quer. Quer o povo discutindo nas ruas se 1964 foi bom ou ruim, para não falar da sua incapacidade de dialogar com os deputados e senadores, sobre as brigas entre os setores que dão sustentabilidade ao governo, sobre o fim da paciência dos militares com o astrólogo Olavo de Carvalho.  Entrar na discussão de 1964 é dar tranquilidade ao presidente.

PACIÊNCIA ACABANDO

Verdade que o Real teve uma valorizada na segunda-feira (25), assim como a Bovespa. Porém, não o suficiente para recuperar a queda da semana passada, quando o mercado financeiro deixou claro que está perdendo a paciência com o governo. O candidato dessa turma nunca foi Bolsonaro (eles preferiam Alckmin ou Amoedo) e começa a ficar evidente que nem mesmo Paulo Guedes consegue dar um rumo a essa gestão.

VOLTA, TEMER

Depois de ser libertado da prisão preventiva, o ex-presidente Michel Temer pode continua no foco do noticiário. O Centrão, a sua boa e velha base no Congresso, cogita ressuscitar a reforma da previdência do governo anterior, um caminho para agradar os mercados e ao mesmo tempo mostrar a Bolsonaro que ele precisa aprender a fazer política. Se as esquerdas forem espertas, costuram uma reforma light, necessária mas que não agrida os trabalhadores junto com o Centrão, e juntos impõe uma derrota vergonhosa para o Planalto.

A prisão de Temer, o destino dos presidentes e Maia de novo

Ex-presidentes presos. FOTO: Agência Brasil

#LULIALIVRE

Presidente mais impopular da história da democracia brasileira, Michel Temer não terá uma campanha #TemerLivre após sua prisão. Ou então, #LuliaLivre, em referência ao último sobrenome do ex-presidente. O ato foi comemorado tanto pela direita bolsonarista, quanto pela esquerda petista. A população em geral, que não gostava do ex-presidente, também comemorou e brincou em cima, com inúmeros memes, os melhores faziam alusão ao apelido de vampiro que Temer tinha. Lembrou Cunha, muito articulado e forte no Congresso, mas que quando caiu, caiu sozinho.

MARCELA E O MACHISMO

Entre piadas e memes, a ex-primeira dama Marcela Temer foi uma das pessoas mais lembradas. Aliás, a imagem de Marcela, jovem e bonita, sempre esteve em evidência. Comentários machistas surgiram quando Temer assumiu o Planalto (dizendo que o Brasil voltava a ter uma primeira dama como o brasileiro gosta) e voltam agora com a prisão dele. Em tempo: primeira dama (ou primeiro cavalheiro) não significa nada. O Brasil não é mais (ou não deveria ser mais) uma monarquia. Não elegemos casais.

PRISÃO PREVENTIVA

Como ninguém pediu o #TemerLivre ou #LuliaLivre, arrisco a dizer: será que a prisão dele foi justa, mesmo? Não estou a questionar o trabalho do Ministério Público, da Polícia Federal, as investigações que já ocorriam há muito tempo e que poderiam ter sido deflagradas antes se ele não fosse o presidente. Refiro-me ao fato de ele estar no xilindró ANTES DE SER CONDENADO. Prisão preventiva só pode ser feita sob algumas razões. Será que o caso de Temer realmente justifica. Repito: uma coisa é querer ver um político condenado, cumprindo pena, outra coisa é ser preso preventivamente antes da condenação, como ocorreu.

ANTECEDENTES

Desde a primeira eleição presidencial na redemocratização em 1989, nós temos dois ex-presidentes presos e dois que foram depostos por impeachment. Sem contar que Fernando Henrique Cardoso também teve vários escândalos, a maioria não investigados (porque os tempos eram outros). Isso é terrível, isso destrói a credibilidade da democracia junto a população. Não me surpreendo quando vejo pessoas defendendo regimes autoritários, o fechamento do STF, entre outras barbaridades. A imagem da democracia no Brasil está no lixo.

NOVO MDB

Alguém realmente acha que a política brasileira vai começar a andar por causa dessas prisões? Uma coisa é certa, o MDB, que já foi o dono do Brasil, perdeu muito, mas muito espaço em Brasília. A dúvida é: quem vai reorganizar o Centrão agora? Eu tenho um palpite….

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ATUALIZAÇÃO DAS 11h40 (horário de Lisboa)

PREVIDÊNCIA EM RISCO

Foi comentado ontem sobre os riscos da Reforma da Previdência emperrar no Congresso devido a falta de articulação do Executivo. Agora, sai a notícia no Estadão que Rodrigo Maia (DEM-RJ) avisou Paulo Guedes que pode parar de trabalhar neste assunto. Por que? Porque Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) atacou Maia nas redes sociais na discussão sobre o projeto anti crime. Para este projeto ir adiante, o presidente vai ter que controlar a sua turma, principalmente seus filhos.

Temer preso, Maia puto, Moro candidato

Foto: Cesar Itiberê/PR

PRIMEIRAMENTE

Michel Temer foi preso pela Lava Jato carioca. A ordem de prisão foi expedida pelo juiz Marcelo Bretas, o mesmo que já mandou prender Sérgio Cabral e outros do MDB. Segundo informações de o Globo, Moreira Franco também está no alvo das investigações, assim como a turma do Cunha no Congresso.

SURPRESA?

As investigações contra Temer e alguns dos seus ministros já tinha começado durante o governo dele. Mas foram travadas pelo Congresso e pelo foro que o presidente dispõe. Agora, fora do cargo, tornou-se alvo fácil. A prisão vem em boa hora para a Lava Jato, que vai usar a prisão de Temer para aumentar sua pressão sobre o Congresso e o STF. Contra o STF pode funcionar a favor, contra o Congresso pode funcionar contra: deputados vão querer cumprimento de pena em segunda instância vendo um monte de políticos presos?

DINASTIA MAIA

A porrada que Rodrigo Maia (DEM-RJ) deu no ministro Sérgio Moro sobre a tramitação do projeto de lei anti crime do governo no Congresso pode ser resumida em: quem manda nessa p… é o DEM e não vocês. O partido controla as duas casas legislativas, algumas pastas importantes (e quem sabe no futuro a vice-presidência) e é acostumada a fazer o jogo político de Brasília, que Bolsonaro e Moro ainda não aprenderam. Se quiser a reforma da previdência logo, Bolsonaro vai ter que mandar Moro baixar a bola. Será que consegue?

MORO 2022?

Alguém acha que Sérgio Moro não sabia que brigar com o Rodrigo Maia poderia atrapalhar a tramitação da reforma da previdência? Por que então o ex-juiz fez isso? Estaria o ex-juiz mais preocupado em se viabilizar politicamente, colocando o seu projeto como prioridade máxima?

O governo Bolsonaro vive numa bolha?

Cercado de polêmicas criadas por si próprio, sem a intervenção da oposição, o governo Bolsonaro larga com a mais baixa aprovação desde Collor. Os números do Ibope mostram que a imagem do governo e a pessoal de Bolsonaro caíram de janeiro para agora, em um cenário muito diferente dos primeiros mandatos de Fernando Henrique, Lula e Dilma. A queda das avaliações somadas de ótimo e bom foi de 15 pontos percentuais, um valor significativo.

CAIU SOZINHO

Laranjal do PSL, proximidade da família do presidente com milícias no Rio de Janeiro, declarações trapalhadas de ministros, briga interna pela influência no ministério da educação e situações bizonhas como o tuíte contra o carnaval, seguido do “o que é golden shower”. Enquanto o PT se ocupa com Lula Livre e Maduro, enquanto as outras centro-esquerdas (PDT e PSB) ainda se reorganizam, enquanto o PSDB continua sem rumo e os demais partidos avaliando se entram ou não no barco, Bolsonaro tinha a chance de fazer o que quisesse no início do governo. Está perdendo a chance.

A BOLHA

A reação dos seus eleitores mais fiéis aos números do Ibope foi a esperada: optaram por descreditar o instituto de pesquisa, de dizer que está tudo bem, mantendo o discurso de campanha, falando já 2022. A militância do PT também agia dessa forma (deu no que deu), mas a grande dúvida é saber se o governo terá a mesma reação dos seus militantes. Se cair no conto que é tudo conspiração da imprensa, que o povo está feliz e tudo mais, o governo corre o risco de se complicar ainda mais em breve. Os militares e o DEM, ao que parece, já perceberam o quanto as trapalhadas iniciais atrapalham o governo.

A REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Se a popularidade do presidente continuar a cair, a reforma da previdência nem chegará a ser votada no Congresso. Por mais que a ala racional do governo tente se concentrar neste projeto, a maior parte dos deputados são do centrão e são influenciados diretamente pela imagem do Executivo junto a população. Ainda há chances de a reforma sair porque as esquerdas continuam desorganizadas, se preocupando com detalhes individuais do presidente e ainda não fez uma contra campanha forte nas ruas sobre a previdência. O povo, em geral, é contra essa reforma. Mas as esquerdas ainda não convenceram o povo a ir as ruas.

PSOL

Com apenas 10 deputados, o PSOL vem ganhando destaque nos primeiros meses do novo governo. Com uma liderança em projeção nacional (Marcelo Freixo) e com uma bancada feminina renovada, o partido aparece mais que PT, PSB, PDT e PCdoB no momento. Se continuar bem organizado, vai conseguir projetar suas lideranças e ter um salto significativo para 2020.

LULA LIVRE

O Supremo Tribunal Federal vai julgar a partir de 10 de abril, o recurso que pede a revisão da questão do cumprimento de pena após a condenação em segunda instância, caso no qual Lula está enquadrado. Será uma oportunidade para o bolsonarismo reorganizar a sua tropa. Vamos ver como os partidos lidarão com esse assunto, que terá tema de várias postagens por aqui.

 

 

 

Guedes, o Brexit e as guerras no Congresso

FOTO: Alan Santos/PR

GUEDES E A CHINA

Um dilema para as esquerdas brasileiras: contrária a Reforma da Previdência e outros projetos ultraliberais do ministro da Economia, Paulo Guedes, as esquerdas se veem obrigada a defender o ministro quando o assunto é Comércio Exterior. Isso porque outra parte do governo assusta ainda mais. O “ministro de Chicago” acompanha o presidente nos Estados Unidos e em um discurso na Câmara do Comércio americana defendeu abertamente todos os negócios brasileiros com a China e ainda provocou os EUA, que se colocam como inimigos dos chineses, mas mantém milionários negócios.

GUEDES E A CHINA (2)

A fala de Guedes faz-se necessária em um governo influenciado por Olavo de Carvalho, ideólogo de extrema-direita que vive a atacar a China. Foi Olavo quem indicou o ministro das Relações Exteriores, o que torna as coisas ainda mais perigosa. O discurso de Guedes nos EUA foi bom, mas é preciso convencer os chineses que ele é mais forte que a turma olavista. Caso contrário, as exportações brasileiras serão ainda mais afetadas.

OLAVO E O GOVERNO

Fica cada vez mais evidente o desconforto da ala racional do governo com a influência do astrólogo da Virgínia. Ontem, foi a vez do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, reclamar de Olavo no programa Roda Viva. O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), que foi alvo de ataques do astrólogo, já mandou “beijinhos” ao guru. O problema para esta turma é que Olavo pode até não exercer influência direta no presidente, mas evidentemente faz isso nos filhos e Bolsonaro já mostrou que, na dúvida, fica com os filhos.

NO CONGRESSO

Enquanto o governo se mata entre olavistas e racionais, o Congresso vai sendo abandonado. Os deputados estão dando recados diários sobre as insatisfações com o Executivo. Isso lembra Dilma no início do primeiro mandato, quando gozava de alta popularidade. O resto da história todo mundo já sabe…

BREXIT

O Reino Unido continua pagando caro pela irresponsabilidade do Brexit. Empresas já estão trocando a Inglaterra por outros países da Europa e a forma como o Brexit ocorrerá continua causando caos em Londres. O governo tenta, a força, aprovar um acordo que deixa quase tudo como está, mas sem o direito dos ingleses opinarem na União Europeia. O prazo para a saída é dia 31 de março e os ingleses já pediram o adiamento da saída para os europeus.  Era melhor não ter feito o referendo…

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