A Globo, a greve e os critérios de noticiabilidade

FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil

Você pode ser contra uma manifestação como a Greve Geral, mas como jornalista, você precisa abordá-lo

Na última sexta-feira (28), a primeira greve geral do Brasil em 21 anos teve a adesão de mais de 30 milhões de brasileiros segundo as centrais sindicais, responsáveis pela mobilização. O protesto foi contra as medidas de austeridade do governo Michel Temer que incluem a reforma trabalhista, já aprovada na Câmara dos Deputados e que segue para o Senado, e previdenciária, ainda nas comissões legislativas. Os serviços públicos essenciais como saúde, educação e principalmente o transporte coletivo (ônibus e metrôs) foram os que registraram maior adesão, afetando significativamente a população brasileira.

O assunto recebeu ampla cobertura midiática no dia da greve, que iniciou com manifestações ainda na madrugada. A cobertura não foi feita apenas por veículos brasileiros, mas também pela mídia internacional, com destaque para BBC e El País, que possuem redações no Brasil. No entanto, a cobertura antes do dia 28 da principal emissora de televisão do país chamou a atenção.

Jornalista responsável por um blog sobre televisão no portal UOL, Maurício Stycer destacou a ausência da pauta da greve nos noticiários da TV Globo na quinta-feira (27), véspera do protesto. O Jornal Nacional, carro chefe da emissora no jornalismo e no SPTV, edição local para o Estado de São Paulo não fizeram menções ao evento, anunciado em março, com confirmações de adesão ao longo da semana.

“O ‘SPTV’ segunda edição, que sempre presta serviço aos espectadores em caso de decretação de greves em serviços essenciais, não tratou do protesto que ocorrerá nesta sexta-feira em São Paulo. O principal telejornal da emissora, o ‘Jornal Nacional’, igualmente ignorou o assunto, apesar de o movimento ter alcance nacional”, afirmou Stycer em seu blog.

Durante a sexta-feira (28), a emissora cobriu os protestos e ressaltou que tinha sua equipe de cobertura desde o início da manhã acompanhando o assunto. Porém, não se manifestou sobre a não menção ao assunto no dia anterior. Stycer encontrou apenas uma resposta do apresentador do programa Bom Dia RJ, Flavio Fachel, que foi questionado no Twitter sobre o silêncio: “O que é notícia? O que acontece. E a greve? Se acontecer, a notícia é amanhã. #Jornalismo”, respondeu o apresentador.

Noticiabilidade

Tratando o fato como uma decisão editorial da TV Globo (não é possível imaginar que tenha ocorrido um mero esquecimento), voltamos a discussão sobre os critérios de noticiabilidade. O que é uma notícia, afinal? Quais assuntos se tornam notícia e, por isso, devem ser reportados pelos jornalistas?

Para definir os critérios de noticiabilidade, utilizamos o conceitos de Mauro Wolf, que define noticiabilidade como “O conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, de entre um número imprevisível e indefinido de factos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias“. Segundo o autor, os acontecimentos que reunirem o maior número de critérios de noticiabilidade serão transformados em notícias para publicação.

Entre os critérios estão o impacto do acontecimento sobre a nação e o interesse nacional, a quantidade de pessoas envolvidas no fato, a relevância e significatividade do ocorrido, além da atualidade e da disponibilidade do veículo de comunicação poder fazer a cobertura sobre o assunto.

No caso, o fato é que os sindicatos haviam anunciado a paralisação dos serviços de transporte e educação básica, entre outras categorias que aderiram à paralisação. Somente a greve nos metrôs e ônibus já atende quase todos os critérios citados anteriormente: atinge a maior parte da população de uma cidade, é de interesse nacional (protesto contra reformas de austeridade), é extremamente atual (ocorreria no dia seguinte), fácil de se noticiar e a emissora possui estrutura para cobrir a paralisação (tanto que fez isso).

Ética e posição editorial

Um levantamento da ONG Repórter Brasil feito na última semana apontou que os principais veículos de comunicação do país fizeram uma cobertura desequilibrada da reforma de previdência. Foram analisados textos e matérias em vídeo entre 21 de novembro e 20 de dezembro de 2016, período que compreende duas semanas antes e duas semanas depois da protocolação do projeto de lei pelo Executivo no Congresso. A TV Globo foi a de maior adesão a proposta, 91% do tempo das matérias dedicadas ao assunto foram para argumentos favoráveis. No impresso, a maior cobertura favorável foi da mesma empresa: O diário O Globo dedicou 90% dos textos para defender o projeto.

No entanto, a posição favorável as reformas de austeridade do governo não foi vista na véspera do protesto contra essas reformas, já que a emissora se quer abordou o assunto. O Código de Ética dos Jornalistas, em seu artigo 2, afirma:

Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não governamentais, é uma obrigação social.
V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.

 Considerações

O posicionamento da TV Globo, favorável as reformas trabalhista e previdenciária e contrária ao movimento de greve geral contra as reformas é evidente e um direito da emissora, apesar de questionamentos éticos sobre o posicionamento político de uma emissora com concessão pública também poderem ser feitos. Porém, este posicionamento editorial não justifica a omissão da informação, um explícito delito ético com consequências negativas para a sociedade.

A tentativa de defender as reformas omitindo os protestos contrários não impediu que a greve geral ocorresse e prejudicou cidadãos que eventualmente se informaram sobre as notícias apenas pela emissora. A não funcionamento de serviços essenciais como transporte e educação precisa ser noticiado, independente da concordância ou não com os motivos da paralisação.

A TV Globo não apenas desdenhou do movimento, mas também da população, pois os demais veículos de comunicação, em rádio, TV, impresso e internet divulgaram a greve.