Crise no Ads? A qualidade de volta no centro da pauta

A crise dos veículos de comunicação impressos continua no mundo. No começo do mês foi a vez da Gazeta do Povo, maior jornal parananese, apostar na internet tornando a edição impressa semanal (antes diária). Os mundiais New York Times e El País já se preparam para deixar suas edições no papel. Neste cenário, o maior desafio dos veículos digitais sempre foi a sustentabilidade, já que a publicidade possui outras plataformas para anunciar como as redes sociais, diminuindo o poder dos jornais. No entanto, um artigo recente do inglês The Times, também reproduzido no Wall Street Journal abriu um novo ponto de discussão na publicidade online: a qualidade do conteúdo versus a audiência.

O artigo mostrava vídeos extremistas publicados no YouTube com anúncios de grandes empresas. A lógica é simples: através da ferramenta de monetização da plataforma, o anunciante escolhe local, público e assuntos relacionados, mas não escolhe quais vídeos no YouTube aparecerão sua marca. Vídeos com conteúdo extremista, violentos ganham audiência justamente pela sua natureza. Com isso, indiretamente a grande empresa acaba anunciando o canal.

A repercussão do artigo foi enorme e várias empresas anunciaram o cancelamento de campanhas no YouTube, que decidiu reagir anunciando mudanças no programa de monetização. Além de obrigar o canal a ter pelo menos 10 mil visualizações, eles passarão por uma análise antes de começar a receber.

O caso despertou a ira de muitos youtubers brasileiros, que acusam o Wall Street Journal se lançar uma campanha contra o YouTube. Eles reclamam que a monetização sofreu uma drástica redução deste então, prejudicando os negócios.

Audiência x qualidade

A grande questão da internet em relação aos outros meios está justamente na sua forma de publicidade. O Google AdSense e o Facebook Ads têm a audiência como única métrica para avaliar um site ou um canal no YouTube. Fazem isso porque é um critério numérico, que pode ser feito por um computador. Não há como o algoritmo do Facebook, por exemplo, avaliar critérios éticos de um produto jornalístico.

Com a promessa de um anúncio mais preciso, especificando o público por idade, sexo e gostos (a partir de palavras-chaves), as ferramentas das redes sociais monopolizaram a publicidade digital. Mas agora o The Times e o Wall Street Journal apontaram claramente a falha: o risco de associar a marca das empresas com conteúdo de má qualidade.

Essa discussão no mercado publicitário é fundamental para os rumos da comunicação. É fundamental para a sociedade, para as democracias, que o jornalismo ético, responsável e de qualidade continue existindo. Para isso, ele precisa ser financiado, por leitores ou anunciantes.

Não há um caminho definido, uma fórmula pronta de como será os veículos de comunicação online das próximas décadas. Por isso, o debate agora é fundamental e uma pergunta continua em aberto: como medir a qualidade do conteúdo?