O maior fake da história e a pós-verdade além da notícia

O suposto fotógrafo foi investigado pela BBC Brasil

Um fotógrafo brasileiro de 32 anos, que se recuperou do câncer e virou fotógrafo da ONU, retratando os horrores das guerras pelo mundo. Um humanista talentoso com as lentes, com mais de 120 mil seguidores no instagram. Conhecia pessoas em todo o mundo, mantinha contato com fotógrafos e profissionais de imprensa. Já tinha sido tema de reportagem em vários veículos como a BBC Brasil e a revista canadense Vice.

Uma senhora de meia-idade, militante política de um partido no Brasil, que comentava em todos os portais de notícias e blogs locais durante as eleições municipais brasileiras em 2012. Os blogs que cobriam as eleições recebiam comentários da senhora em todas as postagens. O perfil dela no Facebook trazia poucas informações pessoais, era composto basicamente de postagens políticas, próprias e compartilhamentos.

O primeiro é fake, a segunda existe de verdade.

Eduardo Martins é nome de uma grande farsa descoberta pela BBC Brasil semana passada, talvez o maior fake da história. Suas fotos são roubadas e alteradas, suas histórias, seu emprego, é tudo falso. As fotos de perfil são na verdade de um surfista britânico, seu nome também deve ser falso, pois a conta no instagram e a página pessoal, vamos deletadas após o cerco de fechar. O fake não deixou rastros e sim uma legião de jornalistas e seguidores enganados em todo o mundo.

A militante partidária, que a imprensa local acreditava ser um fake criado para trollar nas eleições, apareceu durante o comercial de TV do candidato que apoiava. Ela existe: nome, fotos, as poucas informações que divulgou sobre si eram reais.

A comparação entre o fake descoberto pela BBC Brasil e a militante política precisa ser feita: na internet, o fake era mais real que a pessoa que existe de verdade. Mas afinal o que é verdade nos tempos de pós-verdade?

Pós-Verdade foi o termo do ano em 2016 segundo o Dicionário de Oxford, editado pela famosa universidade britânica. As razões da escolha estavam principalmente na vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e do Brexit no Reino Unido: a relativização da verdade, quando a crença pessoal vale mais do que os fatos.

Jornalista e pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (UFSC), Carlos Castilho relaciona a pós-verdade com a velocidade que recebemos as informações pela internet.

A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.
Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.

Se uma “verdade” pode ser construída a partir de indícios, de versões, sem comprovação dos fatos, se uma notícia não precisa ser comprovada por quem já possui as mesmas convicções, por que seria preciso que uma notícia, um fato fosse relatado por alguém que exista de verdade?

A estratégia não é nova, está apenas sendo aperfeiçoada. Para difundir notícias falsas, pós-verdades, os seus responsáveis já utilizavam páginas apócrifas na internet como meio de difusão do conteúdo. Sites supostamente jornalísticos são abertos sem expediente, sem um jornalista responsável, sem assinatura dos textos. A hospedagem dessas páginas normalmente ocorre fora do país onde atua, para dificultar uma investigação.

Notícias falsas, páginas apócrifas e as convicções dos leitores que se tornam mais importante que os fatos. O kit da pós-verdade ganha mais um ingrediente. O fake real, um personagem bem construído nas redes sociais, mais verossímil que perfis reais, que passa a ter uma vida na internet como se fosse um character de Second Life.

Profissionais da comunicação fazem campanhas para os leitores prestarem atenção na origem da fonte quando recebem uma notícia via internet. E se o autor da informação for um fake como Eduardo Martins?