Atletiba no Youtube/Facebook – o futuro do entretenimento chega ao futebol brasileiro

A Federação Paranaense de Futebol bem que tentou, mas o maior clássico do futebol do Paraná foi para a internet. Atlético Paranaense x Coritiba fizeram o primeiro “Atletiba” transmitido exclusivamente pela web, através das páginas oficiais dos times no YouTube e Facebook. Há quem diga que isso é uma revolução dos clubes contra o império da rede globo e o monopólio nas transmissões de futebol. Que nada, isso é apenas o princípio de uma adequação a realidade. Vamos aos fatos:

– Coritiba e Atlético Paranaense romperam com a Globo no Brasileirão. Eles fecharam com a TV Esporte Interativo, hoje pertencente a Turner Broadcasting System, dona da CNN, TNT e outros canais americanos. A mudança será em 2019. Eles trocam para se livrar da tirania da Globo? Não, apenas trocaram por alguém que paga mais para transmitir o jogo deles.

– Coritiba e Atlético Paranaense romperam com a Globo no Campeonato Paranaense. Eles não aceitaram a proposta da emissora para o torneio estadual, que tem os direitos de transmissão mediados pela Federação Paranaense de Futebol (no Brasileirão, a negociação é direta). Não aceitaram porque entenderam que o valor era baixo demais.

– Para o clássico, eles decidiram transmitir o jogo pela internet. Contrataram quem para isso? Gente da Esporte Interativo, claro. Isso é maldade? Não, é uma obviedade. Se a nova emissora esportiva já é parecida dos clubes, porque não contratar profissionais deles para o evento?

– A Federação Paranaense não deixou a primeira partida ocorrer, alegando que a equipe de transmissão não estava credenciada, justificativa fraca, pois eram funcionários contratados pelos clubes e não uma imprensa externa. Por que a entidade fez isso? Porque ela sai perdendo financeiramente quando os clubes negam uma venda de direitos de TV mediada por ela.

– Isso é uma revolução? Não. Não há nada de revolucionário, de desafiador em transmitir pela internet. Romper com a Globo e apostar numa emissora nova, sem muita audiência e tradição no Brasil é uma decisão muito mais difícil de ser tomada, mesmo que a proposta financeira seja mais alta. Não há como comparar a audiência da Globo com qualquer outra emissora de TV.

– É uma ameaça ao império da Globo? Ainda não, mas um bom recado. A população mais jovem vive no YouTube, no Netflix e não na frente da televisão do meio tradicional. A maior parte da população brasileira, HOJE, ainda se informa e se entretém da forma tradicional, pela TV aberta, mas com o passar dos anos a tendência é que a coisa mude.

A Esporte Interativo já sabe disso. E já vende alguns pacotes de transmissão pela internet, como do Nordestão e a Champions League. A transmissão de eventos ao vivo não é novidade nem no Brasil. Em 2008, o Portal Terra colocou cinco transmissões simultâneas das Olimpíadas, de graça, em seu site. O YouTube, desde que lançou a plataforma ao vivo, já passou shows e outros eventos de entretenimento. Uma hora chegaria ao futebol.

Os times do Paraná são pioneiros, trouxeram algo que era inevitável ao futebol. Daqui a uns anos, estaremos lembrando desse jogo como pontapé inicial. Mas não chega a ser uma revolução, pois é algo que já acontecia em outros entretenimentos e também no esporte (outros países/modalidade). A questão não é enfrentar a Globo, a questão é levar o futebol aonde os mais jovens estão.

– Vamos nos livrar da Globo? Não, necessariamente. A maior emissora do Brasil ainda possui créditos com os clubes e possui totais condições de se adequar ao novo mercado. Talvez, o que mude logo seja o engessado Pay Per View, que não dá nenhuma opção ao consumidor, a não ser comprar o Brasileirão todo.

Ah, sim. A Netflix ainda não entrou nessa de transmissões ao vivo. Mas uma hora entrará….

O mundo se reorganiza ideologicamente. Menos o Brasil que entrou agora numa “guerra fria”

FOTO: Matt A.J.

Explicar a conjuntura política internacional nos últimos anos está cada vez mais difícil. A complexidade do tema tornou-se ainda mais profunda depois da crise mundial de 2008 e os recentes resultados eleitorais em diversos países fazem com que aquele organograma de ideologias políticas que aprendemos no Ensino Médio fique ultrapassado.

Começamos pelos Estados Unidos. O país do capitalismo, o líder mundial do processo de globalização elegeu um presidente dito ultraconservador republicado. Até aí, a ideia que temos é de um novo Ronald Reagan, responsável pela desregulação dos mercados na década de 80. Mas o empresário Donald Trump possui ideias muito diferentes: pregou contra a globalização nas eleições, defende políticas protecionistas exageradas e suas primeiras ações como presidente foi tirar os Estados Unidos do acordo comercial do TransPacífico e agora quer rever o NAFTA, o acordo de live comércio da América do Norte, com Canadá e México.

Vamos a Europa, aonde também cresce uma “direita extremista” por aqui. A Frente Nacional da França, o Partido da Liberdade dos Países Baixos, Alternativa para a Alemanha e o UKIP do Reino Unido têm em comum o nacionalismo, a crítica a globalização, a defesa de adoção de medidas contra o live comércio mundial, a adoção de moedas próprias e o populismo.

É estranho, no primeiro momento, vermos uma direita agindo contra o livre comércio. Mas é isso mesmo que estamos vendo. E outros fatos devem ser acrescentados: Marine Le Pen, líder da FN na França, apoiou a elogiou o governo dito de extrema-esquerda na Grécia do SYRIZA, quando o primeiro ministro grego decidiu enfrentar o FMI e a União Europeia fazendo um plebiscito para saber se a população apoiava pagar a dívida externa que o país possuía. Sim, uma líder de direita elogiando uma ação que em terras brasileiras era pregada principalmente pelo PSTU (Não a Alca, a dívida e o FMI, quem lembra desse lema?).

E a direita tradicional europeia? Na poderosa Alemanha, governa de mãos dadas com a centro-esquerda. A CDU de Angela Merkel governa JUNTO com o SPD, tendo o líder social democrata Sigmar Gabriel como vice-chanceler.  A mesma Merkel que é aliada de primeira hora de François Hollande, o presidente da França eleito pelo Partido Socialista, também de centro-esquerda.

O que está acontecendo, então, na Europa? A centro-direita e a centro-esquerda andam tão parecidas que chegou ao ponto de se unirem oficialmente na Alemanha. Hollande, na França, trabalha na reforma das leis trabalhistas, Merkel governa com uma grande de proteção social, ou seja, os dois se encaminham para o CENTRO, com uma política social-liberal, capitalista que não abre mão dos direitos sociais. Um centro internacionalista, europeísta e liberal nos costumes.

Esse movimento já ocorria há alguns anos na centro-direita e centro-esquerda europeia, mas a crise de 2008 mudou o jogo. Esse centrismo passou a ser questionado pela população, que exige resultados de seus governos. Abriu-se, então, espaços para novos atores políticos: a direita nacionalista cresceu muito e a esquerda mais radical começa a dar seus passos, inicialmente na Grécia e agora dentro dos partidos de centro-esquerda. O PS francês pode lançar para presidente esse ano, um crítico do próprio governo que eles detém. E o líder do partido trabalhista inglês é também um sujeito que sempre foi rejeitado pela cúpula partidária.

Na Espanha e em Portugal, a direita nacionalista ainda não ganhou corpo por razões específicas. Em Portugal, a centro-esquerda precisou dos partidos ditos mais extremistas para voltar ao poder. Na Espanha, há dois movimentos horizontais, de centro (Ciudananos) e esqueda (Podemos) que embaralhou todo o cenário político.

A Itália já possui um partido no poder que é de “extremo-centro”. O Partido Democrático (PD) já é a junção da centro-direita e centro-esquerda. Seus principais adversários são a direita extremista do Berlusconi e o “anti-tudo” Movimento Cinco Estrelas, mas que também tem posições nacionalistas.

Ou seja, na Europa a polaridade direita-esquerda continua existindo, mas deixa de ser o eixo principal para dar lugar a dualidade nacionalistas extremistas x centristas europeístas. O que separa a extrema-direita e a extrema-esquerda é a visão sobre os refugiados, pois a crítica ao comércio global é praticamente a mesma. Se bem que Jeremy Corbyn, o líder do trabalhismo inglês, vem sendo acusado de não lutar contra o Brexit.

E o Brasil?

Bom, o Brasil também está entrando em uma nova fase. Uma fase que o resto do mundo ocidental passou nos anos 50, 60, 70 e 80, a guerra fria. A crise política e a falência do discurso dos rivais PT e PSDB somada a todo o fisiologismo do PMDB fez com que nascesse no Brasil uma direita anos 80 no país. Preocupada em combater um regime político que sumiu do mapa em 1989, essa nova direita evoca um conservadorismo de Reagan, mas sem conseguir compreender o que ocorre no mundo hoje.

Essa nova direita paranoica apoia Trump chamando Hillary Clinton de esquerda, sem conseguir enxergar que as ideias de Trump para a economia são mais parecidas com as do PT, enquanto o PSDB se espelha mais no modelo de Clinton. É uma direita que olha para o bilionário capitalista George Soros como um “esquerdista” só porque ele usa seu dinheiro para combater o novo governo Trump (uma obviedade, visto que o bilionário sempre lucrou com o livre comércio mundial).

Se essa direita (que acha que a Globo é socialista) cresce e ameaça o monópolio eleitoral do PSDB, o lado da esquerda também não anda muito bom. Apeada do poder no ano passado, a esquerda tupiniquim está rachada e numa crise existencial. De um lado o PT, um socialdemocrata em crise que tenta se recuperar sem autocrítica, achando que o povo tem a obrigação de votar em Lula em 2018 pelos feitos ocorridos há uma década. O partido conta com uma militância que possui uma ala ultrarradical que enxerga somente nela a salvação para o país (fui bloqueado por um fake famoso deles, aliás). Do outro o PSOL, um partido acadêmico, com ideias novas, mas ainda muito longe daqueles que eles afirmavam mais defender.

Ou seja, o cenário político brasileiro é incerto e nada parecido com as movimentações que ocorrem pelo mundo, a não ser pelo crescimento do populismo, comum em qualquer república durante tempos de crise…

 

Internet fixa – como funciona em Portugal

O ministro das Comunicações Gilberto Kassab conseguiu irritar os brasileiros no começo deste 2017 ao dar uma entrevista ao portal  Poder 360 afirmando que a partir do segundo semestre as empresas de telecomunicações estariam autorizadas a cobrar franquia nos planos de internet fixa.  O ministro voltou atrás por ora, mas é certo que a intenção de limitar a internet permanece no Brasil.

Moro em Portugal desde setembro do ano passado e resolvi fazer um comparativo entre os planos de internet daqui com o Brasil. Peguei as três grandes operadoras em Portugal e comparei com as três grandes brasileiras e comparei o plano combo (internet + TV  + fone) mais básico.

Aqui em Portugal não existe franquia, para começo de conversa.

INTERNET FIXA – PORTUGAL

Vodafone
100mb de internet de velocidade + 145 canais + 3 mil minutos de ligações para números fixos
Valores: €48,9 (sem fidelização), €33,9 (fidelização de um ano), €28,9 (fidelização de dois anos)

MEO
100mb de internet de velocidade (200 nos primeiros meses) + 150 canais + ligações ilimitadas (para fixo)
Valores: €44,99 (32,99 nos primeiros seis meses)

NOS
100mb de internet de velocidade (200 nos primeiros meses) + 166 canais + ligações ilimitadas (para fixo)
Valores: €44,99 (32,99 nos primeiros seis meses)

INTERNET FIXA – BRASIL (SANTA CATARINA)

Vivo
15mb de internet de velocidade + 39 canais + ligações ilimitadas (fixo + movel local)
Valores: R$ 189,88 (R$ 219,88 após 12 meses)

Claro
15mb de intenret de velocidade + 81 canais + ligações ilimitadas só para Claro
Valores: R$ 174,80 (R$ 124,90 nos três primeiros meses)

Oi
15mb de internet de velocidade + 159 canais + ligações ilimitadas
Valores: R$ 189


Conclusões:

Se converter a moeda para o câmbio atual, na faixa de R$ 3,4 o euro, veremos que os valores são bastante próximos dos planos combo. Com duas gigantescas diferenças: o número de canais disponíveis e principalmente a velocidade da internet.

Os planos em Portugal COMEÇAM em 100mb de velocidade, no Brasil ainda tem empresas vendendo planos em Blumenau, pólo tecnológico de alto IDH a partir de 2mb. Isso que Portugal é considerado o país com a internet mais cara da Europa Ocidental.

Dentro deste cenário, cobrar pela franquia no Brasil chega a ser um insulto.

Como fazer jornalismo na web independente do Facebook?

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“Nós temos que, antes de acessar o Facebok ou outra rede social, entrar nos sites dos jornais e veículos de comunicação de credibilidade”. A frase é do jornalista Alexandre Brito, subeditor de Informação da emissora RTP de Portugal, dita durante o Congresso Internacional de Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM), promovido e sediado na Universidade da Beira Interior em Portugal.

A ideia de Brito era que o jornalismo deveria ter essa prioridade como uma meta, tanto para os profissionais quanto para o público. Hoje, é comum que o cidadão, ao acordar, tenha como um dos seus primeiros hábitos, ver o feed de uma rede social (Twitter e Facabook, principalmente).

Perguntei então, para o subeditor da RTP e para os outros jornalistas que participavam do debate: como convencer o público a acessar o site de um jornal primeiro se a maioria dos planos de celulares não descontam a franquia das redes sociais? Como convencer o cidadão a acessar o site do jornal se muitos portais trabalham com o Instant Articles, ou seja, com o conteúdo dentro do Facebook, sem descontar da franquia?

A partir desta pergunta, abri um debate (no próprio Facebook) que amplio aqui no blog: usar ou não o Instant Articles? É certo entregarmos o conteúdo que produzimos para a plataforma de Mark Zuckerberg em troca de likes e mais visualizações? O Facebook já é a maior rede social, se o público majoritariamente preferir ler textos no Instant Articles (por ser mais rápido de abrir, sem custos adicionais, etc), vamos aceitar que a rede social controle todo o fluxo de notícias do mundo? É seguro deixar na mão do algoritmo?

A discussão é pertinente pois no momento o Facebook anuncia que pretende combater os sites que difundem notícias falsas usando as redes sociais. São páginas que não possuem credibilidade, mas que ganham relevância no algoritmo da rede social. O Face foi acusado de acabar ajudando na eleição de Trump, pois vários sites souberam usar o algoritmo para espalhar notícias falsas em prol do candidato republicano.

Diego Queiroz Andrade, um dos editores do diário português Público, participou do debate e afirmou que a desinformação causada nas redes sociais podem não terem sido tão decisivas no caso das eleições americanas, mas foi fundamental no referendo inglês que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Já Alexandre Brito entende que o jornalismo errou no passado, não soube acompanhar as novas tecnologias e hoje paga por isso, no caso, vê uma rede social cada vez mais forte controlando as informações no mundo.

A dependência dos jornais com o Facebook é tanta hoje, que segundo Andrade, alguns veículos portugueses chegam a ter 80% do tráfego com origem na rede social. Ou seja, uma mudança no algoritmo de visualização na timeline dos usuários pode derrubar toda a audiência do jornal na web.

Afinal, o jornalismo online é hoje dependente do Facebook? Como um veículo na web, que produz conteúdo para mobile, pode ser independente da rede social, tornando ela apenas uma ferramenta de divulgação? Ou jogamos a toalha e esperamos o movimento do público nos próximos anos?

A imprensa local e as novas mídias: como fazer a sustentabilidade?

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Até o NYT abandonou um APP. Imagina os jornais locais

A Universidade da Beira Interior em Portugal promove nesta terça-feira (22) e quarta-feira (23) o Congresso Internacional de Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM). E logo nas primeiras comunicações científicas o modelo de negócio para os veículos de comunicação entrou na pauta: há uma necessidade/obrigatoriedade de os jornais impressos acompanharem as transformações tecnológicas, hoje focadas nos dispositivos móveis, mas ainda há dúvidas de como ganhar dinheiro com isso, principalmente longe das grandes metrópoles.

Se de um lado, a doutoranda em Comunicação pela USP Isadora Ortiz de Camargo apresentou o caso do New York Times, onde a mobilidade tornou-se uma peça chave no modelo de negócios da publicação, a professora da UFRGS Vivian Batochio e o professor Pedro Jerónimo da Instituto Superior Miguel Torga (Portugal) mostraram o conservadorismo de grandes jornais brasileiros e da imprensa de interior portuguesa com os dispositivos móveis.

Na imprensa portuguesa do interior, há pouca familiaridade dos veículos com os dispositivos móveis e as novas tecnologias. Segundo Jerómino, os poucos casos são iniciativas isoladas dos próprios jornalistas, que acabam fazendo sem receber a mais por isso, pois não há incentivo dos proprietários.

Com uma análise dos APPs dos jornais brasileiros para smartphones e tablets, a professora Vivian Batochio apontou a falta de inovação nos veículos nacionais. A maioria dos APPs para visualizar a edição imprensa trazem apenas a reprodução do produto em papel, sem nenhuma recurso a mais.

Até mesmo no New York Times, jornal que segundo a apresentação da pesquisadora Isadora Ortiz de Camargo é um case de sucesso na mobilidade, um aplicativo desenvolvido há dois anos pelo grupo chamado “NYT Now”, destinado ao público mais jovem, foi “descontinuado” por falta de retorno financeiro. Era um APP com mensalidade, algo que não deu certo.

Por que os jornais inovam tão pouco?

Há muitas respostas que podem ser dadas, mas a sustentabilidade dos veículos é um fator que precisa ser destacado. Afinal, como se ganha dinheiro com uma mídia em tempos de mobile? Fazer como nos meios impressos que viviam de anúncios não é, definitivamente, o caminho. A venda de publicidades não avançou na web, algo já comentado aqui neste blog. Com a maioria do público se informando através de smartphones e por redes sociais, ficou mais difícil ainda.

Como convencer, então, um dono de um jornal local, que ainda mantém uma receita de anúncios da forma tradicional no impresso, ainda que em queda, que ele precisa inovar para se manter no futuro? Vale a pena pensar em crowdfundings em mídias locais? Como seria este engajamento?

Como sobreviverão as mídias locais no futuro?

 

 

A globalização e a vitória de Trump

c05601Jornais do mundo inteiro ficaram perplexos com a vitória de Donald Trump nas eleições americanas, produzindo reportagens analíticas tentando compreender porque os americanos escolheram um empresário polêmico sem experiência política, com discurso de ódio. O livro “Globalização – As consequências humanas” de Zygmunt Bauman, publicado em 1999, dá pistas do que levou os americanos a tal decisão.

O voto do americano foi um protesto contra a globalização, tão vendida como única saída pelos americanos nas últimas décadas, cujas consequências também foram negativas para o povo de lá, principalmente para aqueles que perderam seus empregos aos verem as fábricas se mudando para a China.

Bauman afirma no livro que a globalização é ao mesmo tempo algo que “devemos fazer se quisermos ser felizes” para uns e “a causa da nossa infelicidade” para outros. De qualquer forma, o autor reforça que “estamos todos sendo globalizados e isso significa o mesmo para todos”.

Para o autor, a “globalização tanto divide como une, divide enquanto une” e “as causas da divisão são idênticas às que promovem a uniformidade do globo”. A globalização gera uma “progressiva segregação especial”, uma “progressiva separação e exclusão” das sociedades – de um lado uma elite globalizada e de outro o resto da população, que permanece localizada.

Enquanto as elites globais buscam dar um padrão de regras e valores para o planeta, a maioria da população vive em outras condições, não dispõe de recursos para fazerem do mundo cosmopolita. Se por um lado as elites se tornaram extraterritoriais, ou seja, desprendidas de nacionalidades e que buscam uma cultura hibridizada, global, multicultural, a maioria da população está desconectada, cada vez mais distante e os resultados são uma cultura cada vez mais separada, segregada.

Por que isso acontece? Porque as pessoas fora das elites não dispõe de recursos para alcançar esse padrão globalizado. Bauman afirma que “os centros de produção de significado e valor são hoje extraterritoriais e emancipados de restrições locais — o que não se aplica, porém, à condição humana, à qual esses valores e significados devem informar e dar sentido”, isto é, as elites globais criam padrões que não se aplicam as condições humanas da maioria.

A mobilidade
Para Bauman, “no mundo do pós-guerra espacial, a mobilidade tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais em escala cada vez mais mundial”.

Essa mobilidade é o ponto de partida de uma elite extraterritorial, desgarrada de obrigações locais. Não há como dissociar a globalização com o capitalismo, pois como afirma Bauman “livrar-se da responsabilidade pelas consequências é o ganho mais cobiçado e ansiado que a nova mobilidade propicia ao capital sem amarras locais, que flutua livremente. Os custos de se arcar com as consequências não precisam agora ser contabilizados no cálculo da “eficácia” do investimento.”

Bauman cita o executivo americano aposentado Albert Dunlap, que afirmava que “a companhia pertence as pessoas que nela investem – não aos seus empregados, fornecedores ou à localidade em que se situa” como base para o pensamento da empresa globalizada. Ela não possui vínculos, responsabilidades, deveres com uma localidade. Pode a qualquer momento deixar uma cidade onde atua e ir para outra atrás de vantagens fiscais (ou de outras naturezas) sem dar explicações para a comunidade onde funcionava. “A companhia é livre para se mudar, mas as consequências da mudança ficam”, assinala Bauman. Uma situação oposta das antigas elites não extraterritoriais como “proprietários fundiários do início dos tempos modernos e corretores imobiliários da era moderna recente”, que não podiam fazer o livre movimento do capital.

Trump, um megaempresário global, soube explorar na campanha o sentimento dos americanos que sofrem as consequências da extraterritorialidade das empresas. O discurso protecionista e a promessa da volta dos empregos foi o que fez o povo apostar em Trump contra uma candidata ligada ao capital financeiro internacional, ao establishment político, a manutenção do status quo.

Não se trata de ser contra a globalização, um fenômeno com vantagens e desvantagens, mas entender as consequências para todos os povos e os problemas que isso pode gerar.

O jornalismo como agente da democracia

000001222971As crises que as democracias vivem nos últimos anos, com o surgimento de políticos e partidos contra o establishment político colocaram o a importância do jornalismo novamente em evidência. O posicionamento da imprensa na sociedade, de observador e fiscalizador, vem sendo questionado diante da avalanche de movimentos populistas e autoritários, rescendendo a discussão sobre um jornalismo mais ativo no processo democrático. O jornalismo cívico, também chamado de jornalismo público, é apontado como uma ferramenta importante para o período de instabilidade que vivemos.

A escola de jornalismo cívico, iniciada no fim dos anos 80 nos Estados Unidos, foi conceituada e debatida no livro Jornalismo Cívico (Livros Horizonte, 2003) que tem os professores Nelson Traquina e Mário Mesquita como organizadores. A obra traz oito artigos sobre a escola jornalística, dois conceituais e seis de debate sobre antecedentes, caraterísticas e experiências do formato.

No texto de abertura, o jornalista e professor Nelson Traquina aborda os cenários da política e da mídia americana nos final dos anos 80 e início dos anos 90, período em que surgem os primeiros movimentos do jornalismo cívico. Citando o jornalista norte-americano Davis Merritt, Traquina explica que o jornalismo americano passou por uma onda de denuncismo após o escândalo de Watergate dos anos 70 e a enxurrada de notícias ruins levou a um descrédito da população não apenas com os políticos, mas com toda a vida pública. Esse cenário permitiu que surgisse um novo movimento, que colocasse o papel do jornalista não apenas como um “cão de guarda” da democracia, mas de um agente que fizesse a conexão do poder público com os cidadãos, incentivando a democracia participativa.

Merrit foi o editor do jornal Wichita Eagle, lançado em 1990 e que segundo Traquina, utilizou-se de pesquisas de opinião para saber quais os assuntos a população mais se preocupava no âmbito público para a partir daí, definir a linha editorial da cobertura das eleições, deixando de lado as brigas diretas dos candidatos.

Também organizador do livro, Mário Mesquita mostra como o jornalismo cívico é alinhado com a filosofia “comunitarista”. A proposta de um jornalista não ser apenas um observador, mas um participante da sociedade surge em um país com tradição em participação popular, principalmente em decisões a respeito de questões locais, apesar de os defensores do “public journalism” argumentarem que essa tradição vem sendo perdida nos Estados Unidos e o jornalismo viria justamente para ajudar a recuperar.

Um dos professores americanos que mais defendem essa escola, Jay Rosen assina dois textos selecionados na obra:   “Tornar a vida pública mais pública” (tradução de José João da Silva Costa) e “Para além da objetividade” (tradução de Victor Flores). O primeiro aborda os aspectos sociais da vida comunitarista e a relação que os jornalistas devem ter com a sociedade. O segundo trata de uma das principais características do jornalismo convencional que é a linguagem objetiva. Assim como os teóricos do “novo jornalismo”, Rosen questiona o mito da objetividade e sua eficiência para a imprensa imparcial: “a objetividade enquanto teoria sobre como se chega a verdade está intelectualmente esgotada”, afirma.

As filosofias e conceitos de sociedade pensadas por filósofos no século XX como uma base para o surgimento do jornalismo cívido é o tema do artigo da jornalista e professora norte-americana Renita Coleman (tradução de José João da Silva Costa). A partir de pensadores como John Dewey e Jürgen Habermas, a autora busca elencar os antecedentes para o surgimento da escola jornalística.

O último artigo do livro é um contraponto aos defensores do jornalismo cívico. O jornalista norte-americano William E. Jackson Junior (tradução de José João da Silva Costa) critica a prática a partir do que viu nas eleições de 1996 no Carolina do Norte, Estados Unidos. O autor faz a principal contra argumentação do chamado “public journalism”: o risco de dar poderes excessivos a mídia na organização dos temas mais importantes para a cobertura de um processo eleitora.

O jornalista conta que viu do Charlotte Observer, maior jornal do Estado e defensor do jornalismo cívico, deixar de lado assuntos como uma denúncia contra um dos candidatos ao Senado por não entrar dentro dos temas definidos com a comunidade. A campanha do Charlotte Observer para o período eleitoral “Your Voice, Your Vote” teria sido desmontada pelos partidos políticos, que descobriam através de pesquisas, o que o povo mais queria falar e com isso, restringia as campanhas a isso. “Os imperativos de Your Voice, Your Vote restringiram a cobertura e encorajaram os candidatos a lidar com a situação dizendo aos eleitores aquilo que eles queriam ouvir. Houve pouco incentivo a que lhes falassem de coisas por que eles não pareciam interessar-se tanto (e por consequência a imprensa não se interessava tanto”, afirma o jornalista.

O contraponto do último artigo serve como um alerta nas discussões sobre como fazer um jornalismo cívico nos dias de hoje, com a internet permitindo maior interatividade com os cidadãos, sem ser ingênuo quanto a reação das elites política e econômica quanto a manipulação da opinião pública, seja se preparando para mudar o foco diretamente om os cidadãos ou via abuso do poder frente aos donos de jornais. Um jornalismo cívico de verdade precisa ser independente, uma busca quase inalcançável no jornalismo dos dias de hoje.

É possível reconectar a política com os cidadãos?

maxresdefault1O crescimento do discurso anti-política, anti-establishment nos países ocidentais foi o tema do artigo anterior. A vitória do empresário João Dória em São Paulo, com uma campanha onde afirmava “não ser político” e o perigoso sucesso de Donald Trump nos Estados Unidos mostrava que o eleitorado está cansado da velha política e como vivemos um momento de crise (ou seria transformações), o discurso populista de extrema-direita anti-política ganha força.

Mas a narrativa atual do cenário político não precisa ser de um filme de terror e há exemplos no mundo de tentativa de reconectar os cidadãos a política. Na Espanha, os movimentos de rua deram origem a novos partidos políticos: O Podemos (à esquerda) e o Ciudadanos (ao centro) apesar de serem antagônicos em diversos pontos sobre a política espanhola, convergem quando o assunto é a estrutura política: a horizontalidade.

Pelo menos em tese, esses novos partidos buscam colocar o cidadão no centro da política, tentando acabar com o conceito de classe política, ou melhor, estendendo a todos. Mandatos compartilhados, decisões abertas a todos os cidadãos (não apenas um pequeno grupo com direito a voto) e a tentativa de eliminar a figura dos caciques partidários estão na pauta daqueles que tentam ressignificar a política.

Um colóquio discutiu na segunda-feira (17) à tarde na Universidade da Beira Interior (UBI) em Covilhã, Portugal, as crises da democracia e a mídia. Como já dito aqui e no artigo anterior, a Europa passou por uma crise econômica e agora passa por uma migratória, abrindo espaço para movimentos extremistas eurocéticos de partidos como o AfD (Alemanha), Frente Nacional (França) e Ukip (Inglaterra). A saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit) foi o primeiro grande resultado dessa onda.

Jornalista e professor da Universidade Lusófona, João Almeida Santos foi direto ao ponto ao falar da crise que envolve partidos tradicionais da Europa: eles não conseguem se adaptar ao mundo de hoje, um mundo onde todos estão conectados e todos têm voz: “A rede está a introduzir uma nova lógica no poder, uma lógica do poder diluído, disseminado. O cidadão deixa de ser expectador frente aos media, ao poder público, deixa de ser passivo. Muitos dos agentes protagonistas ainda não perceberam isso”.

Se os agentes protagonistas não perceberam, outros grupos estão abrindo os olhos. Na Itália, o Movimento Cinco Estrelas aposta na democracia digital, com a participação direta popular através da internet. Na Argentina, o Partido de La Red criou uma plataforma digital para participação dos eleitores e todos os parlamentares eleitos pela agremiação seguem o “DemocracyOS” na hora de votar um projeto de lei. O Partido Pirata, que está com chances de vitória na Islândia, defende o que eles chamam de “democracia liquida”, também direta, colaborativa

Voltamos ao Brasil: qual partido hoje consegue se conectar com os eleitores? Qual partido hoje consegue se livrar do caciquismo e ser mais democrático internamente? O presidente Michel Temer afirmou que o alto número de votos nulos e abstenções é um recado para a classe política: a classe entendeu? vai fazer alguma coisa? Ou vai ajustar o processo eleitoral para impedir que novos movimentos políticos tenham êxito sobre a velha política?

O cenário político para 2018 apresenta uma disputa entre Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Alguém acredita que dessas duas forças políticas sairá alguma renovação? O PT levou uma surra nas eleições e mostra ter dificuldades em se renovar. O PSDB saiu fortalecido esse ano, mas sabe que os votos nulos e as abstenções obtiveram sucesso maior. São votos desperdiçados esse ano, mas que podem ser direcionados a novas forças nos próximos pleitos.

O PMDB dispensa comentários. O PSB mostra estar perdido sem Eduardo Campos. A Rede surgiu como um partido para renovar a política, inclusive citou o Partido de la Red (ARG) e o Podemos (ESP) em seu primeiro horário eleitoral. Mas houve traços de caciquismo em algumas cidades nessas eleições, onde a vontade da maioria dos militantes foi derrotada pela preferência dos líderes nacionais em coligações de algumas cidades.

As eleições de 2016 não significaram apenas uma paulada no PT. Todo o sistema foi abalado com uma descrença geral no processo político. Ou surgem novos movimentos políticos, horizontais, cidadãos, decididos a reinventar a política brasileira, ou o eleitorado continuará fugindo das urnas, dando espaço para movimentos autoritários e populistas saírem vitoriosos.

 

Triste? Decepcionado? O primeiro turno das eleições municipais deveria ser esperado

trumpO Facebook se tornou um muro de lamentações da esquerda (e parte da centro-direita também) após os resultados do primeiro turno das eleições municipais. De Norte a Sul do país, é possível constatar a falta de mudanças, o crescimento de personalidades pitorescas e um número muito alto de brancos, nulos e abstenções. Todos nós já sabíamos que isso poderia acontecer, mas a esperança nos cegava da realidade.

O número alto de bancos, nulos e abstenções era óbvio. O brasileiro nunca levou muito a política partidária a sério e perdeu ainda mais a vontade com o noticiário dos últimos anos. Apesar de estarmos vivendo o não o auge da corrupção, mas o início de uma limpeza, o fato de as pessoas passarem a entender como funciona o meio político afasta o eleitor das urnas. As pessoas sabiam que isso existia, mas não queriam detalhes. Agora estão com nojo. Se a maioria da população soubesse que a regularização do título é rápida e custa menos de R$ 5, as abstenções seriam muito maior.

Se a maioria dos eleitores de São Paulo preferiu não votar ou anular/branco, era possível esperar que um candidato que viesse com um discurso anti política fosse o vencedor. Dória tem a cara do coxinha, do empresário mauricinho, mas não tem cara de político. Bastava ele uma campanha bem feita e deixar o serviço sujo de destruir a imagem do PT para aqueles de sempre.

A mesma São Paulo que elegeu o Dória elegeu o Suplicy vereador com mais de 300 mil votos. Apesar da experiência pública de décadas, o ex-senador do PT continua passando a imagem de outsider do meio político.

O Rio de Janeiro, onde a esquerda deposita todas as suas esperanças, também prova isso. Um bispo da Universal e um candidato do PSOL no segundo turno é a prova que o discurso anti-establishment está na moda. O Rio não colocou PT, PMDB, PSDB e outros partidos tradicionais no segundo turno.

O Freixo é a nova força da esquerda justamente porque é diferente. Ele consegue captar a juventude indignada pelo formato político atual.  Se ele ganhar o segundo turno, o Rio de Janeiro será a base para a esquerda no país todo, como foi o governo de Olívio Dutra (PT) em Porto Alegre entre 1989 e 1992.

Com uma campanha diferente, sem recursos de empresa, com pouco espaço para divulgar, as cidades que não possuíam alternativas contra o establishment mantiveram os mesmos. Em Blumenau (SC), o destaque na Câmara foi Bruno Cunha (PSB), que fez uma campanha sem destacar o partido pelo qual é filiado, sem utilizar os termos da velha política.

O sistema político tradicional está falindo no mundo todo. Syriza na Grécia, Podemos na Espanha e Marcelo Freixo no Brasil são exemplos da esquerda que acorda para este novo momento. Trump nos Estados Unidos, Movimento Cinco Estrelas na Itália são exemplos da direita que também sai do modelo tradicional, apelando a uma veia neopopulista.

Os momentos de crise são propícios para o crescimento dos partidos extremistas. Os mais ligados ao Centro precisarão se reinventar.

É hora de falarmos sobre os comentários

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A partir de agosto, o maior jornal do Brasil vai restringir a sessão de comentários no seu portal de notícias na internet. Apenas assinantes poderão comentar as matérias e não poderão ser usados apelidos para identificação: aparecerá o nome do assinante junto com o comentário. A decisão da Folha pode ser vista como radical no primeiro momento, mas é uma triste consequência e uma medida de proteção a selvageria que se tornaram as sessões de comentários dos sites e também nas redes sociais nos últimos anos.

A internet permitiu uma revolução na liberdade de expressão, quebrando o monopólio da emissão de informação, antes reservado aos veículos constituídos. O espaço de expressão do cidadão, antes espremido na área de artigos dos jornais ou em momento de abertura e enquetes de rádios e TV, ganhou novas proporções com a rede. Mais do que interagir diretamente com o veículo, comentando, analisando, rebatendo as informações publicadas, qualquer cidadão passou a ter o direito de ser dono do seu próprio veículo, seja com um blog ou mesmo com um perfil nas rede sociais.

O ônus dessa revolução na liberdade de expressão, como não poderia deixar de ser, é o uso indevido, irresponsável dessa liberdade. Em uma sociedade deseducada, onde o ensino é estritamente técnico e a formação cidadã é deixada de lado, as pessoas ainda não sabem o poder que as redes sociais, os espaços de comentários possuem e acabam escrevendo nele como se fossem conversas reservadas a conhecidos.

O resultado é assustador: mensagens de intolerância, preconceito, ameaças e uma cultura de ódio se prolifera como um a epidemia pela internet. Escondidos atrás de perfis falsos ou mesmo sem o conhecimento que podem ser responsabilizados judicialmente pelo que escrevem, odiadores pregam a barbárie principalmente quando o assunto envolve polícia ou política.

A bárbarie dos comentários de portais de notícias já fez o jornalista e professor Leonardo Sakamoto fechar a sessão de comentários. As ameças contra o jornalista, que é doutor em Direitos Humanos, saíram da internet e começaram a ocorrer fora, levando o autor a refletir sobre isso no livro “O que aprendi sendo xingado na internet”. O assunto também inspiração literária. O escritor Bernardo Carvalho traçou um perfil dos “comentárias de portais” no romance “Reprodução’, lançado em 2013.

Estamos chegando a mais um processo eleitoral, talvez no auge das redes sociais no país como o Facebook. A criação de perfis falsos para denegrir a imagem de adversários será, infelizmente, uma estratégia utilizada em todo o país. Além dos fakes, existem aqueles que se sujeitam a fazer o serviço sujo mostrando a cara, transformando o seu perfil na rede social em um verdadeiro bunker de guerra.

A decisão da Folha de São Paulo, há dois meses das eleições, é um alerta. A previsão é que a baixaria se intensifique nas próximas semanas e o jornal não pretende ser o palco dessa guerra seja que não interessa a ninguém.

Enquanto os jornais se protegem da guerra, é preciso começar a repensar a participação pública nos veículos digitais. A sessão de comentários em baixo de cada notícia precisa ser discutida. Ela realmente é um espaço de interação com os leitores? Possui alguma utilidade? Hoje qualquer cidadão pode se expressar montando um blog ou um perfil no Facebook, Twitter. Será preciso mesmo o espaço de comentários em baixo das notícias? E até quando vamos confundir liberdade de expressão com discurso de ódio?