A sociedade está doente. E a imprensa tem parte da culpa

Uma professora de Língua Portuguesa agredida em sala de aula por um aluno de 15 anos na cidade de Indaial, Santa Catarina. As imagens da professora com o olho roxo e o rosto sujo de sangue deveriam chocar a sociedade. Por algum intante, imaginei que todos sairiam em defesa da educadora, pedindo providências ao Estado quanto a segurança dos profissionais, com discursos sobre a necessidade da autoridade do professor em sala de aula. Alguns pediriam uma punição maior para o estudante agressor, outros diriam que esse é retrato da insegurança no país, mas haveria um consenso que ela é somente vítima nessa história.

O que vimos, no entanto, foi assustador. A postagem da professora no Facebook teve uma enorme repercussão, mas além das mensagens de apoio e de revolta contra o caso, houve quem atacasse a educadora. E não foram poucos aqueles que se manifestavam dizendo que ela “mereceu”. Por que? Porque ela seria supostamente “de esquerda” e teria feito mensagens de apoio aos protestos contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

É difícil dizer que chegamos ao fundo do poço com a polarização partidária que vivemos, pois a cada diz que passa, algo pior acontece em alguma parte do país, mas basta uma passada nas seções de comentários de portais de notícias e nas redes sociais para afirmarmos a polarização política vive um período doentio e perigoso. Estamos perdendo o controle, a civilidade no debate politico. O que em algum momento do passado foi uma disputa acirrada, mas saudável sobre visões políticas é hoje uma guerra fundamentalista, religiosa, com seguidores fanáticos mais preocupados em destruir (nem que seja socialmente) o adversário que convencer que suas ideias são boas.

O cidadão que, ao saber de uma agressão de um aluno (com histórico de problemas) a uma professora quer saber primeiro se ela é “de direita ou esquerda”, esse cidadão está doente. A pessoa que acha que alguém mereça apanhar somente porque pensa ideologicamente diferente dela possui problemas. Quem defende tortura precisa de um psicólogo urgentemente. E ao que parece, o número de pessoas assim só aumenta.

Esquerda e direita não são religiões. Não são se quer, ideologias e sim classificações para correntes ideológicas sob o aspectos principalmente econômicos. Há esquerdas e esquerdas, direitas e direitas. Nem toda esquerda é marxista, nem toda direita é liberal. Mas isso pouco importa para quem transformou esses conceitos em religiões, em dogmas. Para esses, o que vale é se apegar a algumas características e atacar quem pensa diferente.

A guerra política deixou a sociedade doente. E a imprensa tem culpa nisso. Como? Explico abaixo.

Repare nos argumentos utilizados pelos fundamentalistas dessa guerra. Seja de direita, de esquerda, o que for. Anote os argumentos mais utilizados e faça uma pesquisa ampla no Google. Muitas dessas expressões e ideias foram difundidas na mídia por colunistas, comentaristas e outros formadores de opinião contratados por jornais, emissoras de TV e portais de notícias. Esses formadores lançaram os dogmas e os fieis seguidores passaram a repeti-las nas redes sociais.

A imprensa brasileira fomentou a guerra política. Muitos veículos tomam posições favoráveis ou contrários a determinados governos. Até aí, tudo bem. O problema é que muitos da imprensa embarcaram no fla-flu partidário e se tornaram integrantes da guerra. Como? Contratando brutucus que não tinham a intenção de fazer a crítica política, apenas provocar, ofender, fazer campanha contra o partido adversário. Jornais, revistas e rádios colocaram formadores de opinião desinteressados no debate, queriam apenas a doutrinação: seja ela de direita ou esquerda.

Vimos o monstro do ódio, da intolerância, do fundamentalismo ideológico crescer na internet nos últimos 10 anos. E a imprensa ajudou a alimentar esse monstro para ganhar mais audiência. Agora que a criatura saiu do controle, estamos todos assustados.

Um grupo de nazistas faz passeata em uma cidade pequena dos Estados Unidos e a discussão no Brasil é se o nazismo é de direita ou esquerda. Ou seja, ninguém discutiu o que aconteceu, o foco é atacar o “inimigo”.

A imprensa brasileira está reagindo. Vários desses brutucus perderam espaço nos últimos anos e essa guerra insana está na pauta. Mas os fanáticos ignoram. Talvez seja tarde demais. Eu ia sugerir uma discussão sobre educação e comunicação. Sobre ensinar mídia nas escolas, sobre fake news e pós-verdade. Mas se fizermos isso seremos acusados de “doutrinação”. E agora?

 

 

A Globo, a greve e os critérios de noticiabilidade

FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil

Você pode ser contra uma manifestação como a Greve Geral, mas como jornalista, você precisa abordá-lo

Na última sexta-feira (28), a primeira greve geral do Brasil em 21 anos teve a adesão de mais de 30 milhões de brasileiros segundo as centrais sindicais, responsáveis pela mobilização. O protesto foi contra as medidas de austeridade do governo Michel Temer que incluem a reforma trabalhista, já aprovada na Câmara dos Deputados e que segue para o Senado, e previdenciária, ainda nas comissões legislativas. Os serviços públicos essenciais como saúde, educação e principalmente o transporte coletivo (ônibus e metrôs) foram os que registraram maior adesão, afetando significativamente a população brasileira.

O assunto recebeu ampla cobertura midiática no dia da greve, que iniciou com manifestações ainda na madrugada. A cobertura não foi feita apenas por veículos brasileiros, mas também pela mídia internacional, com destaque para BBC e El País, que possuem redações no Brasil. No entanto, a cobertura antes do dia 28 da principal emissora de televisão do país chamou a atenção.

Jornalista responsável por um blog sobre televisão no portal UOL, Maurício Stycer destacou a ausência da pauta da greve nos noticiários da TV Globo na quinta-feira (27), véspera do protesto. O Jornal Nacional, carro chefe da emissora no jornalismo e no SPTV, edição local para o Estado de São Paulo não fizeram menções ao evento, anunciado em março, com confirmações de adesão ao longo da semana.

“O ‘SPTV’ segunda edição, que sempre presta serviço aos espectadores em caso de decretação de greves em serviços essenciais, não tratou do protesto que ocorrerá nesta sexta-feira em São Paulo. O principal telejornal da emissora, o ‘Jornal Nacional’, igualmente ignorou o assunto, apesar de o movimento ter alcance nacional”, afirmou Stycer em seu blog.

Durante a sexta-feira (28), a emissora cobriu os protestos e ressaltou que tinha sua equipe de cobertura desde o início da manhã acompanhando o assunto. Porém, não se manifestou sobre a não menção ao assunto no dia anterior. Stycer encontrou apenas uma resposta do apresentador do programa Bom Dia RJ, Flavio Fachel, que foi questionado no Twitter sobre o silêncio: “O que é notícia? O que acontece. E a greve? Se acontecer, a notícia é amanhã. #Jornalismo”, respondeu o apresentador.

Noticiabilidade

Tratando o fato como uma decisão editorial da TV Globo (não é possível imaginar que tenha ocorrido um mero esquecimento), voltamos a discussão sobre os critérios de noticiabilidade. O que é uma notícia, afinal? Quais assuntos se tornam notícia e, por isso, devem ser reportados pelos jornalistas?

Para definir os critérios de noticiabilidade, utilizamos o conceitos de Mauro Wolf, que define noticiabilidade como “O conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, de entre um número imprevisível e indefinido de factos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias“. Segundo o autor, os acontecimentos que reunirem o maior número de critérios de noticiabilidade serão transformados em notícias para publicação.

Entre os critérios estão o impacto do acontecimento sobre a nação e o interesse nacional, a quantidade de pessoas envolvidas no fato, a relevância e significatividade do ocorrido, além da atualidade e da disponibilidade do veículo de comunicação poder fazer a cobertura sobre o assunto.

No caso, o fato é que os sindicatos haviam anunciado a paralisação dos serviços de transporte e educação básica, entre outras categorias que aderiram à paralisação. Somente a greve nos metrôs e ônibus já atende quase todos os critérios citados anteriormente: atinge a maior parte da população de uma cidade, é de interesse nacional (protesto contra reformas de austeridade), é extremamente atual (ocorreria no dia seguinte), fácil de se noticiar e a emissora possui estrutura para cobrir a paralisação (tanto que fez isso).

Ética e posição editorial

Um levantamento da ONG Repórter Brasil feito na última semana apontou que os principais veículos de comunicação do país fizeram uma cobertura desequilibrada da reforma de previdência. Foram analisados textos e matérias em vídeo entre 21 de novembro e 20 de dezembro de 2016, período que compreende duas semanas antes e duas semanas depois da protocolação do projeto de lei pelo Executivo no Congresso. A TV Globo foi a de maior adesão a proposta, 91% do tempo das matérias dedicadas ao assunto foram para argumentos favoráveis. No impresso, a maior cobertura favorável foi da mesma empresa: O diário O Globo dedicou 90% dos textos para defender o projeto.

No entanto, a posição favorável as reformas de austeridade do governo não foi vista na véspera do protesto contra essas reformas, já que a emissora se quer abordou o assunto. O Código de Ética dos Jornalistas, em seu artigo 2, afirma:

Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não governamentais, é uma obrigação social.
V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.

 Considerações

O posicionamento da TV Globo, favorável as reformas trabalhista e previdenciária e contrária ao movimento de greve geral contra as reformas é evidente e um direito da emissora, apesar de questionamentos éticos sobre o posicionamento político de uma emissora com concessão pública também poderem ser feitos. Porém, este posicionamento editorial não justifica a omissão da informação, um explícito delito ético com consequências negativas para a sociedade.

A tentativa de defender as reformas omitindo os protestos contrários não impediu que a greve geral ocorresse e prejudicou cidadãos que eventualmente se informaram sobre as notícias apenas pela emissora. A não funcionamento de serviços essenciais como transporte e educação precisa ser noticiado, independente da concordância ou não com os motivos da paralisação.

A TV Globo não apenas desdenhou do movimento, mas também da população, pois os demais veículos de comunicação, em rádio, TV, impresso e internet divulgaram a greve.

A Amazon e a “polêmica” com Dória. Aonde vamos parar?

O ano de 2014 ainda não acabou. Não foi apenas do 7 a 1 que viveu este fatídico ano, mas também nas eleições presidenciais, que teve a morte de um presidenciável, reviravoltas nas pesquisas e o aprofundamento da rixa PT/PSDB que dura até hoje e ninguém aguenta mais. O nível do debate entre petistas e tucanos está tão baixo e paranoico que até mesmo uma propaganda boba da Amazon é motivo de polêmica.

Tudo isso porque a Amazon decidiu fazer um comercial em vídeo para o seu e-reader Kindle brincando com a polêmica dos muros pintados de cinza em São Paulo. A propaganda inicia com a pergunta “Cobriram a cidade de cinza?” e depois mostra projeções nesses muros com frases famosas de livros. No fim, a Amazon afirma que “cobriu o cinza com histórias”.

Uma brincadeira leve com a polêmica da cidade e uma referência ao kindle, aparelho não colorido que possui uma tele num tom cinza bem claro. Mas houve quem viu ação política no caso e até mesmo o prefeito João Dória (PSDB) entrou nessa e respondeu provocando a Amazon.

Pronto. O assunto caiu nos trendtopics do Twitter com petistas e tucanos se matando novamente, agora por causa do comercial. Quem assistiu e não está contaminado percebe que foi uma mera brincadeira da Amazon, sem o objetivo de criticar a ação do prefeito, apenas aproveitaram o ganho do cinza para vender kindles. Mas para os fanáticos (dos dois lados) foi uma ação politizada.

Blogueiros de esquerda elogiaram a Amazon e aproveitaram para trazer o assunto de volta. O tal Movimento Brasil Livre (MBL), comportando-se como um cão de guarda da gestão Dória, partiu para cima nas redes sociais (e no seu site satélite) contra a empresa americana a ponto de dizerem que o comercial foi um fracasso.

Aonde é que nós chegamos? Tudo no Brasil vira a rivalidade PT-PSDB, até mesmo um comercial bobo de uma empresa para vender e-readers.

 

O mundo se reorganiza ideologicamente. Menos o Brasil que entrou agora numa “guerra fria”

FOTO: Matt A.J.

Explicar a conjuntura política internacional nos últimos anos está cada vez mais difícil. A complexidade do tema tornou-se ainda mais profunda depois da crise mundial de 2008 e os recentes resultados eleitorais em diversos países fazem com que aquele organograma de ideologias políticas que aprendemos no Ensino Médio fique ultrapassado.

Começamos pelos Estados Unidos. O país do capitalismo, o líder mundial do processo de globalização elegeu um presidente dito ultraconservador republicado. Até aí, a ideia que temos é de um novo Ronald Reagan, responsável pela desregulação dos mercados na década de 80. Mas o empresário Donald Trump possui ideias muito diferentes: pregou contra a globalização nas eleições, defende políticas protecionistas exageradas e suas primeiras ações como presidente foi tirar os Estados Unidos do acordo comercial do TransPacífico e agora quer rever o NAFTA, o acordo de live comércio da América do Norte, com Canadá e México.

Vamos a Europa, aonde também cresce uma “direita extremista” por aqui. A Frente Nacional da França, o Partido da Liberdade dos Países Baixos, Alternativa para a Alemanha e o UKIP do Reino Unido têm em comum o nacionalismo, a crítica a globalização, a defesa de adoção de medidas contra o live comércio mundial, a adoção de moedas próprias e o populismo.

É estranho, no primeiro momento, vermos uma direita agindo contra o livre comércio. Mas é isso mesmo que estamos vendo. E outros fatos devem ser acrescentados: Marine Le Pen, líder da FN na França, apoiou a elogiou o governo dito de extrema-esquerda na Grécia do SYRIZA, quando o primeiro ministro grego decidiu enfrentar o FMI e a União Europeia fazendo um plebiscito para saber se a população apoiava pagar a dívida externa que o país possuía. Sim, uma líder de direita elogiando uma ação que em terras brasileiras era pregada principalmente pelo PSTU (Não a Alca, a dívida e o FMI, quem lembra desse lema?).

E a direita tradicional europeia? Na poderosa Alemanha, governa de mãos dadas com a centro-esquerda. A CDU de Angela Merkel governa JUNTO com o SPD, tendo o líder social democrata Sigmar Gabriel como vice-chanceler.  A mesma Merkel que é aliada de primeira hora de François Hollande, o presidente da França eleito pelo Partido Socialista, também de centro-esquerda.

O que está acontecendo, então, na Europa? A centro-direita e a centro-esquerda andam tão parecidas que chegou ao ponto de se unirem oficialmente na Alemanha. Hollande, na França, trabalha na reforma das leis trabalhistas, Merkel governa com uma grande de proteção social, ou seja, os dois se encaminham para o CENTRO, com uma política social-liberal, capitalista que não abre mão dos direitos sociais. Um centro internacionalista, europeísta e liberal nos costumes.

Esse movimento já ocorria há alguns anos na centro-direita e centro-esquerda europeia, mas a crise de 2008 mudou o jogo. Esse centrismo passou a ser questionado pela população, que exige resultados de seus governos. Abriu-se, então, espaços para novos atores políticos: a direita nacionalista cresceu muito e a esquerda mais radical começa a dar seus passos, inicialmente na Grécia e agora dentro dos partidos de centro-esquerda. O PS francês pode lançar para presidente esse ano, um crítico do próprio governo que eles detém. E o líder do partido trabalhista inglês é também um sujeito que sempre foi rejeitado pela cúpula partidária.

Na Espanha e em Portugal, a direita nacionalista ainda não ganhou corpo por razões específicas. Em Portugal, a centro-esquerda precisou dos partidos ditos mais extremistas para voltar ao poder. Na Espanha, há dois movimentos horizontais, de centro (Ciudananos) e esqueda (Podemos) que embaralhou todo o cenário político.

A Itália já possui um partido no poder que é de “extremo-centro”. O Partido Democrático (PD) já é a junção da centro-direita e centro-esquerda. Seus principais adversários são a direita extremista do Berlusconi e o “anti-tudo” Movimento Cinco Estrelas, mas que também tem posições nacionalistas.

Ou seja, na Europa a polaridade direita-esquerda continua existindo, mas deixa de ser o eixo principal para dar lugar a dualidade nacionalistas extremistas x centristas europeístas. O que separa a extrema-direita e a extrema-esquerda é a visão sobre os refugiados, pois a crítica ao comércio global é praticamente a mesma. Se bem que Jeremy Corbyn, o líder do trabalhismo inglês, vem sendo acusado de não lutar contra o Brexit.

E o Brasil?

Bom, o Brasil também está entrando em uma nova fase. Uma fase que o resto do mundo ocidental passou nos anos 50, 60, 70 e 80, a guerra fria. A crise política e a falência do discurso dos rivais PT e PSDB somada a todo o fisiologismo do PMDB fez com que nascesse no Brasil uma direita anos 80 no país. Preocupada em combater um regime político que sumiu do mapa em 1989, essa nova direita evoca um conservadorismo de Reagan, mas sem conseguir compreender o que ocorre no mundo hoje.

Essa nova direita paranoica apoia Trump chamando Hillary Clinton de esquerda, sem conseguir enxergar que as ideias de Trump para a economia são mais parecidas com as do PT, enquanto o PSDB se espelha mais no modelo de Clinton. É uma direita que olha para o bilionário capitalista George Soros como um “esquerdista” só porque ele usa seu dinheiro para combater o novo governo Trump (uma obviedade, visto que o bilionário sempre lucrou com o livre comércio mundial).

Se essa direita (que acha que a Globo é socialista) cresce e ameaça o monópolio eleitoral do PSDB, o lado da esquerda também não anda muito bom. Apeada do poder no ano passado, a esquerda tupiniquim está rachada e numa crise existencial. De um lado o PT, um socialdemocrata em crise que tenta se recuperar sem autocrítica, achando que o povo tem a obrigação de votar em Lula em 2018 pelos feitos ocorridos há uma década. O partido conta com uma militância que possui uma ala ultrarradical que enxerga somente nela a salvação para o país (fui bloqueado por um fake famoso deles, aliás). Do outro o PSOL, um partido acadêmico, com ideias novas, mas ainda muito longe daqueles que eles afirmavam mais defender.

Ou seja, o cenário político brasileiro é incerto e nada parecido com as movimentações que ocorrem pelo mundo, a não ser pelo crescimento do populismo, comum em qualquer república durante tempos de crise…

 

A globalização e a vitória de Trump

c05601Jornais do mundo inteiro ficaram perplexos com a vitória de Donald Trump nas eleições americanas, produzindo reportagens analíticas tentando compreender porque os americanos escolheram um empresário polêmico sem experiência política, com discurso de ódio. O livro “Globalização – As consequências humanas” de Zygmunt Bauman, publicado em 1999, dá pistas do que levou os americanos a tal decisão.

O voto do americano foi um protesto contra a globalização, tão vendida como única saída pelos americanos nas últimas décadas, cujas consequências também foram negativas para o povo de lá, principalmente para aqueles que perderam seus empregos aos verem as fábricas se mudando para a China.

Bauman afirma no livro que a globalização é ao mesmo tempo algo que “devemos fazer se quisermos ser felizes” para uns e “a causa da nossa infelicidade” para outros. De qualquer forma, o autor reforça que “estamos todos sendo globalizados e isso significa o mesmo para todos”.

Para o autor, a “globalização tanto divide como une, divide enquanto une” e “as causas da divisão são idênticas às que promovem a uniformidade do globo”. A globalização gera uma “progressiva segregação especial”, uma “progressiva separação e exclusão” das sociedades – de um lado uma elite globalizada e de outro o resto da população, que permanece localizada.

Enquanto as elites globais buscam dar um padrão de regras e valores para o planeta, a maioria da população vive em outras condições, não dispõe de recursos para fazerem do mundo cosmopolita. Se por um lado as elites se tornaram extraterritoriais, ou seja, desprendidas de nacionalidades e que buscam uma cultura hibridizada, global, multicultural, a maioria da população está desconectada, cada vez mais distante e os resultados são uma cultura cada vez mais separada, segregada.

Por que isso acontece? Porque as pessoas fora das elites não dispõe de recursos para alcançar esse padrão globalizado. Bauman afirma que “os centros de produção de significado e valor são hoje extraterritoriais e emancipados de restrições locais — o que não se aplica, porém, à condição humana, à qual esses valores e significados devem informar e dar sentido”, isto é, as elites globais criam padrões que não se aplicam as condições humanas da maioria.

A mobilidade
Para Bauman, “no mundo do pós-guerra espacial, a mobilidade tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais em escala cada vez mais mundial”.

Essa mobilidade é o ponto de partida de uma elite extraterritorial, desgarrada de obrigações locais. Não há como dissociar a globalização com o capitalismo, pois como afirma Bauman “livrar-se da responsabilidade pelas consequências é o ganho mais cobiçado e ansiado que a nova mobilidade propicia ao capital sem amarras locais, que flutua livremente. Os custos de se arcar com as consequências não precisam agora ser contabilizados no cálculo da “eficácia” do investimento.”

Bauman cita o executivo americano aposentado Albert Dunlap, que afirmava que “a companhia pertence as pessoas que nela investem – não aos seus empregados, fornecedores ou à localidade em que se situa” como base para o pensamento da empresa globalizada. Ela não possui vínculos, responsabilidades, deveres com uma localidade. Pode a qualquer momento deixar uma cidade onde atua e ir para outra atrás de vantagens fiscais (ou de outras naturezas) sem dar explicações para a comunidade onde funcionava. “A companhia é livre para se mudar, mas as consequências da mudança ficam”, assinala Bauman. Uma situação oposta das antigas elites não extraterritoriais como “proprietários fundiários do início dos tempos modernos e corretores imobiliários da era moderna recente”, que não podiam fazer o livre movimento do capital.

Trump, um megaempresário global, soube explorar na campanha o sentimento dos americanos que sofrem as consequências da extraterritorialidade das empresas. O discurso protecionista e a promessa da volta dos empregos foi o que fez o povo apostar em Trump contra uma candidata ligada ao capital financeiro internacional, ao establishment político, a manutenção do status quo.

Não se trata de ser contra a globalização, um fenômeno com vantagens e desvantagens, mas entender as consequências para todos os povos e os problemas que isso pode gerar.

O jornalismo como agente da democracia

000001222971As crises que as democracias vivem nos últimos anos, com o surgimento de políticos e partidos contra o establishment político colocaram o a importância do jornalismo novamente em evidência. O posicionamento da imprensa na sociedade, de observador e fiscalizador, vem sendo questionado diante da avalanche de movimentos populistas e autoritários, rescendendo a discussão sobre um jornalismo mais ativo no processo democrático. O jornalismo cívico, também chamado de jornalismo público, é apontado como uma ferramenta importante para o período de instabilidade que vivemos.

A escola de jornalismo cívico, iniciada no fim dos anos 80 nos Estados Unidos, foi conceituada e debatida no livro Jornalismo Cívico (Livros Horizonte, 2003) que tem os professores Nelson Traquina e Mário Mesquita como organizadores. A obra traz oito artigos sobre a escola jornalística, dois conceituais e seis de debate sobre antecedentes, caraterísticas e experiências do formato.

No texto de abertura, o jornalista e professor Nelson Traquina aborda os cenários da política e da mídia americana nos final dos anos 80 e início dos anos 90, período em que surgem os primeiros movimentos do jornalismo cívico. Citando o jornalista norte-americano Davis Merritt, Traquina explica que o jornalismo americano passou por uma onda de denuncismo após o escândalo de Watergate dos anos 70 e a enxurrada de notícias ruins levou a um descrédito da população não apenas com os políticos, mas com toda a vida pública. Esse cenário permitiu que surgisse um novo movimento, que colocasse o papel do jornalista não apenas como um “cão de guarda” da democracia, mas de um agente que fizesse a conexão do poder público com os cidadãos, incentivando a democracia participativa.

Merrit foi o editor do jornal Wichita Eagle, lançado em 1990 e que segundo Traquina, utilizou-se de pesquisas de opinião para saber quais os assuntos a população mais se preocupava no âmbito público para a partir daí, definir a linha editorial da cobertura das eleições, deixando de lado as brigas diretas dos candidatos.

Também organizador do livro, Mário Mesquita mostra como o jornalismo cívico é alinhado com a filosofia “comunitarista”. A proposta de um jornalista não ser apenas um observador, mas um participante da sociedade surge em um país com tradição em participação popular, principalmente em decisões a respeito de questões locais, apesar de os defensores do “public journalism” argumentarem que essa tradição vem sendo perdida nos Estados Unidos e o jornalismo viria justamente para ajudar a recuperar.

Um dos professores americanos que mais defendem essa escola, Jay Rosen assina dois textos selecionados na obra:   “Tornar a vida pública mais pública” (tradução de José João da Silva Costa) e “Para além da objetividade” (tradução de Victor Flores). O primeiro aborda os aspectos sociais da vida comunitarista e a relação que os jornalistas devem ter com a sociedade. O segundo trata de uma das principais características do jornalismo convencional que é a linguagem objetiva. Assim como os teóricos do “novo jornalismo”, Rosen questiona o mito da objetividade e sua eficiência para a imprensa imparcial: “a objetividade enquanto teoria sobre como se chega a verdade está intelectualmente esgotada”, afirma.

As filosofias e conceitos de sociedade pensadas por filósofos no século XX como uma base para o surgimento do jornalismo cívido é o tema do artigo da jornalista e professora norte-americana Renita Coleman (tradução de José João da Silva Costa). A partir de pensadores como John Dewey e Jürgen Habermas, a autora busca elencar os antecedentes para o surgimento da escola jornalística.

O último artigo do livro é um contraponto aos defensores do jornalismo cívico. O jornalista norte-americano William E. Jackson Junior (tradução de José João da Silva Costa) critica a prática a partir do que viu nas eleições de 1996 no Carolina do Norte, Estados Unidos. O autor faz a principal contra argumentação do chamado “public journalism”: o risco de dar poderes excessivos a mídia na organização dos temas mais importantes para a cobertura de um processo eleitora.

O jornalista conta que viu do Charlotte Observer, maior jornal do Estado e defensor do jornalismo cívico, deixar de lado assuntos como uma denúncia contra um dos candidatos ao Senado por não entrar dentro dos temas definidos com a comunidade. A campanha do Charlotte Observer para o período eleitoral “Your Voice, Your Vote” teria sido desmontada pelos partidos políticos, que descobriam através de pesquisas, o que o povo mais queria falar e com isso, restringia as campanhas a isso. “Os imperativos de Your Voice, Your Vote restringiram a cobertura e encorajaram os candidatos a lidar com a situação dizendo aos eleitores aquilo que eles queriam ouvir. Houve pouco incentivo a que lhes falassem de coisas por que eles não pareciam interessar-se tanto (e por consequência a imprensa não se interessava tanto”, afirma o jornalista.

O contraponto do último artigo serve como um alerta nas discussões sobre como fazer um jornalismo cívico nos dias de hoje, com a internet permitindo maior interatividade com os cidadãos, sem ser ingênuo quanto a reação das elites política e econômica quanto a manipulação da opinião pública, seja se preparando para mudar o foco diretamente om os cidadãos ou via abuso do poder frente aos donos de jornais. Um jornalismo cívico de verdade precisa ser independente, uma busca quase inalcançável no jornalismo dos dias de hoje.

É possível reconectar a política com os cidadãos?

maxresdefault1O crescimento do discurso anti-política, anti-establishment nos países ocidentais foi o tema do artigo anterior. A vitória do empresário João Dória em São Paulo, com uma campanha onde afirmava “não ser político” e o perigoso sucesso de Donald Trump nos Estados Unidos mostrava que o eleitorado está cansado da velha política e como vivemos um momento de crise (ou seria transformações), o discurso populista de extrema-direita anti-política ganha força.

Mas a narrativa atual do cenário político não precisa ser de um filme de terror e há exemplos no mundo de tentativa de reconectar os cidadãos a política. Na Espanha, os movimentos de rua deram origem a novos partidos políticos: O Podemos (à esquerda) e o Ciudadanos (ao centro) apesar de serem antagônicos em diversos pontos sobre a política espanhola, convergem quando o assunto é a estrutura política: a horizontalidade.

Pelo menos em tese, esses novos partidos buscam colocar o cidadão no centro da política, tentando acabar com o conceito de classe política, ou melhor, estendendo a todos. Mandatos compartilhados, decisões abertas a todos os cidadãos (não apenas um pequeno grupo com direito a voto) e a tentativa de eliminar a figura dos caciques partidários estão na pauta daqueles que tentam ressignificar a política.

Um colóquio discutiu na segunda-feira (17) à tarde na Universidade da Beira Interior (UBI) em Covilhã, Portugal, as crises da democracia e a mídia. Como já dito aqui e no artigo anterior, a Europa passou por uma crise econômica e agora passa por uma migratória, abrindo espaço para movimentos extremistas eurocéticos de partidos como o AfD (Alemanha), Frente Nacional (França) e Ukip (Inglaterra). A saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit) foi o primeiro grande resultado dessa onda.

Jornalista e professor da Universidade Lusófona, João Almeida Santos foi direto ao ponto ao falar da crise que envolve partidos tradicionais da Europa: eles não conseguem se adaptar ao mundo de hoje, um mundo onde todos estão conectados e todos têm voz: “A rede está a introduzir uma nova lógica no poder, uma lógica do poder diluído, disseminado. O cidadão deixa de ser expectador frente aos media, ao poder público, deixa de ser passivo. Muitos dos agentes protagonistas ainda não perceberam isso”.

Se os agentes protagonistas não perceberam, outros grupos estão abrindo os olhos. Na Itália, o Movimento Cinco Estrelas aposta na democracia digital, com a participação direta popular através da internet. Na Argentina, o Partido de La Red criou uma plataforma digital para participação dos eleitores e todos os parlamentares eleitos pela agremiação seguem o “DemocracyOS” na hora de votar um projeto de lei. O Partido Pirata, que está com chances de vitória na Islândia, defende o que eles chamam de “democracia liquida”, também direta, colaborativa

Voltamos ao Brasil: qual partido hoje consegue se conectar com os eleitores? Qual partido hoje consegue se livrar do caciquismo e ser mais democrático internamente? O presidente Michel Temer afirmou que o alto número de votos nulos e abstenções é um recado para a classe política: a classe entendeu? vai fazer alguma coisa? Ou vai ajustar o processo eleitoral para impedir que novos movimentos políticos tenham êxito sobre a velha política?

O cenário político para 2018 apresenta uma disputa entre Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Alguém acredita que dessas duas forças políticas sairá alguma renovação? O PT levou uma surra nas eleições e mostra ter dificuldades em se renovar. O PSDB saiu fortalecido esse ano, mas sabe que os votos nulos e as abstenções obtiveram sucesso maior. São votos desperdiçados esse ano, mas que podem ser direcionados a novas forças nos próximos pleitos.

O PMDB dispensa comentários. O PSB mostra estar perdido sem Eduardo Campos. A Rede surgiu como um partido para renovar a política, inclusive citou o Partido de la Red (ARG) e o Podemos (ESP) em seu primeiro horário eleitoral. Mas houve traços de caciquismo em algumas cidades nessas eleições, onde a vontade da maioria dos militantes foi derrotada pela preferência dos líderes nacionais em coligações de algumas cidades.

As eleições de 2016 não significaram apenas uma paulada no PT. Todo o sistema foi abalado com uma descrença geral no processo político. Ou surgem novos movimentos políticos, horizontais, cidadãos, decididos a reinventar a política brasileira, ou o eleitorado continuará fugindo das urnas, dando espaço para movimentos autoritários e populistas saírem vitoriosos.

 

Triste? Decepcionado? O primeiro turno das eleições municipais deveria ser esperado

trumpO Facebook se tornou um muro de lamentações da esquerda (e parte da centro-direita também) após os resultados do primeiro turno das eleições municipais. De Norte a Sul do país, é possível constatar a falta de mudanças, o crescimento de personalidades pitorescas e um número muito alto de brancos, nulos e abstenções. Todos nós já sabíamos que isso poderia acontecer, mas a esperança nos cegava da realidade.

O número alto de bancos, nulos e abstenções era óbvio. O brasileiro nunca levou muito a política partidária a sério e perdeu ainda mais a vontade com o noticiário dos últimos anos. Apesar de estarmos vivendo o não o auge da corrupção, mas o início de uma limpeza, o fato de as pessoas passarem a entender como funciona o meio político afasta o eleitor das urnas. As pessoas sabiam que isso existia, mas não queriam detalhes. Agora estão com nojo. Se a maioria da população soubesse que a regularização do título é rápida e custa menos de R$ 5, as abstenções seriam muito maior.

Se a maioria dos eleitores de São Paulo preferiu não votar ou anular/branco, era possível esperar que um candidato que viesse com um discurso anti política fosse o vencedor. Dória tem a cara do coxinha, do empresário mauricinho, mas não tem cara de político. Bastava ele uma campanha bem feita e deixar o serviço sujo de destruir a imagem do PT para aqueles de sempre.

A mesma São Paulo que elegeu o Dória elegeu o Suplicy vereador com mais de 300 mil votos. Apesar da experiência pública de décadas, o ex-senador do PT continua passando a imagem de outsider do meio político.

O Rio de Janeiro, onde a esquerda deposita todas as suas esperanças, também prova isso. Um bispo da Universal e um candidato do PSOL no segundo turno é a prova que o discurso anti-establishment está na moda. O Rio não colocou PT, PMDB, PSDB e outros partidos tradicionais no segundo turno.

O Freixo é a nova força da esquerda justamente porque é diferente. Ele consegue captar a juventude indignada pelo formato político atual.  Se ele ganhar o segundo turno, o Rio de Janeiro será a base para a esquerda no país todo, como foi o governo de Olívio Dutra (PT) em Porto Alegre entre 1989 e 1992.

Com uma campanha diferente, sem recursos de empresa, com pouco espaço para divulgar, as cidades que não possuíam alternativas contra o establishment mantiveram os mesmos. Em Blumenau (SC), o destaque na Câmara foi Bruno Cunha (PSB), que fez uma campanha sem destacar o partido pelo qual é filiado, sem utilizar os termos da velha política.

O sistema político tradicional está falindo no mundo todo. Syriza na Grécia, Podemos na Espanha e Marcelo Freixo no Brasil são exemplos da esquerda que acorda para este novo momento. Trump nos Estados Unidos, Movimento Cinco Estrelas na Itália são exemplos da direita que também sai do modelo tradicional, apelando a uma veia neopopulista.

Os momentos de crise são propícios para o crescimento dos partidos extremistas. Os mais ligados ao Centro precisarão se reinventar.

Internet livre nas eleições

LIBERDADE, LIBERDADE, LIBERDADE. As eleições de 2010 serão livres na internet. A proposta de censurar a rede, dos senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Marco Maciel (DEM-PE) caiu por terra. Prevaleceu os projetos dos de Aloizio Mercadante (PT-SP) e Álvaro Dias (PSDB-PR) no Senado e o presidente Lula foi além.

Os  sites poderão ano que vem, fazer entrevistas com candidatos livremente, e declarar apoio, desde que não seja no anonimato e tenha direito de resposta (o que é justo). No caso de um debate em um portal, podemos escolher quem entrevistas, seguindo as mesmas regras dos jornais e não de rádios e TVs. É justo, pois internet NÃO É UMA CONCESSÃO PÚBLICA.

Sendo assim, os blogs poderão se manifestar com liberdade, sem aquele joguinho hipócrita de não revelar suas preferências. É uma pena que apenas a internet só chegue atualmente a 23% dos lares. Mas isto está mudando…