Haddad x Bolsonaro em outro patamar

IBOPE

A pesquisa Ibope do dia 24 de setembro vai ser muito festejada pelo PT. Não apenas pelos resultados imediatos, que confirmam a ascensão de Fernando Haddad e a parada de Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Os dados do segundo turno são as armas do petismo agora e a rejeição é o ponto mais importante para Bolsonaro refletir. O Ibope colocou a briga dos dois em outro patamar e uma terceira via está cada vez mais difícil…

SEGUNDO TURNO

Pela primeira vez, Haddad apareceu na frente em uma simulação de segundo turno contra Bolsonaro fora da margem de erro. Na sexta-feira, o DataPoder 360 já apontava o crescimento do petista, que venceria o candidato do PSL por 43 a 40. Mas ainda era um empate técnico dentro da margem de erro. Agora não, 43% a 37%, seis pontos, é o que o PT precisava para derrubar a tese do voto útil para Ciro. A vantagem de PDT para Bolsonaro continua maior, 13 pontos. Mas o crescimento de Haddad mostra que ele pode sim vencer a eleição no segundo turno, que a rejeição ao PT já não é a mesma de 2016. “Votar Haddad é eleger Bolsonaro” não se sustenta mais.

REJEIÇÃO

A curva do petista é ótima em todos os sentidos. Subiu em todas as regiões do país, assusta menos o mercado que Lula e sua rejeição oscilou de 29% para 30%, muito abaixo dos 46% de Bolsonaro, que viu sua rejeição crescer quatro pontos percentuais. Aliás, esse é o ponto mais importante para o PSL hoje. A oportunidade de criar um BolsoLight após o atentado foi jogada fora. O discurso radical misógino e homofóbico dos seus militantes (canções contra mulheres em Recife, gritos de “Bolsonaro vai matar viado” em Belo Horizente) tudo isso ajudou a queimar ainda mais a imagem do candidato.

MUDANÇA

Ou Bolsonaro muda radicalmente a campanha, acena para o eleitorado feminino que faz campanha contra si, busca uma conciliação e, PRINCIPALMENTE, tenta por um freio nos seus militantes, ou Bolsonaro corre até um risco (embora muuuuito pequeno) de ver seus votos voltarem para o PSDB de Geraldo Alckmin ainda no primeiro turno. A reação dos militantes do PSL na internet depois da pesquisa mostram que eles não entenderam nada do que está acontecendo: mais ataques a possíveis eleitores no segundo turno.

MAIS GESTOS

Se Haddad cresceu e suas chances de vitória passaram a ser reais nas últimas pesquisas, dá-se não apenas pelo lulismo, mas também pelo perfil moderado de Haddad. Duvida? Ele melhorou sua votação no Sul, onde Lula possui uma rejeição gigantesca. Haddad também fez acenos ao mercado, afastando os economistas mais radicais e deixando o boato que o economista ortodoxo Marcos Lisboa pode ser seu ministro da Fazenda. Assim como Bolsonaro ainda tem tempo e espaço para acenar ao outro lado, Haddad também pode fazer isso: o perfil pessoal dele lembra mais o FHC que de Lula. Haddad é o mais tucano dos petistas. Explorar o nome de Lula alavanca votos no Nordeste e na população mais pobre, investir no nome de Haddad pode ajudá-lo no segundo turno contra Bolsonaro.

“Haddad é o mais tucano dos petistas”

ÚLTIMAS CARTADAS

Buscar o eleitor antipetista, mas não maluco radical, que não quer Haddad no poder e que perdeu a paciência com Bolsonaro deve ser a última cartada tanto de Geraldo Alckmin (PSDB) como de Ciro Gomes (PDT). Esse eleitorado é de centro e centro-direita e rejeita os dois líderes das pesquisas. Quem conseguir capitalizar melhor esses votos pode chegar na semana final sonhando em ser a terceira via. Em favor de Ciro, ter uma militância organizada na internet. Em favor de Geraldo, o apoio da mídia tradicional.

SANTA CATARINA

Nem Mauro Mariani (MDB), nem Gelson Merísio (PSD), nem Décio Lima (PT). Quem lidera as eleições para governador em Santa Catarina são os votos brancos/nulos e eleitores indecisos: 35%. A menos de duas semanas das eleições, temos uma disputa aberta, improvável e muito difícil de arriscar quem estará no segundo turno (e se vai haver segundo turno, mesmo). Mariani e Merísio possuem estrutura, mas são nome muito pouco estadualizados. Décio é estadualizado, mas não possui estrutura. A disputa ao governo catarinense ficou em segundo plano para os eleitores.

 

Extremos? Não! Uma disputa de rejeições, talvez

FOTO: José Cruz/Agência Brasil

POLARIZANDO

A pesquisa Ibope divulgada terça-feira (18) pela Rede Globo só confirma o que outras pesquisas já apontavam: Fernando Haddad (PT) disparou e começou uma polarização direta com Jair Bolsonaro (PSL). A tendência no momento é que ambos vão ao segundo turno, que deve ser muito disputado. Mas este é o cenário do momento, as coisas ainda podem mudar.

SUBINDO

A subida de 11 pontos percentuais em uma semana mostra que a transferência de votos de Lula para Haddad começou a acontecer. E se lembramos que o ex-presidente tinha 38% no último Ibope e 39% no último Datafolha, podemos afirmar que a tendência é que o ex-prefeito de São Paulo continue subindo.

TAMBÉM VAI SUBIR

O crescimento do candidato do PT pode ajudar Bolsonaro a se consolidar. Ele vai apostar no antipetismo para conseguir alguns votos hoje com Alckmin, Dias e Amoedo. Bolsonaristas falam em vitória no primeiro, mas vale lembrar que nem voto voto tucano é voto para ele. Do outro lado, o PT também tentará roubar votos de Ciro e Marina com o discurso antibolsonaro. O que deve acontecer? Ambos subirão, mas n devem bater os 50% no primeiro turno.

EXTREMOS

O segundo turno entre Haddad e Bolsonaro não será um segundo turno de extremos. Isso porque o candidato do PT é, talvez, um dos mais moderados do seu partido (que já é bem moderado). Será um segundo turno se rejeições, grupos anti que se espalham na internet. Por isso, será um segundo turno insuportável, com brigas, discussões intermináveis, etc.

CENTRÃO

O Centrão deve eleger, como sempre, um espaço gigante no Congresso Nacional para 2019. Mas o desempenho de Geraldo Alckmin (PSDB) é uma derrota para esses partidos. O latifúndio no tempo de TV não serviu para nada até agora. Confirmando, a tese de que os candidatos precisam do Centrão para ganhar as eleições cai por terra. Os principais partidos começarão a pensar em si apenas, deixando a conversa com o Centrão para depois das eleições. E se lembrarmos que a partir de 2020 não haverão mais coligações proporcionais, o jogo político passará por grandes mudanças.

 VICE E ASSESSOR

De acordo com o UOL, Bolsonaro teve alta do Hospital, deve ficar no Rio de Janeiro e estuda participar do debate na Globo. O candidato do PSL precisa volta ao noticiário que não seja apenas a sua recuperação física para evitar que os aliados atrapalhem ainda mais a campanha. As entrevistas do General Mourão (PRTB) tem sido polêmicas (para não falar algo pior). Comentário preconceituoso sobre famílias de mães solteiras, comentários contra negros e índios. Além disso, o assessor econômico propôs a volta da CPMF e uma única faixa de imposto de renda.

HADDAD PAZ E AMOR

Este coluna disse em sua segunda edição que já havia uma aproximação do Mercado Financeiro com Haddad, antes memso de ele ser confirmado candidato do PT. Agora, o petista dá declarações concordando com uma reforma da previdência (não a do Temer, claro), com controle de gastos e sinalizando que o Ministério da Fazenda não será tocado por alguém muito heterodoxo. É praticamente uma “carta ao povo brasileiro” atualizada.

 

Bolsonaro ficou mais vivo após a facada

IMPREVISÍVEL

Estamos diante de uma eleição imprevisível histórica. Um dia, a pesquisa Ibope aponta uma rejeição crescente para Bolsonaro, que perderia o segundo turno para qualquer adversário. Uma situação difícil de reverter, pois sua rejeição crescia justamente com o aumento da exposição do candidato. Eis que um imbecil maluco decidiu dar uma facada no candidato em um comício. Pronto: o candidato do PSL sobreviveu ao ataque e ganhou mais fôlego para a campanha, explico abaixo:

FATOR 1 – COMOÇÃO

A comoção por um candidato que sofre um atentado é inevitável. Lembramos da morte de Eduardo Campos (PSB) em 2014, que impulsionou Marina Silva. O candidato que tinha como problema justamente o fato de defender o ódio, a ditadura, a tortura, agora pode se posar de vítima. Ele fará isso, como qualquer candidato faria.

Morte de Campos gerou comoção, impulsionou Marina, mas não garantiu a eleição dela. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

FATOR 2 – BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSQUITO

Cada vez que Bolsonaro abria a boca para falar seus discursos tradicionais, ele alimentava mais a sua militância enquanto via sua rejeição aumentar. Claro: ou tu apoias incondicionalmente o que ele defende, ou tu repulsas toda a ideologia que ele traz. Agora, pós atentado, Bolsonaro estará na mídia, como vítima, e sem condições de aumentar a rejeição com suas ideias.

SEGUNDO TURNO

Dizer que Bolsonaro vai ganhar as eleições por causa do atentado é precipitado. Marina captou os votos da comoção da morte de Eduardo Campos em 2014, mas perdeu eles no mesmo mês, ficando em terceiro lugar. A primeira reação ao atentado deve ser a consolidação do seu atual eleitorado, o que praticamente o garante no segundo turno. Depois do dia 7 de outubro são outros quinhentos.

NOVAS ESTRATÉGIAS

Geraldo Alckmin (PSDB) tinha decidido atacar Bolsonaro por entender que os dois brigam por uma vaga no segundo turno (a outra é da centro-esquerda). Porém, vale a pena atacar um candidato que sofreu um atentado? Se os tucanos desistirem de entrar no segundo turno no lugar do PSL vão precisar atacar o PDT e a Rede. O jogo mudou…

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

Quando o PT vai finalmente oficializar Haddad? Lançar agora é uma má ideia, pois as atenções estão voltadas para o PSL e o PT precisa de mídia para dizer que Haddad é o candidato de Lula. Mas se não for agora, quando?

MELANCÓLICO

As críticas de Temer a Alckmin e depois a Haddad no Twitter mostram um fim melancólico do ex-presidente em exercício. O mais impopular presidente da história revela-se um rancoroso, chato, que não aceita críticas e vive distante da realidade. Os vídeos de Temer não afetarão as eleições, apenas gerarão ótimos memes.

Pesquisa Ibope, Temer e Lula

José Cruz/Agência Brasil

PESQUISA IBOPE

A primeira pesquisa eleitoral que não trouxe o nome do ex-presidente Lula não foi muito diferente das pesquisas anteriores no cenário sem Lula. Todo mundo praticamente subiu um pouco, mas quem mais comemora o resultado do Ibope é o candidato Ciro Gomes (PDT). Foi quem mais subiu, empatou em segundo lugar com Marina Silva (Rede), possui a menor rejeição e com a maior vantagem sobre Bolsonaro (PSL) no segundo turno.

O REJEITADO

A coisa tá feia para o candidato do PSL. Lidera no primeiro turno, mas perde para todos os candidatos simulados em segundo turno. A exceção é num segundo turno com Fernando Haddad (PT), onde há empate. Porém, é bom lembrar que Haddad ainda não foi oficializado candidato. O candidato “social-liberal” pode ter o mesmo destino de Marine Le Pen, da Frente Nacional, partido da extrema direita francesa: ganhar fácil no primeiro e tomar um vareio no segundo.

CORRA, LULA, CORRA

O PT vai esticando a corda até o fim para lançar seu candidato de “verddad”. Uma estratégia cada dia mais arriscada, pois quando Haddad for o candidato oficial, ele iniciará em quinto lugar nas pesquisas e terá menos de 30 dias não apenas para dizer que é o substituto de Lula, mas que o leitor lulista (que não é necessariamente petista) deve votar nele e não em Ciro Gomes ou Marina Silva, candidatos que estão absorvendo mais o lulismo hoje.

CORRA, LULA, CORRA (2)

E o ministro do STF, Luiz Fachin, o mesmo que tinha votado a favor de Lula no TSE, negou o pedido dele para rever a cassação da candidatura do STF, algo já esperado, mas que a imprensa petista continua esperneando como se tivesse realmente esperanças se alguma mudança nos tribunais. O teatro de dizer que Lula é candidato acabou, quando mais tempo o PT levar para não ficar mais fingindo, pior para Haddad.

NÃO FINGE QUE NÃO ME CONHECE

Pesado o ataque do presidente do Michel Temer (MDB) ao candidato Geraldo Alckmin (PSDB). O tucano está criticando pontos do governo atual e o presidente resolveu reagir, mas com um ataque diferente. Basicamente, Temer disse: “não finge que não estamos juntos, porque estamos juntos sim”. Temer não xingou Alckmin, fez pior: mostrou que a candidatura do PSDB é também uma candidatura governista. Alckmin apanhou e não poderá responder para não perder tempo

 

A tragédia depois da tragédia do Museu Nacional

FOTO: Tânia Rêgo/Agência Brasil

FOGO

Desnecessário falar sobre o incêndio ao Museu Nacional no Rio de Janeiro. O assunto está nos jornais do mundo inteiro. A coluna de hoje falará mais sobre a tragédia que veio depois da tragédia: a desinformação e o festival de discursos políticos bestas para se aproveitar do caso.

A EMENDA 95 E A DILMA

Muita hipocrisia as lideranças do PT culparem exclusivamente o governo Temer pelo incêndio. O primeiro grande corte do repasse de verbas ao museu foi no governo Dilma, em 2015. É fato que a Emenda 95 vai trazer muitos problemas nos próximos anos, mas se é para colocar na conta de alguém, vamos colocar nos dois: Dilma/Temer. Nem esperaram o fogo ser apagado para tirar proveito político, vão… Ah sim, tem matéria circulando de 2004 com a direção da UFRJ reclamando de falta de apoio ao museu, isto é, governo Lula.

ATAQUES AO PSOL

O fato do reitor e do vice-reitor da UFRJ serem do PSOL foi motivo para a direita burra partir para cima do partido, culpando-o pelo incêndio. Oi? A reitoria reclama de falta de recursos para o local desde sempre, estava com uma responsabilidade imensa nas mãos sem dinheiro para isso e a culpa é do partido do reitor? Ah, vá!!!

OS MUSEÓLOGOS

Eis que o Brasil passou a ter 200 milhões de museólogos, ou no mínimo, apaixonados por museus. Gente que nunca colocou os pés em um museu na vida está nas redes sociais berrando contra o governo, contra político X ou Y, pelo incêndio. Ficou interessado em cultura, em história? Comece prestigiando os museus de sua cidade, então.

ROUANET

Deveria ter uma lei que proibisse o brasileiro de falar sobre a Lei Rouanet sem conhece-la primeiro. E que fique claro, sou um crítico antigo a este formato de apoio a cultura. Leis de mecenato como a Rouanet fazem com que o departamento de marketing das empresas decida para onde vai o dinheiro público. Por isso, artistas famosos conseguem captar os recursos aprovados e museus como o do Rio de Janeiro não. Duvida? Leia isto!

ROUANET (2)

Mas não é pelas razões apresentadas na nota anterior que o brasileiro berra nas redes sociais contra a Rouanet. É contra por causa de alguns trabalhos que recebem recursos pela lei. Primeiro: boa parte dos projetos aprovados na Rouanet criticados na web não conseguem captar grana também (leia aqui). Segundo: o problema na real não é o uso de dinheiro público: o hipócrita metido a moralista é simplesmente contra que algumas peças, alguns livros sejam publicados porque não gosta do conteúdo. Censura mesmo, sabe…

HIPÓCRITAS

É irritante ler pessoas que até ontem estavam reclamando de dinheiro para museus e espaços de arte, educação, história, hoje bancarem os defensores da cultura (de parte dela, no caso). Esse assunto vai se manter em alta até o segundo turno das eleições e depois será esquecido, assim como foi esquecido a tragédia de Mariana (MG), assim como já esqueceram a morte de Marielle Franco. É só onda….

As mentiras sobre Marielle e a pós-verdade

Continua a repercutir as notícias falsas a respeito da história da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL). A mídia não apenas desmente as informações que circulam na internet, como problematiza a questão das “fake news”. Espalhar notícias falsas não é novidade na internet, nem na comunicação como um todo e no caso de uma execução de uma liderança política, o problema não é apenas o emissor das mensagens falsas mas também o receptor. É um problema muito mais de “pós-verdade” do que “fake news”.

Utilizado pela primeira vez na década de 90, pós-verdade foi escolhida a palavra do ano em 2016 pelo Dicionário Oxford. Segundo a universidade inglesa, pós-verdade é um substantivo utilizado em situações em que os fatos objetivos não menos importantes na opinião pública que questões emocionais e opiniões pessoais.

Os casos mais famosos envolvendo notícias falsas no mundo atualmente envolvem política: a eleição de Donald Trump e a votação da saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit). Sabe-se da participação de empresas na divulgação de notícias falsas e o Facebook está no bancos dos réus acusado de omissão no uso da rede social para difusão dos boatos. Mas a relativização da verdade a partir de opiniões já estabelecidas é peça central da discussão. Em disputas políticas polarizadas como na eleição americana ou no Brasil atual, as pessoas estão cada vez mais militantes e dão credibilidade apenas as notícias que já confirmem sua visão de mundo.

O psicólogo inglês Peter Wason criou o termo viés da confirmação em 1960 para explicar o fenômeno quando uma pessoa, já dotada de uma crença, busca exemplos e fatos apenas para confirmar a sua visão. A busca pelas notícias já será parcial e direcionada para evitar o contraditório.

O viés da confirmação somada as bolhas que as redes sociais na internet criaram resultou neste cenário de pós-verdade que vemos hoje. A vereadora Marielle Franco estava em um dos polos da briga política do país: filiada ao PSOL, defensora dos direitos humanos, crítica das atuações da polícia militar e da intervenção feita pelo governo federal no Rio de Janeiro. Quem está no outro polo, na direita, a favor do militarismo e crítico das entidades defensoras dos direitos humanos, já partia de um pré-conceito contra a vereadora. Qualquer informação que fosse compartilhada contra ela ganha credibilidade para este cidadão. Numa rede social onde está habituado a conviver “entre os seus”, a tendência é que qualquer notícia contra Marielle se espalhe rapidamente.

Este fenômeno não é observado apenas no espectro da direita política brasileira. A esquerda também possui suas bolhas, onde qualquer informação contra lideranças “do outro lado” ganham credibilidade independente da fonte. Tanto direita quanto esquerda possuem páginas na internet para espalhar essas informações, em sua maioria páginas sem autoria, mas já há veículos e jornalistas dispostos a apresentar o nome para informar esses grupos, sem interesse no contraditório e na checagem dos fatos.

É grave o fato de duas das principais notícias falsas contra Marielle terem partidos de um deputado federal e uma desembargadora. São pessoas com cargos públicos que agiram de forma irresponsável. No entanto, as notícias falsas teriam a mesma repercussão se fossem espalhadas por sites apócrifos. Há um público que deseja essas informações para confirmar suas crenças e se há demanda, haverá alguém para atender.

Como combater?

É óbvio que o deputado e a desembargadora precisam se explicar sobre espalhar notícias falsas. É óbvio que precisamos de uma legislação mais rigorosa com quem produz notícias falsas, é preciso combater e fechar os sites apócrifos pois a liberdade de expressão prevista na Constituição Federal veda o anonimato. Mas isso não impedirá as notícias falsas de se espalharem nas redes sociais, não impedirá sua tia de compartilhar um absurdo no grupo de família. Neste caso, o problema está na recepção.

Pensamento crítico, ensinar as pessoas a questionar as informações que chegam até elas e, principalmente, apresentar os métodos de pesquisa, como ter um raciocínio crítico. Isso tudo deveria fazer parte da educação dos cidadãos. Acabar com a polaridade insana da política brasileira também é um caminho, porém mais difícil. Por onde começar?

Estadão e Brasil 247: partidarismo a desserviço do jornalismo

A imprensa brasileira deu dois exemplos nesta quinta-feira (23) de como o partidarismo político atrapalha o jornalismo. O Estadão, um dos maiores jornais brasileiros e o Brasil 247, veículo da “imprensa alternativa” com uma das maiores audiências na web trouxeram dois casos do que não deve ser feito no jornalismo.

Começamos pelo Estadão, que circulou nesta quinta com essa manchete:

A manchete do Estadão induz o leitor ao erro. A pesquisa não trata de potencial de voto e sim da aprovação pessoal dos atos feitos por pessoas públicas cotadas para a disputa presidencial em 2018.

A matéria dá a entender que Huck possa ser um dos preferidos nas intenções de voto, só que a pesquisa se quer tratou disso. Um desliza vindo de um jornal abertamente anti-Lula e que defende um candidato que tenha chances de bater o ex-presidente, líder em todas as pesquisas de intenção de voto.

O Brasil 247, portal de noticias “alternativo” e abertamente favorável a candidatura de Lula em 2018, começou o dia criticando o Estadão por sua manchete, chamando-a de “fake news”. Mas no fim do dia, colocou essa manchete:

A manchete do Brasil 247 foi em cima de um tuíte do jornalista Gilberto Dimmenstein, que se encontra no mesmo campo político do site. Na verdade, foi apenas um retuíte com provocações ao Estadão. Não há contraponto, não há se quer uma entrevista com Dimmenstein para perguntar como ele conseguiu essa informação.

O Brasil 247 chamou a capa do Estadão de “fake news”, mas deu credibilidade a ela ao buscar uma manchete que “tirasse Luciano Huck da disputa”.  A matéria do site não pode nem ser chamada de jornalismo mal feito ou mal intencionado, porque não dá para chamar de jornalismo.

No mundo inteiro, jornais e portais de notícias deixam claram suas posições editoriais, de direita, de esquerda, de centro. Mas é no Brasil que a imprensa aceita fazer o serviço sujo para os partidos, ao invés de cobrar coerência desses.

A sociedade está doente. E a imprensa tem parte da culpa

Uma professora de Língua Portuguesa agredida em sala de aula por um aluno de 15 anos na cidade de Indaial, Santa Catarina. As imagens da professora com o olho roxo e o rosto sujo de sangue deveriam chocar a sociedade. Por algum intante, imaginei que todos sairiam em defesa da educadora, pedindo providências ao Estado quanto a segurança dos profissionais, com discursos sobre a necessidade da autoridade do professor em sala de aula. Alguns pediriam uma punição maior para o estudante agressor, outros diriam que esse é retrato da insegurança no país, mas haveria um consenso que ela é somente vítima nessa história.

O que vimos, no entanto, foi assustador. A postagem da professora no Facebook teve uma enorme repercussão, mas além das mensagens de apoio e de revolta contra o caso, houve quem atacasse a educadora. E não foram poucos aqueles que se manifestavam dizendo que ela “mereceu”. Por que? Porque ela seria supostamente “de esquerda” e teria feito mensagens de apoio aos protestos contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

É difícil dizer que chegamos ao fundo do poço com a polarização partidária que vivemos, pois a cada diz que passa, algo pior acontece em alguma parte do país, mas basta uma passada nas seções de comentários de portais de notícias e nas redes sociais para afirmarmos a polarização política vive um período doentio e perigoso. Estamos perdendo o controle, a civilidade no debate politico. O que em algum momento do passado foi uma disputa acirrada, mas saudável sobre visões políticas é hoje uma guerra fundamentalista, religiosa, com seguidores fanáticos mais preocupados em destruir (nem que seja socialmente) o adversário que convencer que suas ideias são boas.

O cidadão que, ao saber de uma agressão de um aluno (com histórico de problemas) a uma professora quer saber primeiro se ela é “de direita ou esquerda”, esse cidadão está doente. A pessoa que acha que alguém mereça apanhar somente porque pensa ideologicamente diferente dela possui problemas. Quem defende tortura precisa de um psicólogo urgentemente. E ao que parece, o número de pessoas assim só aumenta.

Esquerda e direita não são religiões. Não são se quer, ideologias e sim classificações para correntes ideológicas sob o aspectos principalmente econômicos. Há esquerdas e esquerdas, direitas e direitas. Nem toda esquerda é marxista, nem toda direita é liberal. Mas isso pouco importa para quem transformou esses conceitos em religiões, em dogmas. Para esses, o que vale é se apegar a algumas características e atacar quem pensa diferente.

A guerra política deixou a sociedade doente. E a imprensa tem culpa nisso. Como? Explico abaixo.

Repare nos argumentos utilizados pelos fundamentalistas dessa guerra. Seja de direita, de esquerda, o que for. Anote os argumentos mais utilizados e faça uma pesquisa ampla no Google. Muitas dessas expressões e ideias foram difundidas na mídia por colunistas, comentaristas e outros formadores de opinião contratados por jornais, emissoras de TV e portais de notícias. Esses formadores lançaram os dogmas e os fieis seguidores passaram a repeti-las nas redes sociais.

A imprensa brasileira fomentou a guerra política. Muitos veículos tomam posições favoráveis ou contrários a determinados governos. Até aí, tudo bem. O problema é que muitos da imprensa embarcaram no fla-flu partidário e se tornaram integrantes da guerra. Como? Contratando brutucus que não tinham a intenção de fazer a crítica política, apenas provocar, ofender, fazer campanha contra o partido adversário. Jornais, revistas e rádios colocaram formadores de opinião desinteressados no debate, queriam apenas a doutrinação: seja ela de direita ou esquerda.

Vimos o monstro do ódio, da intolerância, do fundamentalismo ideológico crescer na internet nos últimos 10 anos. E a imprensa ajudou a alimentar esse monstro para ganhar mais audiência. Agora que a criatura saiu do controle, estamos todos assustados.

Um grupo de nazistas faz passeata em uma cidade pequena dos Estados Unidos e a discussão no Brasil é se o nazismo é de direita ou esquerda. Ou seja, ninguém discutiu o que aconteceu, o foco é atacar o “inimigo”.

A imprensa brasileira está reagindo. Vários desses brutucus perderam espaço nos últimos anos e essa guerra insana está na pauta. Mas os fanáticos ignoram. Talvez seja tarde demais. Eu ia sugerir uma discussão sobre educação e comunicação. Sobre ensinar mídia nas escolas, sobre fake news e pós-verdade. Mas se fizermos isso seremos acusados de “doutrinação”. E agora?

 

 

A Globo, a greve e os critérios de noticiabilidade

FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil

Você pode ser contra uma manifestação como a Greve Geral, mas como jornalista, você precisa abordá-lo

Na última sexta-feira (28), a primeira greve geral do Brasil em 21 anos teve a adesão de mais de 30 milhões de brasileiros segundo as centrais sindicais, responsáveis pela mobilização. O protesto foi contra as medidas de austeridade do governo Michel Temer que incluem a reforma trabalhista, já aprovada na Câmara dos Deputados e que segue para o Senado, e previdenciária, ainda nas comissões legislativas. Os serviços públicos essenciais como saúde, educação e principalmente o transporte coletivo (ônibus e metrôs) foram os que registraram maior adesão, afetando significativamente a população brasileira.

O assunto recebeu ampla cobertura midiática no dia da greve, que iniciou com manifestações ainda na madrugada. A cobertura não foi feita apenas por veículos brasileiros, mas também pela mídia internacional, com destaque para BBC e El País, que possuem redações no Brasil. No entanto, a cobertura antes do dia 28 da principal emissora de televisão do país chamou a atenção.

Jornalista responsável por um blog sobre televisão no portal UOL, Maurício Stycer destacou a ausência da pauta da greve nos noticiários da TV Globo na quinta-feira (27), véspera do protesto. O Jornal Nacional, carro chefe da emissora no jornalismo e no SPTV, edição local para o Estado de São Paulo não fizeram menções ao evento, anunciado em março, com confirmações de adesão ao longo da semana.

“O ‘SPTV’ segunda edição, que sempre presta serviço aos espectadores em caso de decretação de greves em serviços essenciais, não tratou do protesto que ocorrerá nesta sexta-feira em São Paulo. O principal telejornal da emissora, o ‘Jornal Nacional’, igualmente ignorou o assunto, apesar de o movimento ter alcance nacional”, afirmou Stycer em seu blog.

Durante a sexta-feira (28), a emissora cobriu os protestos e ressaltou que tinha sua equipe de cobertura desde o início da manhã acompanhando o assunto. Porém, não se manifestou sobre a não menção ao assunto no dia anterior. Stycer encontrou apenas uma resposta do apresentador do programa Bom Dia RJ, Flavio Fachel, que foi questionado no Twitter sobre o silêncio: “O que é notícia? O que acontece. E a greve? Se acontecer, a notícia é amanhã. #Jornalismo”, respondeu o apresentador.

Noticiabilidade

Tratando o fato como uma decisão editorial da TV Globo (não é possível imaginar que tenha ocorrido um mero esquecimento), voltamos a discussão sobre os critérios de noticiabilidade. O que é uma notícia, afinal? Quais assuntos se tornam notícia e, por isso, devem ser reportados pelos jornalistas?

Para definir os critérios de noticiabilidade, utilizamos o conceitos de Mauro Wolf, que define noticiabilidade como “O conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, de entre um número imprevisível e indefinido de factos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias“. Segundo o autor, os acontecimentos que reunirem o maior número de critérios de noticiabilidade serão transformados em notícias para publicação.

Entre os critérios estão o impacto do acontecimento sobre a nação e o interesse nacional, a quantidade de pessoas envolvidas no fato, a relevância e significatividade do ocorrido, além da atualidade e da disponibilidade do veículo de comunicação poder fazer a cobertura sobre o assunto.

No caso, o fato é que os sindicatos haviam anunciado a paralisação dos serviços de transporte e educação básica, entre outras categorias que aderiram à paralisação. Somente a greve nos metrôs e ônibus já atende quase todos os critérios citados anteriormente: atinge a maior parte da população de uma cidade, é de interesse nacional (protesto contra reformas de austeridade), é extremamente atual (ocorreria no dia seguinte), fácil de se noticiar e a emissora possui estrutura para cobrir a paralisação (tanto que fez isso).

Ética e posição editorial

Um levantamento da ONG Repórter Brasil feito na última semana apontou que os principais veículos de comunicação do país fizeram uma cobertura desequilibrada da reforma de previdência. Foram analisados textos e matérias em vídeo entre 21 de novembro e 20 de dezembro de 2016, período que compreende duas semanas antes e duas semanas depois da protocolação do projeto de lei pelo Executivo no Congresso. A TV Globo foi a de maior adesão a proposta, 91% do tempo das matérias dedicadas ao assunto foram para argumentos favoráveis. No impresso, a maior cobertura favorável foi da mesma empresa: O diário O Globo dedicou 90% dos textos para defender o projeto.

No entanto, a posição favorável as reformas de austeridade do governo não foi vista na véspera do protesto contra essas reformas, já que a emissora se quer abordou o assunto. O Código de Ética dos Jornalistas, em seu artigo 2, afirma:

Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não governamentais, é uma obrigação social.
V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.

 Considerações

O posicionamento da TV Globo, favorável as reformas trabalhista e previdenciária e contrária ao movimento de greve geral contra as reformas é evidente e um direito da emissora, apesar de questionamentos éticos sobre o posicionamento político de uma emissora com concessão pública também poderem ser feitos. Porém, este posicionamento editorial não justifica a omissão da informação, um explícito delito ético com consequências negativas para a sociedade.

A tentativa de defender as reformas omitindo os protestos contrários não impediu que a greve geral ocorresse e prejudicou cidadãos que eventualmente se informaram sobre as notícias apenas pela emissora. A não funcionamento de serviços essenciais como transporte e educação precisa ser noticiado, independente da concordância ou não com os motivos da paralisação.

A TV Globo não apenas desdenhou do movimento, mas também da população, pois os demais veículos de comunicação, em rádio, TV, impresso e internet divulgaram a greve.