O maior fake da história e a pós-verdade além da notícia

O suposto fotógrafo foi investigado pela BBC Brasil

Um fotógrafo brasileiro de 32 anos, que se recuperou do câncer e virou fotógrafo da ONU, retratando os horrores das guerras pelo mundo. Um humanista talentoso com as lentes, com mais de 120 mil seguidores no instagram. Conhecia pessoas em todo o mundo, mantinha contato com fotógrafos e profissionais de imprensa. Já tinha sido tema de reportagem em vários veículos como a BBC Brasil e a revista canadense Vice.

Uma senhora de meia-idade, militante política de um partido no Brasil, que comentava em todos os portais de notícias e blogs locais durante as eleições municipais brasileiras em 2012. Os blogs que cobriam as eleições recebiam comentários da senhora em todas as postagens. O perfil dela no Facebook trazia poucas informações pessoais, era composto basicamente de postagens políticas, próprias e compartilhamentos.

O primeiro é fake, a segunda existe de verdade.

Eduardo Martins é nome de uma grande farsa descoberta pela BBC Brasil semana passada, talvez o maior fake da história. Suas fotos são roubadas e alteradas, suas histórias, seu emprego, é tudo falso. As fotos de perfil são na verdade de um surfista britânico, seu nome também deve ser falso, pois a conta no instagram e a página pessoal, vamos deletadas após o cerco de fechar. O fake não deixou rastros e sim uma legião de jornalistas e seguidores enganados em todo o mundo.

A militante partidária, que a imprensa local acreditava ser um fake criado para trollar nas eleições, apareceu durante o comercial de TV do candidato que apoiava. Ela existe: nome, fotos, as poucas informações que divulgou sobre si eram reais.

A comparação entre o fake descoberto pela BBC Brasil e a militante política precisa ser feita: na internet, o fake era mais real que a pessoa que existe de verdade. Mas afinal o que é verdade nos tempos de pós-verdade?

Pós-Verdade foi o termo do ano em 2016 segundo o Dicionário de Oxford, editado pela famosa universidade britânica. As razões da escolha estavam principalmente na vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e do Brexit no Reino Unido: a relativização da verdade, quando a crença pessoal vale mais do que os fatos.

Jornalista e pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (UFSC), Carlos Castilho relaciona a pós-verdade com a velocidade que recebemos as informações pela internet.

A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.
Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.

Se uma “verdade” pode ser construída a partir de indícios, de versões, sem comprovação dos fatos, se uma notícia não precisa ser comprovada por quem já possui as mesmas convicções, por que seria preciso que uma notícia, um fato fosse relatado por alguém que exista de verdade?

A estratégia não é nova, está apenas sendo aperfeiçoada. Para difundir notícias falsas, pós-verdades, os seus responsáveis já utilizavam páginas apócrifas na internet como meio de difusão do conteúdo. Sites supostamente jornalísticos são abertos sem expediente, sem um jornalista responsável, sem assinatura dos textos. A hospedagem dessas páginas normalmente ocorre fora do país onde atua, para dificultar uma investigação.

Notícias falsas, páginas apócrifas e as convicções dos leitores que se tornam mais importante que os fatos. O kit da pós-verdade ganha mais um ingrediente. O fake real, um personagem bem construído nas redes sociais, mais verossímil que perfis reais, que passa a ter uma vida na internet como se fosse um character de Second Life.

Profissionais da comunicação fazem campanhas para os leitores prestarem atenção na origem da fonte quando recebem uma notícia via internet. E se o autor da informação for um fake como Eduardo Martins?

Newsletter: a volta do e-mail como alternativa às redes sociais

Produção de conteúdo volta a uma ferramenta mais personalizada, distante do casos das redes sociais

Caixas para assinaturas estão de volta a capa dos sites

Mais de 20 mil assinantes mensais, com contas em sua maioria empresariais, que pagam U$ 8 mil por mês por cinco assinaturas. Os números são do serviço de notícias norte-americano PoliticoPro, lançado em 2010 que utiliza a newsletter para levar um conteúdo exclusivo ou em primeira mão para seus assinantes. A proposta, que já possui uma iniciativa semelhante no Brasil, abre uma tendência dos dois últimos anos para a produção de conteúdo: a volta do e-mail como alternativa às redes sociais.

O Politico surgiu em 2007 e a versão Pro (assinantes) em 2010. Segundo o brasileiro Poder 360, são cerca 3550 contas que atingem os 20 mil assinantes. Nem todos utilizam a conta de U$ 8 mil (alguns pagam mais), o que garante mais de U$ 28 milhões por mês a empresa, que possui 200 funcionários na operação, a maioria jornalistas.

O que leva as empresas a pagarem pelo produto? Um conteúdo exclusivo, especializado, enviado com antecedência para os assinantes em newsletters cujas informações trazidas são essenciais para a atividade das empresas (basicamente política e economia). A segmentação é uma tendência do conteúdo digital desde a criação da internet comercial, a novidade agora é o novo papel das newsletters, principalmente como contraponto às redes sociais.

As newsletters surgiram ainda nos anos 90, no início da internet comercial no Brasil e no mundo. Nos anos 2000 a popularização do “mail marketing” na web fez explodir os spams. A compra de listas de e-mails na internet fez com que as caixas de mensagens fossem lotadas de porcarias e com isso os servidores passaram filtrar o conteúdo com as caixas de spams e ou mesmo a criação de uma aba só para conteúdo comercial, como no Gmail.

O MailMarketing permaneceu no mercado, principalmente no e-commerce. Mas o conteúdo jornalístico acabou migrando para as redes sociais, inicialmente o twitter e depois para todas as outras redes. Porém, o excesso de informações nessas redes abriu a possibilidade para o retorno do e-mail, um local aonde o usuário consegue selecionar melhor o conteúdo que deseja ler com mais atenção.

“O que as newsletters fazem, e as redes sociais não, é devolver para o leitor o poder de escolher o que receber e ler. Do lado das empresas de mídia, ainda ajudam a entender melhor o comportamento e os interesses do usuário.
Assinantes de newsletter são, em regra, leitores mais leais e engajados, que querem se relacionar com as marcas e consumir seus conteúdos”, afirmou a gerente de mídias sociais e colunista da Zero Hora, Sabrina Passos, em uma coluna publicada no início do ano.

O próprio Facebook ajudou a potencializar as newsletters no ano passado, quando alterou seu algoritmo dando maior prioridade ao chamado conteúdo “friend-family”, isto é, postagens e fotos pessoais, reduzindo a visibilidade de postagens de páginas de empresas. Ao invés de pagar por anúncios na rede, muitos projetos de conteúdo optaram por mudar de estratégia na divulgação.

O Poder 360, projeto editorial do jornalista Fernando Rodrigues, também aposta no e-mail. O portal de notícias conta com publicidade e está aberto ao público (sem paywall), mas o foco é a ferramenta Drive, semelhante ao PoliticoPro, uma assinatura paga de uma newsletter focada em informações estratégicas da política nacional.

Sair do e-mail para que?

Tanto no Brasil quanto em Portugal, os principais jornais online já utilizam (ou sempre utilizaram) as newsletters, que aparecem cada vez com mais destaque na capa do site e com várias opções de assinaturas, personalizando a distribuição do conteúdo.

O destaque agora é para a criação de veículos exclusivos em newsletter ou com destaque principal, diminuindo a necessidade de audiência pelas redes sociais. O Manual do Usuário que é também um podcast, é um dos bons exemplos no Brasil, assim como o Canal Meio, que envia seu conteúdo apenas por e-mail (a página na internet é uma mera apresentação).

Jornalista e professor, Evandro de Assis lançou recentemente em Blumenau o “Fio“, um serviço semanal de notícias também focado na Newsletter, apesar de estar presente nas redes sociais e com o conteúdo disponível em um blog no Medium. A proposta do Fio é fazer um resumo do que está acontecendo na região de Blumenau numa leitura de cinco minutos, oferecendo também links para outros sites.

“A estratégia é mesmo não depender do Facebook. Por isso o conteúdo vai todo no email. O leitor não precisa acessar nosso site para ter acesso ao conteúdo”, comenta Evandro que afirma preferir mil inscritos a 100 mil acessos, já que garante uma maior fidelização.

Crise no Ads? A qualidade de volta no centro da pauta

A crise dos veículos de comunicação impressos continua no mundo. No começo do mês foi a vez da Gazeta do Povo, maior jornal parananese, apostar na internet tornando a edição impressa semanal (antes diária). Os mundiais New York Times e El País já se preparam para deixar suas edições no papel. Neste cenário, o maior desafio dos veículos digitais sempre foi a sustentabilidade, já que a publicidade possui outras plataformas para anunciar como as redes sociais, diminuindo o poder dos jornais. No entanto, um artigo recente do inglês The Times, também reproduzido no Wall Street Journal abriu um novo ponto de discussão na publicidade online: a qualidade do conteúdo versus a audiência.

O artigo mostrava vídeos extremistas publicados no YouTube com anúncios de grandes empresas. A lógica é simples: através da ferramenta de monetização da plataforma, o anunciante escolhe local, público e assuntos relacionados, mas não escolhe quais vídeos no YouTube aparecerão sua marca. Vídeos com conteúdo extremista, violentos ganham audiência justamente pela sua natureza. Com isso, indiretamente a grande empresa acaba anunciando o canal.

A repercussão do artigo foi enorme e várias empresas anunciaram o cancelamento de campanhas no YouTube, que decidiu reagir anunciando mudanças no programa de monetização. Além de obrigar o canal a ter pelo menos 10 mil visualizações, eles passarão por uma análise antes de começar a receber.

O caso despertou a ira de muitos youtubers brasileiros, que acusam o Wall Street Journal se lançar uma campanha contra o YouTube. Eles reclamam que a monetização sofreu uma drástica redução deste então, prejudicando os negócios.

Audiência x qualidade

A grande questão da internet em relação aos outros meios está justamente na sua forma de publicidade. O Google AdSense e o Facebook Ads têm a audiência como única métrica para avaliar um site ou um canal no YouTube. Fazem isso porque é um critério numérico, que pode ser feito por um computador. Não há como o algoritmo do Facebook, por exemplo, avaliar critérios éticos de um produto jornalístico.

Com a promessa de um anúncio mais preciso, especificando o público por idade, sexo e gostos (a partir de palavras-chaves), as ferramentas das redes sociais monopolizaram a publicidade digital. Mas agora o The Times e o Wall Street Journal apontaram claramente a falha: o risco de associar a marca das empresas com conteúdo de má qualidade.

Essa discussão no mercado publicitário é fundamental para os rumos da comunicação. É fundamental para a sociedade, para as democracias, que o jornalismo ético, responsável e de qualidade continue existindo. Para isso, ele precisa ser financiado, por leitores ou anunciantes.

Não há um caminho definido, uma fórmula pronta de como será os veículos de comunicação online das próximas décadas. Por isso, o debate agora é fundamental e uma pergunta continua em aberto: como medir a qualidade do conteúdo?

Publicidadade online: UOL questiona modelo do Google AdSense

Pós-verdade, fake news, sites de notícias falsas, crise nos veículos de comunicação. Alguns dos termos mais usados na comunicação em 2016 continuam em voga no ano de 2017. E o maior portal de conteúdo do Brasil resolveu se manifestar oficialmente contra o modelo consagrado do Google, o AdSense: anunciar na plataforma significa ajudar a financiar as fake news? Ou a culpa é somente do leitor?

O editorial do UOL, algo não muito comum na empresa, foi publicado na sexta-feira (31) com o seguinte título: É hora de repensar a publicidade online. O texto cita a decisão de anunciantes que não utilizar mais plataformas digitais para suas propagandas (ou então uma redução nesse investimento), uma referência a notícia que empresas norte-americanas como AT&T e Verizon decidiram cancelar campanhas no Google e YouTube para não ter a marca associada a vídeos e publicações extremistas.

Vem aí o ataque ao modelo AdSense. Diz o UOL: “alguns dos maiores anunciantes do mundo reduziram ou encerraram o investimento em algumas das principais plataformas de mídia digital. O motivo? Propaganda associada a conteúdos falsos ou ilegais. Pela impossibilidade de controlar o contexto de veiculação e pela falta de transparência nas métricas para mensuração das entregas e resultados. Entendemos que essas notícias sinalizam o início de um movimento importante do mercado“.

A associação é simples. Quando você anuncia no Google AdWords, você escolhe palavras-chave, ocorrências, regiões, mas não define quais sites dentro dessas palavras-chave vão usar o banner do Google internamente. Por exemplo: uma shopping center investe R$ 500 em Google AdWords e foca em uma cidade específica, com público variado. Um blog de notícias falsas da mesma cidade coloca um banner do AdSense e utiliza o nome do município constantemente na página. O anúncio do shopping acaba parando na página que, se tiver uma audiência muito grande, receberá dinheiro do Google. O empreendimento não apenas ficou com a imagem associada ao blog, como ajudou a financiá-lo.

O texto do UOL provoca em outras duas oportunidades: “…finalmente algumas empresas perceberam que colocam suas marcas em risco ao anunciar em páginas e vídeos sem se preocupar com o conteúdo ou contexto que está associado a elas…nos apresentamos como empresa confiável para audiência e anunciantes, uma alternativa segura, com alcance…com baixíssimo risco em associação com conteúdo indesejado, tráfego fraudulento ou discrepância entre o que é contratado e o que foi efetivamente veiculado, ainda mais se comparando com investimento em ‘mar aberto’, focado apenas nos dados de audiência…”.

O fuga dos anunciantes de jornais e portais de notícias para plataformas como Google e Facebook (que acabam ficando com a maior parte da receita) é um assunto discutido há alguns anos no jornalismo, comentado inclusive aqui neste blog. Agora, com os sites de notícias falsas em evidência, o UOL apresenta em um editorial, uma das estratégias dos veículos jornalísticos para recuperar esses anunciantes: a associação da marca com um produto de credibilidade.

Google AdSense é usado em sites de notícias falsas, mas também em de grande credibilidade como El País

Mas o que levou os anunciantes a deixarem os jornais e partirem para essas plataformas? Uma crise de credibilidade dos veículos ditos tradicionais? A facilidade de alcançar o público-alvo sempre foi visto como o principal. No Google e Facebook, você escolhe a idade, a região e outras palavras associadas, isto é, você consegue segmentar o público e ter resultados com maior exatidão. Mas tem mesmo?

Dificilmente o Google e o Facebook terão seus monopólios ameaçados em curto prazo, até porque, as empresas estudam formas de excluir os sites de notícias falsas do seu modelo. Mas a movimentação do UOL é interessante e pode trazer algum resultado. Para isso, o anunciante não poderá olhar apenas os números, mas também a imagem, aonde está estampada sua marca.

 

Como fazer jornalismo na web independente do Facebook?

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“Nós temos que, antes de acessar o Facebok ou outra rede social, entrar nos sites dos jornais e veículos de comunicação de credibilidade”. A frase é do jornalista Alexandre Brito, subeditor de Informação da emissora RTP de Portugal, dita durante o Congresso Internacional de Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM), promovido e sediado na Universidade da Beira Interior em Portugal.

A ideia de Brito era que o jornalismo deveria ter essa prioridade como uma meta, tanto para os profissionais quanto para o público. Hoje, é comum que o cidadão, ao acordar, tenha como um dos seus primeiros hábitos, ver o feed de uma rede social (Twitter e Facabook, principalmente).

Perguntei então, para o subeditor da RTP e para os outros jornalistas que participavam do debate: como convencer o público a acessar o site de um jornal primeiro se a maioria dos planos de celulares não descontam a franquia das redes sociais? Como convencer o cidadão a acessar o site do jornal se muitos portais trabalham com o Instant Articles, ou seja, com o conteúdo dentro do Facebook, sem descontar da franquia?

A partir desta pergunta, abri um debate (no próprio Facebook) que amplio aqui no blog: usar ou não o Instant Articles? É certo entregarmos o conteúdo que produzimos para a plataforma de Mark Zuckerberg em troca de likes e mais visualizações? O Facebook já é a maior rede social, se o público majoritariamente preferir ler textos no Instant Articles (por ser mais rápido de abrir, sem custos adicionais, etc), vamos aceitar que a rede social controle todo o fluxo de notícias do mundo? É seguro deixar na mão do algoritmo?

A discussão é pertinente pois no momento o Facebook anuncia que pretende combater os sites que difundem notícias falsas usando as redes sociais. São páginas que não possuem credibilidade, mas que ganham relevância no algoritmo da rede social. O Face foi acusado de acabar ajudando na eleição de Trump, pois vários sites souberam usar o algoritmo para espalhar notícias falsas em prol do candidato republicano.

Diego Queiroz Andrade, um dos editores do diário português Público, participou do debate e afirmou que a desinformação causada nas redes sociais podem não terem sido tão decisivas no caso das eleições americanas, mas foi fundamental no referendo inglês que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Já Alexandre Brito entende que o jornalismo errou no passado, não soube acompanhar as novas tecnologias e hoje paga por isso, no caso, vê uma rede social cada vez mais forte controlando as informações no mundo.

A dependência dos jornais com o Facebook é tanta hoje, que segundo Andrade, alguns veículos portugueses chegam a ter 80% do tráfego com origem na rede social. Ou seja, uma mudança no algoritmo de visualização na timeline dos usuários pode derrubar toda a audiência do jornal na web.

Afinal, o jornalismo online é hoje dependente do Facebook? Como um veículo na web, que produz conteúdo para mobile, pode ser independente da rede social, tornando ela apenas uma ferramenta de divulgação? Ou jogamos a toalha e esperamos o movimento do público nos próximos anos?

A imprensa local e as novas mídias: como fazer a sustentabilidade?

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Até o NYT abandonou um APP. Imagina os jornais locais

A Universidade da Beira Interior em Portugal promove nesta terça-feira (22) e quarta-feira (23) o Congresso Internacional de Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM). E logo nas primeiras comunicações científicas o modelo de negócio para os veículos de comunicação entrou na pauta: há uma necessidade/obrigatoriedade de os jornais impressos acompanharem as transformações tecnológicas, hoje focadas nos dispositivos móveis, mas ainda há dúvidas de como ganhar dinheiro com isso, principalmente longe das grandes metrópoles.

Se de um lado, a doutoranda em Comunicação pela USP Isadora Ortiz de Camargo apresentou o caso do New York Times, onde a mobilidade tornou-se uma peça chave no modelo de negócios da publicação, a professora da UFRGS Vivian Batochio e o professor Pedro Jerónimo da Instituto Superior Miguel Torga (Portugal) mostraram o conservadorismo de grandes jornais brasileiros e da imprensa de interior portuguesa com os dispositivos móveis.

Na imprensa portuguesa do interior, há pouca familiaridade dos veículos com os dispositivos móveis e as novas tecnologias. Segundo Jerómino, os poucos casos são iniciativas isoladas dos próprios jornalistas, que acabam fazendo sem receber a mais por isso, pois não há incentivo dos proprietários.

Com uma análise dos APPs dos jornais brasileiros para smartphones e tablets, a professora Vivian Batochio apontou a falta de inovação nos veículos nacionais. A maioria dos APPs para visualizar a edição imprensa trazem apenas a reprodução do produto em papel, sem nenhuma recurso a mais.

Até mesmo no New York Times, jornal que segundo a apresentação da pesquisadora Isadora Ortiz de Camargo é um case de sucesso na mobilidade, um aplicativo desenvolvido há dois anos pelo grupo chamado “NYT Now”, destinado ao público mais jovem, foi “descontinuado” por falta de retorno financeiro. Era um APP com mensalidade, algo que não deu certo.

Por que os jornais inovam tão pouco?

Há muitas respostas que podem ser dadas, mas a sustentabilidade dos veículos é um fator que precisa ser destacado. Afinal, como se ganha dinheiro com uma mídia em tempos de mobile? Fazer como nos meios impressos que viviam de anúncios não é, definitivamente, o caminho. A venda de publicidades não avançou na web, algo já comentado aqui neste blog. Com a maioria do público se informando através de smartphones e por redes sociais, ficou mais difícil ainda.

Como convencer, então, um dono de um jornal local, que ainda mantém uma receita de anúncios da forma tradicional no impresso, ainda que em queda, que ele precisa inovar para se manter no futuro? Vale a pena pensar em crowdfundings em mídias locais? Como seria este engajamento?

Como sobreviverão as mídias locais no futuro?

 

 

É hora de falarmos sobre os comentários

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A partir de agosto, o maior jornal do Brasil vai restringir a sessão de comentários no seu portal de notícias na internet. Apenas assinantes poderão comentar as matérias e não poderão ser usados apelidos para identificação: aparecerá o nome do assinante junto com o comentário. A decisão da Folha pode ser vista como radical no primeiro momento, mas é uma triste consequência e uma medida de proteção a selvageria que se tornaram as sessões de comentários dos sites e também nas redes sociais nos últimos anos.

A internet permitiu uma revolução na liberdade de expressão, quebrando o monopólio da emissão de informação, antes reservado aos veículos constituídos. O espaço de expressão do cidadão, antes espremido na área de artigos dos jornais ou em momento de abertura e enquetes de rádios e TV, ganhou novas proporções com a rede. Mais do que interagir diretamente com o veículo, comentando, analisando, rebatendo as informações publicadas, qualquer cidadão passou a ter o direito de ser dono do seu próprio veículo, seja com um blog ou mesmo com um perfil nas rede sociais.

O ônus dessa revolução na liberdade de expressão, como não poderia deixar de ser, é o uso indevido, irresponsável dessa liberdade. Em uma sociedade deseducada, onde o ensino é estritamente técnico e a formação cidadã é deixada de lado, as pessoas ainda não sabem o poder que as redes sociais, os espaços de comentários possuem e acabam escrevendo nele como se fossem conversas reservadas a conhecidos.

O resultado é assustador: mensagens de intolerância, preconceito, ameaças e uma cultura de ódio se prolifera como um a epidemia pela internet. Escondidos atrás de perfis falsos ou mesmo sem o conhecimento que podem ser responsabilizados judicialmente pelo que escrevem, odiadores pregam a barbárie principalmente quando o assunto envolve polícia ou política.

A bárbarie dos comentários de portais de notícias já fez o jornalista e professor Leonardo Sakamoto fechar a sessão de comentários. As ameças contra o jornalista, que é doutor em Direitos Humanos, saíram da internet e começaram a ocorrer fora, levando o autor a refletir sobre isso no livro “O que aprendi sendo xingado na internet”. O assunto também inspiração literária. O escritor Bernardo Carvalho traçou um perfil dos “comentárias de portais” no romance “Reprodução’, lançado em 2013.

Estamos chegando a mais um processo eleitoral, talvez no auge das redes sociais no país como o Facebook. A criação de perfis falsos para denegrir a imagem de adversários será, infelizmente, uma estratégia utilizada em todo o país. Além dos fakes, existem aqueles que se sujeitam a fazer o serviço sujo mostrando a cara, transformando o seu perfil na rede social em um verdadeiro bunker de guerra.

A decisão da Folha de São Paulo, há dois meses das eleições, é um alerta. A previsão é que a baixaria se intensifique nas próximas semanas e o jornal não pretende ser o palco dessa guerra seja que não interessa a ninguém.

Enquanto os jornais se protegem da guerra, é preciso começar a repensar a participação pública nos veículos digitais. A sessão de comentários em baixo de cada notícia precisa ser discutida. Ela realmente é um espaço de interação com os leitores? Possui alguma utilidade? Hoje qualquer cidadão pode se expressar montando um blog ou um perfil no Facebook, Twitter. Será preciso mesmo o espaço de comentários em baixo das notícias? E até quando vamos confundir liberdade de expressão com discurso de ódio?

Sobre ética, publicidade e dependência dos jornais

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Folha de São Paulo demite vários jornalistas. Estadão faz limpa na redação. Passaralho na Editora Abril. Notícias de demissões de jornalistas e redução de equipes de redação são cada vez mais frequentes nos dias de hoje. A crise nos jornais impressos não é apenas brasileira, mas anda apavorando os profissionais do setor com os estragos, principalmente no eixo Rio-São Paulo. Mas por que os jornais estão em crise? Por que ser jornalista não é uma boa opção? O mercado editorial conseguirá se recuperar?

Não, não vai. Mesmo que a economia cresça no país, mesmo que os jornalistas tenham sindicatos fortes em todos os estados, aquelas redações gigantes dos jornalões não existirão mais. Por que? Porque a fonte de sustentação dos veículos é a publicidade. E a cada dia de passa, o mercado publicitário se interessa menos pelos jornais.

Com o dinheiro que uma empresa gastava para colocar um anúncio de uma página na Folha de São Paulo, por exemplo, o departamento de marketing investe em publicidade no Google, no Facebook e em outras ferramentas digitais, com um resultado bem melhor. Sim, o Google e o Facebook são adversários do jornalismo na hora de repartir a grana da publicidade, e muito mais atrativos. Para começar porque atinge diretamente o público alvo. Em segundo, porque os jornais impressos possuem cada vez menos leitores. Alguém conhece um adolescente de 13 anos que se interessa por impresso? Pois esse será o consumidor alvo dos próximos anos…

A regra é essa: o jornal depende da publicidade para sobreviver e as empresas gastarão cada vez menos com publicidade em jornais. Sobreviverão os veículos locais, cuja a relação com a cidade onde atuam vai muito além da informação. Os jornalões continuarão, mas com equipes bem mais enxutas que as de hoje.

MAS POR QUE OS JORNAIS DEPENDEM DA PUBLICIDADE?

Por que os veículos erraram lá no começo. Partindo do princípio que a informação é um serviço que se compra, podemos concluir que as empresas de comunicação cobram um preço MUITO BAIXO PELO PRODUTO QUE DESENVOLVEM. A participação das assinaturas e vendas em banca no orçamento de uma empresa é irrisório. Em muitos casos, o jornal é distribuído gratuitamente, ou seja, NÓS DEPRECIAMOS O PRODUTO JORNAL.

Acostumamos os leitores em décadas que a informação é algo “baratinho”, quase de graça. Com a internet, convencemos ele que é bobagem pagar pela informação. Tudo isso porque sobrevivíamos com a verba da publicidade, que agora não gosta tanto da gente como no passado.

Alguns jornalões como a Folha estão tentando reverter essa situação. O paywall no site é uma tentativa de valorizar o produto jornalismo. O cidadão pagaria para ter um produto diferenciado, de qualidade. Os jornais tentam aprender com serviços online como Netflix e Spotify, exemplos bem sucedidos com número alto de assinantes por um produto que não é físico, mas possui qualidade. O problema é que acostumamos demais o público a não pagar (ou pagar pouco) pelas notícias.

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ÉTICA, CREDIBILIDADE E DEPENDÊNCIA

A grande moeda do jornalismo é a credibilidade. Sem ela, é impossível fazer com que o cidadão vá pagar por uma notícia (seja por compra avulsa ou assinatura). E os jornais impressos vivem uma crise de credibilidade. Por que? Porque viveram da publicidade, seja ela empresarial ou estatal, venderam uma imparcialidade que não existe e na internet 3.0 são diariamente questionados.

Existe imparcialidade num jornal que depende da publicidade?Claro que não! Um veículo desses pode ser ético? Depende o que se entende por ética. Admitir que é sustentado por empresas ou estatais e que não irá bater de frente com seus anunciantes seria ético, mas jogaria o mito da imparcialidade no lixo.

E os blogs e sites que surgiram nos últimos anos com posicionamento político claro? É ético um portal de notícias que vive de verbas de um governo fazer um jornalismo parcial para a legenda que o sustenta? Qual a diferença desses sites para os veículos tradicionais, sustentados por grandes empresas que têm seu lado na política?

O jornalismo precisará se reinventar nos próximos anos. Quem não fizer isso irá sumir do mapa. É possível ver dois caminhos: o independente, que buscará recursos juntos aos leitores, cobrando pelos seus serviços e o dependente, que viverá da publicidade ou de apoio de grupos aliados, mas que precisará ser honesto na sua parcialidade.

 

 

O Grupo RBS e o fim do jornal impresso no país

Não tem jeito. O jornal impresso está em decadência e deve deixar de existir ou tornar-se irrelevante na próxima década. A cada dia que passa, diminui o número de pessoas que procuram os impressos para se informar. Isso porque a geração adulta atual é de um tempo em que o jornal fazia parte do nosso dia-dia. A nova geração, nascida na internet, não demonstra interesse nenhum. E logo logo eles serão o principal público consumidor de informação.

O que aconteceu com os jornais do Grupo RBS nesta terça-feira (5) é mais uma prova do fim do jornal impresso. As três publicações no Estado (Jornal de Santa Catarina, Diário Catarinense e A Notícia) tiveram mudanças no projeto gráfico e editorial. É praticamente o mesmo jornal que circula em Blumenau, Florianópolis e Joinville, mudando uma matéria ou outra, os colunistas e tal.

Junto com as mudanças desta terça, vieram 130 demissões que, segundo a carta enviada pelo presidente do grupo, não é por causa de uma crise financeira mas um redesenhamento. Pergunta: os diretores da RBS acham que demissão é um esporte? Claro que não. A empresa pode ter grana no caixa, mas sabe que o interesse pelo jornal irá diminuir e, consequentemente, os anúncios vão cair. Então, já começaram a enxugar as redações.

O novo projeto dos jornais matou as tradicionais editorias: Geral, Política, Economia. Eles se dividem no caderno A em Notícias, Sua Vida e Esportes. O lazer se chama Anexo e o caderno do final de semana se chama Donna. O Santa desta terça-feira entra para a história. Pela primeira vez, vejo um jornal sem matéria de política, sem um colunista LOCAL de política. Essa editoria foi literalmente para “as cucuias”.

A RBS, como qualquer outra empresa de comunicação, percebeu que o interesse pelos jornais cai a cada dia. E diferente de outros jornalões do eixo, que não abrem mão do tradicionalismo, os gaúchos decidiram inovar. E deu medo. Se é esse o futuro do jornal impresso no Brasil, o caso é preocupante…

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O Museu Oscar Niemeyer em Curitiba está com uma exposição bacana sobre os princípios do fotojornalismo no Brasil a partir da revista O Cruzeiro. São fotos e edições históricas que marcaram o semanário nos anos 40 e 50. Vale a visita. O público viaja no tempo para ver um tipo de jornalismo que está desaparecendo a cada dia do Brasil por falta de leitores.

Novo Terra: os portais na era das redes sociais

O Portal Terra lançou no começo de abril, seu novo projeto de layout e arquitetura da informação. Muito mais do que fazer um visual novo, o site do grupo Telefónica foi vanguarda e lançou uma tendência que deverá dominar o mercado de jornalismo online nos próximos anos. A nova plataforma é uma fusão dos portais de notícia como conhecemos hoje com as redes sociais e os aplicativos móveis.

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A barra em cima lembra a de uma rede social. Menu com o ícone universal, barra de pesquisa e a possibilidade de personalização. A foto do seu perfil, arredondada, lembra muito a do Google+.

A distribuição das chamadas e também da publicidade lembram muito a home do Windows 8, com caixas que vão se modelando. A capa do Google+ e as galerias de fotos do Flickr também seguem esse padrão, agora adotado pelo Terra.

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Os menus das editorias dos portais começaram no lado esquerdo. Depois, foram para o lado direito seguindo o modelo Wodpress e hoje, estão em sua maioria na parte superior, após o cabeçalho com a logomarca do site. O Terra abandonou tudo isso e fez o menu igual nas redes sociais. Um botão só que, após clicar, abre a lista.

Esse formato é usado nos dispositivos móveis, tanto em aplicativos, como em sites responsivos. O Terra criou um padrão que ele fica igual independente do aparelho a qual está acessando.

O fato de disponibilizar um perfil do internauta, ligando com Facebook e Google+, permite que o Terra personalize a capa de acordo com aquilo que você mais se interessa. Aqui entra o estilo google de filtro de conteúdo. E funciona. Bastou eu entrar com o meu perfil que começaram a surgir notícias de Santa Catarina na capa.

Segundo o próprio Terra, a nova plataforma permite mais de 100 milhões de páginas iniciais distintas por dia, garantindo a personalização automática do internauta.

Esse novo formato vai embaralhar ainda mais o jornalismo tradicional. Em 2008, eu trabalhava no ClicRBS como editor de Capa, isto é, ficava o dia inteiro garimpando tudo que é conteúdo produzido pelo Grupo RBS na internet e colocando na capa do site versão Santa Catarina. O trabalho era importante, pois o jornalista tinha a responsabilidade de escolher o que o usuário viria na frente, algo que os editores executivos fazem nos jornais. Escolher o que é mais importante.

A plataforma do Terra joga parte desse trabalho no lixo. Ainda há o papel do jornalista dizer o que é conteúdo importante, passível de entrar em uma das 10 milhões de capa por dia. Mas ele não decide mais isso sozinho. Cada internauta é o seu próprio editor.

Por isso, o novo Terra é mais uma paulada no jornalismo tradicional que atua na internet, que já tinha apanhado com a chegada do Brasil Post, a versão brasileira do Huffington Post. O novo portal associado ao Grupo Abril possui 300 blogs como base do conteúdo, horizontalizando a linha editorial.

A comunicação online está mudando e mudando drasticamente. Quem não for esperto, vai chorar depois dizendo que não há mais espaço para o jornalismo na internet. Há sim, mas é outra coisa!