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Palavras Pitorescas
Crônicas e contos do cotidiano chulo, por Giovanni Ramos. Página Inicial | Sobre o autor

Colonia: da não publicação ao guia turístico

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Tivemos momentos tão bons que não batemos nenhuma foto. O Terêncio Horto do André Dahmer disse isso, mas muita gente já pensou igual. Sendo assim, diria que minha viagem para Colonia foi ruim, pois tirei muitas fotos e até fiz uns videos. Mas começo essa crónica por outro ângulo: a publicação das fotos.

Estava com a ideia de publicar as fotos nos stories e salvar como destaques. Alguém que eu não lembro quem disse para mim que é melhor publicar tudo de uma só vez quando as fotos estão interligadas. Então resolvi fazer isso e fiquei um bom tempo passeando na Alemanha sem me manifestar nas redes sociais.

“Tu tás na Alemanha? Há quanto tempo?? Tu não falastes nada!”- Não foi uma pessoa apenas que disse-me coisas do gênero. Estamos tão acostumados a contar novas vidas nas redes sociais, sobretudo quando fazemos coisas legais como viajar, que quando ficamos em silêncio, todo mundo estranha. Perguntaram se estava tudo bem comigo e tal.

E a quarta maior cidade da Alemanha, a maior do Estado Renânia do Norte-Vestfália, é bonita e interessante. Havia escutado opiniões extremamente opostas antes de vir pra cá. Optei pelo meio termo: um lugar bonito, legal, com cerveja boa, mas não está nas melhores viagens do mundo.

O povo aqui foi bastante simpático, a maioria fala bem inglès e até a mulher da padaria se esforçou para falar comigo, mesmo avisando de cara que não falava inglês. Uma Alemanha moderna, boêmia, divertida, cosmopolita e receptiva, muito diferente daquelas regiões do Brasil que se julgam a Alemanha sem passaporte.

A cerveja deles é a Kolsch, um tipo de lager mais frutada, que deve cair muito melhor no verão do que no inverno. Para um apreciador de inglesas, até que a cerveja alemã é um tanto interessante. Leve, mas diferente das cervejas tradicionais de Munique e de outras lagers tradicionais.

Não aluguei bicicleta porque fiquei pouco tempo e um dos dias choveu, mas deu vontade. Todo mundo aqui pedala. Há ciclovias por todos os lados e tudo é muito bem sinalizado. Outra coisa que queria fazer e não fiz foi ir ao Museu Romano-Germânico, em reforma. A região foi controlada pelo Império Romano e depois foi uma cidade importante do Sacro Império Romano-Germânico. Além de algumas influências romanas, percebi como eles gostam de pizza. Há pizzarias por todos os lados, apesar de ouvir que isso é assim na Alemanha toda.

E como não poderia deixar de acontecer, quando estava na Estação Ferroviária rumo ao Aeroporto (onde estou agora, no momento que escrevo esta crônica), um cidadão oriental me parou na estação e perguntou, arranhando no inglês, onde ficava o banheiro. Respondi em inglês que não era da cidade.

Não há uma cidade que visito nesse mundo que não sou parado por um turista perguntando informações locais. Ria muito dessa situação quando morava no Brasil, mas agora chega a assustar. Não importa onde eu vou, sempre tem um desavisado achando que eu sou morador local. Ou então, devo ter cara de guia turístico.

Verdade que os lugares que visitei no mundo são países ocidentais (América do Sul e Europa). Verdade que não fico andando com câmeras fotográficas, ando rápido, coisas que talvez façam eu não parecer um turista. Mas desconfio que se um dia eu for a China, haverá uma cidadão de outra parte do mundo que vai me parar e pedir informações…

Por fim, digo que Colonia é um lugar interessante e que a Alemanha pode ser visitada mesmo no inverno. Aliás, a temperatura aqui não estava muito diferente do interior de Portugal.

As flores de plástico

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Chatinho. Foi assim que uma guria referiu-me quando comentava sobre gostos musicais. Eu era o chato que reclama que quase tudo que toca por aí. E é verdade. Eu sou a pessoa mais seletiva e implicante com a música. Tenho um leque musical extremamente limitado, com sérias dificuldades de sair da minha bolha.

E olha que eu sou uma pessoa muito ligada a música. Com oito anos, fiz cursos de violão. Parei porque era uma criança que queria fazer muitas coisas ao mesmo tempo e…mentira. Parei porque era ruim, mesmo.

Parei de tocar violão, mas nunca consegui largar a música. Desde a infância prefiro ficar ouvindo música a ver filmes, por exemplo. Fico horas em uma playlist, no repeat, transcendendo enquanto o som toca a alma.

Comigo há sempre uma trilha sonora. Os fones de ouvido me acompanham, o walkman, o discman, o mp3 player, winamp, o celular com Spotify. Aonde quer que eu vá, alguma trilha sonora me acompanha. Por isso, há sempre frases, trechos musicais a serem citados nas conversas.

Isso tudo acontece por uma paixão. Uma paixão que completou 30 anos esse ano, não sei exatamente em qual mês. Uma paixão que começou com um riff de guitarra em 1989, quando era uma criança precoce. Uma criança que desde os cinco anos deixou de ouvir “músicas infantis” para ouvir aquilo que os irmãos mais velhos ouviam.

A criança musicalmente precoce pegou as influências musicais dos irmãos até criar seu próprio estilo. Mas foi condenada a permanecer para sempre no início dos anos 90, quando começou a entender o que era música.

Era necessário fazer uma crônica sobre o rock and roll. São 30 anos de devoção a um estilo musical. Uma ligação tão forte que me dificulta escutar outros estilos. Dentro do universo rock, vou de Legião Urbana a Sepultura, de Beatles a Slipknot, de Led Zeppelin a Offspring. Não há um padrão, não há uma regra, mas tudo que tenha o mínimo do espírito rock and roll.

Não sei o que seria de mim sem o rock. Não sei o que seria de mim se não fosse aquele riff de guitarra entrar na minha cabeça em 1989. Meus irmãos lembram de Rock and Roll do Led e Rockway Beach do Ramones como músicas que adorava ouvir quando criança. É verdade, mas a memória mais antiga que tenho musicalmente é daquele riff.

Aliás, são poucas as memórias antes do riff. Tem uma de desenhos de bandeiras em um bar, mas isso é para outra crônica. O riff foi algo muito marcante. Foram as notas iniciais de uma vida de fidelidade ao rock and roll.

Quem convive comigo sabe o quanto gosto de Faith no More, de System of a Down, de Offspring, de Queens of the Stone Age. Sabe que irei a Lisboa ver o Faith no More mais uma vez em 2020. Sabe que gosto de passar horas ouvindo música, falando sobre música, lendo sobre música. Sabe que eu não presto atenção nas pessoas que passam nas ruas porque estou concentrado nos fones de ouvido.

E tudo isso começou há 30 anos. Antes que 2019 acabasse, precisava registrar isso. Tudo começou com aquele riff.

Eu, a Elsa e os guarda-chuvas verdes

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Eu sou o maior doador de fones de ouvido e sombrinha do Ocidente. Tão generoso que minhas doações são feitas de forma involuntária, automática. Não há ninguém no novo e no velho mundo que perdeu mais fones de ouvido e sombrinhas que eu.

Fones de ouvido, em tese, são menos importantes no dia-dia. Menos importantes para os outros. Eu, que criei um Museu de Fones Perdidos, sofro quando viajo sem música ou podcast. Mas a crônica de hoje é sobre guarda-chuvas e a maldita Elsa.

Sim, eu odeio guarda-chuvas. Deveria gostar, já que venho de Blumenau. Talvez, se fosse de Joinville eu tivesse um affair com este importante acessório. Se fosse de Joinville, no entanto, teria mudado para Braga e não Covilhã quando escolhi as terras lusíadas. Braga, como dizem os portugueses, é o penico de Portugal.

Detesto andar com guarda-chuva. Detesto lembrar de pegar eles na hora de ir embora. Por isso vivo deixando eles por aí. Houve uma vez, em Blumenau, que decidi investir numa coisa dessas. Fui a uma loja e comprei um guarda-chuva novo, grande, bonito, verde. Parecia algo que iria durar muito tempo em minhas mãos. Aguentaria todo a primavera blumenauense.

Que nada! Na primeira semana fui a um restaurante e alguém levou antes de eu terminar o almoço. Lembro: era um guarda-chuva verde, vistoso, difícil de ser confundido. Não havia nenhum outro verde naquele restaurante. Fui roubado a luz do dia, no centro da cidade.

Muitos anos se passaram e novamente estava eu em uma loja para comprar um guarda-chuva. A previsão era de uma semana de chuva intensa nas montanhas, era o momento de pagar mais por um guarda-chuva bom. Lá fui eu, bom, vistoso, verde, inconfundível.

Eis que a Elsa aparece na crônica. Não a do Frozen e sim a tempestade agressiva que atingiu a península. Saí de casa tranquilamente, seguro, com o vistoso guarda-chuva verde. Mas na hora de volta…bastou 20 segundos de ventania (violentíssima, por sinal) para destruir o acessório por dentro.

Até consegui chegar em casa com ele. Mas com ele todo destruído. Um guarda-chuva bonito, vistoso, verde, sem mundial. Posso culpar a Elsa, que continua tocando o terror na janela da sala, mas a verdade é que eu não nasci para ter guarda-chuvas….

O acrobata de Toulouse

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A chuva caia…fina, fria e eterna. Já era o quinto décimo dia seguido sem a presença do sol. Tão fina que não era possível de ouvir, o que ressaltava o silêncio no circo. O clima era de desânimo, pois um circo sem plateia nada é. Chegava a hora de mudar, pois não havia mais futuro por ali.

A tenda se abriu e ela saiu. Com a cabeça baixa escondida no capuz, em silêncio, saiu discreta, saiu como se nunca tivesse entrado. Caminhou passos e passos debaixo da chuva rumo a rodoviária. Era a hora de voltar para casa após uma noite trágica.

Puxou o celular e avisou a amiga que havia se repetido. Precisava de palavras de conforto ao ver sua vida em ciclos. Antes de partir, jurou nunca mais aconteceria. Jurou de dedos não cruzados, pois já sabia seu destino.

O acrobata acordou e a chuva continuava. Foi avisado que o circo partiria em 10 dias, mas a sua missão agora era outra. Vistiu sua T-shit, bermuda e foi descalço a rodoviária para encontrá-la.

FOTO: Didier Descouens/Wikipedia

Havia preparado tudo. Um passeio pelas ruas, entradas em museus, restaurantes simples, mas perfeitos para um primeiro encontro. Ele sabia que não deveria estar fazendo isso. Sabia que estava a infringir regras, mas naquele momento nada mais importava.

A reconheceu saindo do ônibus. O cabelo, os óculos, os olhares. Era ela. Finalmente a encontraria. Descalço e mal vestido no frio, foi um verdadeiro gentleman. A beijou no rosto, trocou palavras em francês e português e a conduziu pela cidade.

Era a primeira viagem dela à França. Sabia poucas palavras em francês e ousou falar inglês aonde o idioma de Shakespeare é proibido. Ainda sim conseguiu tudo que queria. Encontrou com ele, conversaram, tiveram uma noite de amor antes da tragédia acontecer.

O acrobata estava apaixonado. Trocaram olhares, entrelaçaram dedos. Sentiu sua respiração mais funda. Como Fernando Pessoa, soube bem olhar para ela, mas não soube lhe falar.

Ele queria se entregar. Entregava seu corpo, sua alma, sua vida. Viveu aquele dia como se fosse o último…

continua….

Diálogos

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Já declarei meu amor às palavras neste blog de crônicas. Escrever é uma espécie de orgasmo intelectual. Palavras surgem nem fazer sentido e depois você encontra algum para elas. Palavras não são más, palavras não são quentes, palavras são iguais sendo diferentes, já diria Arnaldo Antunes.

Há quem diga que escreva somente para si. Jamais. Seja uma crônica, uma poesia, um artigo ou até mesmo um texão para alguma rede social, não existe texto sem leitor. Sem o leitor, as palavras desaparecem, perdem o sentido. Todo texto é escrito para ser lido por alguém, nem que este alguém seja o próprio escritor.

Palavras precisam de leitores ou de ouvintes. Palavras ganham formas sob olhares e ouvidos. Mas há algo que torna a palavra ainda mais forte – a palavra do outro.

Sim, esta crônica não é sobre a escrita. É sobre diálogos. É sobre dialética, a troca de mensagens, sejam elas verbais ou escritas. Todo escritor quer ser lido, mas também quer ser respondido. Aquele que diz que escreve sem desejar uma reposta, não escreve para os leitores, escreve para si mesmo.

As redes sociais derem microfone para todos comentarem tudo. Qualquer mensagem registrada vai ter não apenas um leitor, mas uma resposta. Há quem veja nisso um grande problema. Eu vejo uma evolução.

Não se pode dizer mais nada que sempre tem alguém reclamando, muito dizem. Na verdade, as reclamações, as respostas, sempre existiam. O autor é que não sabia delas. Tem gente que prefere não escrever, não comentar, não falar mais nada com medo da resposta. Melhor assim. Uma mensagem que não possa ter uma contradição não faz sentido, é uma mera pregação.

As redes sociais provam que a sociedade possui dificuldades para dialogar. Sim, as pessoas achavam que conversavam, mas na verdade falavam ignorando o receptor. No caos das redes sociais, você é obrigado a dialogar sempre que abre a boca, sempre que escreve um texto.

Dialogar é ruim? Dialogar é a melhor coisa do mundo. Talvez tenha que me declarar suspeito, pois sempre fui um tagarela. Mas a essência da vida é o diálogo. A troca de palavras, seja ela por voz ou texto, nos faz melhor como ser humano, nos traz a felicidade, o bom humor.

Sempre fui contra relacionamentos onde os casais pouco falavam. Se você tem dificuldades de conversar com ela, pule fora. Os amigos também. Até os inimigos. Se você não consegue enfrentá-lo em uma disputa retórica, ele não é digno de ser seu rival.

Dialogar para aprender, dialogar para convencer, dialogar para conquistar, dialogar para esquecer seus problemas, para solucionar conflitos, fazer as pazes, declarar guerra. É o diálogo que valoriza o silêncio, que muitas vezes dialoga mais que muitas palavras.

Dialogamos o tempo todo, até quando paramos de falar ou escrever. Deve-se aprimorar, tornar o diálogo melhor, um diálogo para abrir portas, fazer avançar coisas, fatos e ideias.

Olhe nos olhos da outra pessoa e responda. Termine de ler esta crônica e responda…

Um roteiro de Kevin Smith…

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Um bom nome para a série…

Um bar fuleiro! É…não refiro-me àqueles bares gourmet travestidos de simples que pipocam pelo Brasil. Aquele locais de elite com nome de “boteco”. Até porque boteco de verdade não chame-se boteco. Falo de locais simples, com preços simples. O verdadeiro boteco é aquele com cerveja barata. Cervejas artesanais são boas, mas é outra história…

Bar fuleiro, cerveja barata, uma jukebox mais aleatoria que o Ronaldinho Gaúcho e um grupo de pessoas na mesa a conversar. Pessoas com mais de 30 anos, que quando tinham 20 se imaginavam estar em um lugar seguro, com um emprego fixo, estudos avançados, talvez um carro e com prestações do apartamento no início de todo mês. E claro: família.

Com exceção dos estudos, não existe nada disso. As pessoas tem mais de 30 anos e continuam ferradas. Latino americanos sem dinheiro no banco, estudando doutorado e procurando formas de pagar as contas. O glamour acadêmico esvaiu-se. Sobrou as leituras e os prazos para entregar artigos.

Em meio a conversa, frases interessantes surgem em meio a discussões sobre relacionamentos, carreira e o governo Bolsonaro (sim, o governo Bolsonaro sempre aparece, todos querem falar mal dele). Mas voltamos para as frases: a razão desta crônica. São frases muito boas, desde pérolas românticas publicadas nos stories até novos conceitos sobre qualquer coisa.

De onde surgem essas frases? Quem são essas pessoas? Existem mesmo? Que diabos de cidade é essa onde os pichadores são românticos e/ou tarados? Isto aqui é realmente uma vida ou é uma dessas séries que se passa na televisão/internet?

Vejamos: os personagens a volta são bem construídos. Não há ninguém parecido: cada um muito peculiar, com uma história muito bem trabalhada. As situações são pitorescas e todas elas são contadas no bar, onde cada personagem tem o seu momento. De uma hora para outra, todos vão embora, e eles chegaram assim. Isso não pode ser real.

Pergunto-me quem está no roteiro dessa história? Quem é o roteirista deste seriado da Netflix? Não deve ser Tarantino, porque o local é muito pacífico. Não é o Shyamalan, pois por mais que o local seja um tanto estranho, as coisas bizarras não ocorrem com os protagonistas. Nem os irmãos Coen e os irmãos Nolan, porque a história não é tão complexa.

Suspeito que essa história esteja nas mãos de Kevin Smith, o roteirista de Dogma e Procura-se Amy. Diálogos intermináveis, muitas referências de filmes, músicas e livros e um cotidiano sendo contado de uma forma diferente, que torna interessante. Também suspeitei de Jerry Sienfied, mas essa série não é tão humor assim…

Neste roteiro de Kevin Smith, um jornalista e pesquisador continua buscando novos projetos e sonhando com novos países, sempre referenciando a vida com letras de músicas.

A série até que é boa. A trilha sonora melhor ainda. E é muito melhor ser escrito pelo Kevin Smith que pelo roteirista da série Brasil 2019…

Minha Miss Lexotan

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Eu tenho asco a remédios. Na verdade, eu tenho medo de remédios, por isso finjo que tenho asco. Coloco o manto do nojo por cima de muitas coisas que tenho medo. Eu sou daqueles que fica com dor de cabeça para não tomar dipirona. E nunca tenho remédios em casa, na mochila, quando alguém precisa, alguém me pede.

Também não sou daqueles que vive nos chás. No máximo, um chá de camomila, que assim como o café nos dias mais cansativos, já não faz mais aquele efeito de outrora. Não conheço os caminhos da cura, não sei muito o que fazer quando estou mal.

Esta é uma crônica sobre remédios? Ou sobre aquela música do Júpiter Maçã? E vou recomeçar essa história falando de algo que já escrevi por aqui: sobre o meu caso com o Mar. Nasci há 50 quilômetros do Atlântico e fui praticamente criado a beira mar. Mesmo branco demais, mesmo sobre a sombra, eu sempre apreciei o oceano e sua calmaria que me traz. Gosto de praia no verão, no inverno, em qualquer momento, em qualquer situação.

E quando você vai morar muito longe do mar, a 700 metros de altura, no pé de uma Serra, o mar torna-se ainda mais significativo. Até mesmo um rio pode ser. Água, eu preciso de água para me acalmar. E quando você vai ao encontro do rio que vai ao encontro do mar, tudo fica perfeito. O encontro do Douro com o Atlântico, observada pela Invicta e pela curiosa Vila Nova de Gaia. A região do Porto me fascina!

Esta crônica é então, sobre o mar? Sobre o por do sol entre Porto e Vila Nova de Gaia? Sobre as belezas de Matosinhos? Ainda não. Esta crônica é sobre viajar. Sobre tirar uns dias para deixar o mundo de lado e viver em uma realidade paralela, onde os problemas desaparecem, onde a carga se desmancha. Libertar-se do cansaço mental e permitir-se o cansaço físico, por horas e horas de intermináveis caminhadas. Momentos longe do computador, longe desse teclado, longe de tudo.

Assim como escrever, viajar é a minha terapia, é o meu remédio, é a minha Miss Lexotan. Viver na ansiedade é viver no futuro e isso não há como mudar. Se o futuro é uma viagem, o foco aumenta, a concentração aumenta, o tempo passa mais rápido, o corpo trabalha mais,  a mente vai a exaustão. De distraído, impaciente e indeciso, continuo confuso, mas tranquilo e contente. A definição de paixão de Renato Russo se encaixa quando viajo.

Viajar para qualquer lugar, qualquer destino, qualquer valor. É a minha droga, o meu tratamento. Escrevo para desabafar, viajo para me desligar. Eu preciso me mexer para me acalmar. Eu só preciso ir por aí….

Ninguém deixa as montanhas

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Covilhã não sabe brincar. Não sabe, mesmo. Quando é frio, é frio de renguear cusco, como diriam os gaúchos. Quando esquenta, nem o diabo aguenta. Há basicamente duas estações: VSF, que frio e VSF que calor. Todos temos corriqueiramente um sonho de uma noite de meia estação, que ocorre em poucos dias no ano.

Chuva? Covilhã também é uma espécie de Joselito. Se é para chover, fica uma semana, duas, um mês. Quando vem o período de seca, passamos até quatro meses em uma mísera gota. É preciso de uma bacia cheia de água no lado da cama ou uma toalha molhada na ponta para conseguir dormir. No inverno você se esconde, no verão você sofre para respirar.

Covilhã gosta mesmo de extremos. Como disse meu pai, aqui você nunca anda reto, ou está subindo ou descendo. A cidade é, de fato, um amontoado de ladeiras no pé de uma serra onde está o ponto mais alto de Portugal. Andar de bicicleta por aqui é um teste para os fortes. E quando os elevadores param de funcionar, todos são obrigados a fazer exercícios físicos.

Sim, elevadores. É tanta ladeira que são precisos elevadores públicos pela cidade para as pessoas poderem chegar aos seus destinos sem passar mal. É um lugar pequeno, montanhoso, com um clima bizarro e poucas oportunidades de emprego. Poderíamos afirmar até que ela é uma cidade de passagem, de pessoas que vem, estudam na universidade e vão embora.

Só que não. O que este mero observador do cotidiano chulo percebeu nos últimos meses é que ninguém consegue deixar Covilhã. O amontado de ladeiras escondido atrás da Serra da Estrela possui uma espécie de magnetismo que prende as pessoas aqui. Elas tentam ir embora, mas acabam ficando mais um pouco, emendam um mestrado, um doutoramento. Elas até vão embora, mas voltam sempre aos finais de semana.

São inúmeras as histórias de pessoas que, quando estavam por cá, gritavam para o mundo que queriam ir embora. E depois, a saudade os consumiu de tal forma que muitos voltaram. Outros, além-mar, se organizam para voltar a terrinha do tempo doidão. Histórias de brasileiros, espanhóis, angolanos e até mesmo de portugueses de outras regiões, encantados por uma terra sem saber as suas razões.

As paisagens que este conjunto de morros proporciona deveria ser a razão mais óbvia. De fato, muitas vezes basta abrir a janela do quarto para apreciar a Covilhã e a Serra da Estrela. Mas ainda duvido que seja só isso. Deve existir algum feitiço, algum ritual feito nos fundos de uma fábrica abandonada que faz com que as pessoas não consigam deixar a cidade…principalmente aqueles estudante que falavam mal quando chegaram. Ou talvez seja uma praga rogada nos tempos medievais, quando as montanhas ainda ostentavam um castelo.

O fato é que o mistério permanece. Na semana que se inicia com a publicação dessa crônica, centenas de estudantes chegarão pela primeira vez ao pé da Serra da Estrela. O ritual deve se repetir: falarão mal, reclamarão do tempo, da falta de opções…e nunca mais conseguirão se desligar daqui….

 

 

Em um relacionamento tóxico com Blumenau

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Blumenau, 168 anos. As timelines das minhas redes sociais estão inundas de belas imagens da capital do Vale. Declarações de amor, relatos de momentos passados surgem de simples moradores, de cidadãos participantes da sociedade, de candidatos a deputado.  Um script padrão para o aniversário de uma cidade.

E eu? O que vou escrever sobre esta cidade? Vou colocar uma imagem bonita (tenho várias) e dizer que estou com saudades? Mas estou mesmo? Será que eu queria estar na cidade como queria no final de semana do Colmeia? A verdade é que tenho um relacionamento tóxico com Blumenau. Continuo a gostar dela, mesmo sabendo que isso me faz mal.

É um relacionamento tóxico porque já deveria ter terminado. Ora, estou há dois anos em Portugal, tentando emplacar um doutorado, feliz em viver escondido atrás das montanhas da Serra da Estrela. Me adaptei ao clima (tá, o verão não), ao ritmo mais lento de uma cidade pequena, novamente adaptado ao ambiente acadêmico também.

Mas não adianta. De longe, continuo acompanhando o que se passa na terrinha de origem. E não é somente porque a família e os amigos estão lá. Do alto das montanhas, vibro com o título do Metropolitano na segunda divisão catarinense, me preocupo quando o nível do Itajaí-Açu sobe (sei o cota de enchente da rua que morava), faço lives sobre a política local.

Continuo, de uma certa forma, preso a cidade sabendo de todos os seus defeitos, todos os seus problemas, todas as suas controvérsias: a cidade onde bares são proibidos de colocar mesas nas ruas, onde o transporte coletivo é desprezado, a cidade número um de Santa Catarina em número de favelas, que esconde seus problemas atrás dos morros. A cidade onde uma meia dúzia se acha dono de tudo, onde a inveja impera e quem tem iniciativas ousadas e empreendedoras sofre com processos, com críticas absurdas.

Semana passada eu disse que me senti realmente fora da cidade quando deixei de ir numa edição do Colmeia. O bom clima por aqui ajuda muito a romper com esses grilhões, mas acho difícil ficar longe de uma cidade que tanto respirei, atuei, participei, de alguma forma ajude a fazer.

Preciso deixar esse relacionamento tóxico com Blumenau. Mesmo com a ida no fim do ano pra lá e com a indecisão sobre 2019. Talvez precise de um novo amor (de cidade), algo que ainda não rolou com as ladeiras da Serra da Estrela.

Continuarei em frente aqui, com a saudade que nunca vai conseguir me deixar em paz. Parabéns, Blumenau.

Eu deixei a minha terra

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Alguns podem achar que esta crônica está dois anos atrasada, período em que estou fora do Brasil. De fato, são dois anos que troquei a chuva, o trânsito e a correria de Blumenau pelo frio, vento e a tranquilidade, ora assustadora, de Covilhã. Mas escrevo esta crônica hoje por ser um dia especial. Desprendi-me de mais um grilhão que enraizava em Blumenau: o Colmeia.

O Colmeia nunca foi apenas um evento cultural. Não se tratava apenas de ir ao Teatro, assistir shows, peças, filmes, conhecer as novas exposições. Ir para o Colmeia significa justificar a minha presença e o meu amor pela cidade. Não ia para apreciar as artes, ia para respirá-las, vive-las.

Por muitas vezes, considerei-me um artista frustrado: frustrado no violão quando criança, frustrado no teatro posteriormente, frustrado nas palavras atualmente. Sempre procurei a arte para me compreender, busquei no meu talento, busquei em mulheres com quem saí, nas reportagens que escrevi, numa busca eterna pelo meu espaço junto ao mundo artístico.

O Colmeia ajudou a me encontrar. A união de tantas artes, tantos artistas, tantos mundos, me fez entender que desejo a arte de forma ubíqua. Não quero apenas fazer, ou apreciar, ou reportar, eu quero tudo e tudo ao mesmo tempo.

A existência do Colmeia fez as minhas pazes com as artes. E ao mesmo tempo me prendia em Blumenau. Ora, como viver em um outro mundo a qual eu não pudesse estar imerso às artes? Por que trocar de lugar e abrir mão de tantas coisas que me fazem tão bem?

Hoje tem Colmeia, hoje eu não vou. Hoje eu estou distante e tenho até dificuldades para ver o Cidade Plural que criei cobrir ele. Não me arrependo de trocar a chuva pelo frio, o Vale pelas Montanhas. Iniciei uma mudança de rota e ela ainda não acabou. Estou feliz e motivado onde estou.

Mas hoje, só hoje, apenas hoje, queria estar em Blumenau. Impossibilitado, sinto que uma âncora se foi, um grilhão foi quebrado. Hoje eu saí, deixei a minha terra. Uma tristeza necessária…

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