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Palavras Pitorescas
Crônicas e contos do cotidiano chulo, por Giovanni Ramos. Página Inicial | Sobre o autor

Minha Miss Lexotan

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Eu tenho asco a remédios. Na verdade, eu tenho medo de remédios, por isso finjo que tenho asco. Coloco o manto do nojo por cima de muitas coisas que tenho medo. Eu sou daqueles que fica com dor de cabeça para não tomar dipirona. E nunca tenho remédios em casa, na mochila, quando alguém precisa, alguém me pede.

Também não sou daqueles que vive nos chás. No máximo, um chá de camomila, que assim como o café nos dias mais cansativos, já não faz mais aquele efeito de outrora. Não conheço os caminhos da cura, não sei muito o que fazer quando estou mal.

Esta é uma crônica sobre remédios? Ou sobre aquela música do Júpiter Maçã? E vou recomeçar essa história falando de algo que já escrevi por aqui: sobre o meu caso com o Mar. Nasci há 50 quilômetros do Atlântico e fui praticamente criado a beira mar. Mesmo branco demais, mesmo sobre a sombra, eu sempre apreciei o oceano e sua calmaria que me traz. Gosto de praia no verão, no inverno, em qualquer momento, em qualquer situação.

E quando você vai morar muito longe do mar, a 700 metros de altura, no pé de uma Serra, o mar torna-se ainda mais significativo. Até mesmo um rio pode ser. Água, eu preciso de água para me acalmar. E quando você vai ao encontro do rio que vai ao encontro do mar, tudo fica perfeito. O encontro do Douro com o Atlântico, observada pela Invicta e pela curiosa Vila Nova de Gaia. A região do Porto me fascina!

Esta crônica é então, sobre o mar? Sobre o por do sol entre Porto e Vila Nova de Gaia? Sobre as belezas de Matosinhos? Ainda não. Esta crônica é sobre viajar. Sobre tirar uns dias para deixar o mundo de lado e viver em uma realidade paralela, onde os problemas desaparecem, onde a carga se desmancha. Libertar-se do cansaço mental e permitir-se o cansaço físico, por horas e horas de intermináveis caminhadas. Momentos longe do computador, longe desse teclado, longe de tudo.

Assim como escrever, viajar é a minha terapia, é o meu remédio, é a minha Miss Lexotan. Viver na ansiedade é viver no futuro e isso não há como mudar. Se o futuro é uma viagem, o foco aumenta, a concentração aumenta, o tempo passa mais rápido, o corpo trabalha mais,  a mente vai a exaustão. De distraído, impaciente e indeciso, continuo confuso, mas tranquilo e contente. A definição de paixão de Renato Russo se encaixa quando viajo.

Viajar para qualquer lugar, qualquer destino, qualquer valor. É a minha droga, o meu tratamento. Escrevo para desabafar, viajo para me desligar. Eu preciso me mexer para me acalmar. Eu só preciso ir por aí….

Ninguém deixa as montanhas

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Covilhã não sabe brincar. Não sabe, mesmo. Quando é frio, é frio de renguear cusco, como diriam os gaúchos. Quando esquenta, nem o diabo aguenta. Há basicamente duas estações: VSF, que frio e VSF que calor. Todos temos corriqueiramente um sonho de uma noite de meia estação, que ocorre em poucos dias no ano.

Chuva? Covilhã também é uma espécie de Joselito. Se é para chover, fica uma semana, duas, um mês. Quando vem o período de seca, passamos até quatro meses em uma mísera gota. É preciso de uma bacia cheia de água no lado da cama ou uma toalha molhada na ponta para conseguir dormir. No inverno você se esconde, no verão você sofre para respirar.

Covilhã gosta mesmo de extremos. Como disse meu pai, aqui você nunca anda reto, ou está subindo ou descendo. A cidade é, de fato, um amontoado de ladeiras no pé de uma serra onde está o ponto mais alto de Portugal. Andar de bicicleta por aqui é um teste para os fortes. E quando os elevadores param de funcionar, todos são obrigados a fazer exercícios físicos.

Sim, elevadores. É tanta ladeira que são precisos elevadores públicos pela cidade para as pessoas poderem chegar aos seus destinos sem passar mal. É um lugar pequeno, montanhoso, com um clima bizarro e poucas oportunidades de emprego. Poderíamos afirmar até que ela é uma cidade de passagem, de pessoas que vem, estudam na universidade e vão embora.

Só que não. O que este mero observador do cotidiano chulo percebeu nos últimos meses é que ninguém consegue deixar Covilhã. O amontado de ladeiras escondido atrás da Serra da Estrela possui uma espécie de magnetismo que prende as pessoas aqui. Elas tentam ir embora, mas acabam ficando mais um pouco, emendam um mestrado, um doutoramento. Elas até vão embora, mas voltam sempre aos finais de semana.

São inúmeras as histórias de pessoas que, quando estavam por cá, gritavam para o mundo que queriam ir embora. E depois, a saudade os consumiu de tal forma que muitos voltaram. Outros, além-mar, se organizam para voltar a terrinha do tempo doidão. Histórias de brasileiros, espanhóis, angolanos e até mesmo de portugueses de outras regiões, encantados por uma terra sem saber as suas razões.

As paisagens que este conjunto de morros proporciona deveria ser a razão mais óbvia. De fato, muitas vezes basta abrir a janela do quarto para apreciar a Covilhã e a Serra da Estrela. Mas ainda duvido que seja só isso. Deve existir algum feitiço, algum ritual feito nos fundos de uma fábrica abandonada que faz com que as pessoas não consigam deixar a cidade…principalmente aqueles estudante que falavam mal quando chegaram. Ou talvez seja uma praga rogada nos tempos medievais, quando as montanhas ainda ostentavam um castelo.

O fato é que o mistério permanece. Na semana que se inicia com a publicação dessa crônica, centenas de estudantes chegarão pela primeira vez ao pé da Serra da Estrela. O ritual deve se repetir: falarão mal, reclamarão do tempo, da falta de opções…e nunca mais conseguirão se desligar daqui….

 

 

Em um relacionamento tóxico com Blumenau

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Blumenau, 168 anos. As timelines das minhas redes sociais estão inundas de belas imagens da capital do Vale. Declarações de amor, relatos de momentos passados surgem de simples moradores, de cidadãos participantes da sociedade, de candidatos a deputado.  Um script padrão para o aniversário de uma cidade.

E eu? O que vou escrever sobre esta cidade? Vou colocar uma imagem bonita (tenho várias) e dizer que estou com saudades? Mas estou mesmo? Será que eu queria estar na cidade como queria no final de semana do Colmeia? A verdade é que tenho um relacionamento tóxico com Blumenau. Continuo a gostar dela, mesmo sabendo que isso me faz mal.

É um relacionamento tóxico porque já deveria ter terminado. Ora, estou há dois anos em Portugal, tentando emplacar um doutorado, feliz em viver escondido atrás das montanhas da Serra da Estrela. Me adaptei ao clima (tá, o verão não), ao ritmo mais lento de uma cidade pequena, novamente adaptado ao ambiente acadêmico também.

Mas não adianta. De longe, continuo acompanhando o que se passa na terrinha de origem. E não é somente porque a família e os amigos estão lá. Do alto das montanhas, vibro com o título do Metropolitano na segunda divisão catarinense, me preocupo quando o nível do Itajaí-Açu sobe (sei o cota de enchente da rua que morava), faço lives sobre a política local.

Continuo, de uma certa forma, preso a cidade sabendo de todos os seus defeitos, todos os seus problemas, todas as suas controvérsias: a cidade onde bares são proibidos de colocar mesas nas ruas, onde o transporte coletivo é desprezado, a cidade número um de Santa Catarina em número de favelas, que esconde seus problemas atrás dos morros. A cidade onde uma meia dúzia se acha dono de tudo, onde a inveja impera e quem tem iniciativas ousadas e empreendedoras sofre com processos, com críticas absurdas.

Semana passada eu disse que me senti realmente fora da cidade quando deixei de ir numa edição do Colmeia. O bom clima por aqui ajuda muito a romper com esses grilhões, mas acho difícil ficar longe de uma cidade que tanto respirei, atuei, participei, de alguma forma ajude a fazer.

Preciso deixar esse relacionamento tóxico com Blumenau. Mesmo com a ida no fim do ano pra lá e com a indecisão sobre 2019. Talvez precise de um novo amor (de cidade), algo que ainda não rolou com as ladeiras da Serra da Estrela.

Continuarei em frente aqui, com a saudade que nunca vai conseguir me deixar em paz. Parabéns, Blumenau.

Eu deixei a minha terra

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Alguns podem achar que esta crônica está dois anos atrasada, período em que estou fora do Brasil. De fato, são dois anos que troquei a chuva, o trânsito e a correria de Blumenau pelo frio, vento e a tranquilidade, ora assustadora, de Covilhã. Mas escrevo esta crônica hoje por ser um dia especial. Desprendi-me de mais um grilhão que enraizava em Blumenau: o Colmeia.

O Colmeia nunca foi apenas um evento cultural. Não se tratava apenas de ir ao Teatro, assistir shows, peças, filmes, conhecer as novas exposições. Ir para o Colmeia significa justificar a minha presença e o meu amor pela cidade. Não ia para apreciar as artes, ia para respirá-las, vive-las.

Por muitas vezes, considerei-me um artista frustrado: frustrado no violão quando criança, frustrado no teatro posteriormente, frustrado nas palavras atualmente. Sempre procurei a arte para me compreender, busquei no meu talento, busquei em mulheres com quem saí, nas reportagens que escrevi, numa busca eterna pelo meu espaço junto ao mundo artístico.

O Colmeia ajudou a me encontrar. A união de tantas artes, tantos artistas, tantos mundos, me fez entender que desejo a arte de forma ubíqua. Não quero apenas fazer, ou apreciar, ou reportar, eu quero tudo e tudo ao mesmo tempo.

A existência do Colmeia fez as minhas pazes com as artes. E ao mesmo tempo me prendia em Blumenau. Ora, como viver em um outro mundo a qual eu não pudesse estar imerso às artes? Por que trocar de lugar e abrir mão de tantas coisas que me fazem tão bem?

Hoje tem Colmeia, hoje eu não vou. Hoje eu estou distante e tenho até dificuldades para ver o Cidade Plural que criei cobrir ele. Não me arrependo de trocar a chuva pelo frio, o Vale pelas Montanhas. Iniciei uma mudança de rota e ela ainda não acabou. Estou feliz e motivado onde estou.

Mas hoje, só hoje, apenas hoje, queria estar em Blumenau. Impossibilitado, sinto que uma âncora se foi, um grilhão foi quebrado. Hoje eu saí, deixei a minha terra. Uma tristeza necessária…

A ovelha-negra de humanas

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Eu poderia estar trabalhando, estudando, escrevendo artigos, mas estou aqui, a escrever mais uma crônica para esta bodega que estava mais abandonada que bares em Covilhã fora do período de aula. Volto a este bar que serve histórias para falar sobre as minhas desavenças com o povo de humanas. E é um caso especial, pois tecnicamente eu sou de humanas.

Sou formado em jornalismo e apaixonado por artes desde criança. Já tentei ser músico, ator de teatro e hoje ainda tento ser escritor. Sim, fracassei nos dois primeiros e caminho a passos largos para o terceiro.  E continuo a tentar. Sou boêmio e gosto de citar frases de livros e trechos de músicas nas conversas com amigos, nas cantadas com as gurias. Visito museus quando viajo e gosto de ficar parado por horas observando paisagens e locais.

Enfim, eu sempre me considerei um cara de humanas. Até que fui fazer algo bem humanas que é fazer testes de redes sociais: era uma para descobrir se você, de fato, faz parte deste seleto grupo. Você teria assinalar ao menos 15 coisas que costuma fazer entre 33 opções que seriam comum no povo de humanas. Assinalei somente 6. Fui chamado de “exatas”, cidadão dos números, fui expulso da sociedade miçangueira.

Pensei: eu sei fazer contas e não preciso de calculadora para operações básicas. Um monte de números não me assusta e me sentia a vontade fazendo reportagens do jornalismo econômico. Num trabalho de mestrado de Teoria da Cultura, o professor perguntou por que o meu artigo estava mais para Economia que a Cultura.

Se fosse só a proximidade com números. Minha dissertação ficou com um número de páginas abaixo da média. O orientador disse que meu texto era direto e objetivo e até a minha apresentação foi assim: levei menos tempo que podia para apresentar e fui tão direto nas respostas que minha banca foi provavelmente a mais rápida da história.

E para fechar o pacote: odeio signos. Minha única relação com os signos foi o desenho animado japonês Cavaleiros do Zodíaco, que via entre 1994 e 1996. O único astrólogo que eu lembre o nome é o Olavo de Carvalho (sim, aquele metido a filósofo).  Meu signo é cerveja com ascendente em IPA.

Confesso que no princípio me senti mal sendo excluído da sociedade de humanas. Mas hoje já admito o papel de ovelha-negra. Até conto para as pessoas que tive um 9.9 na média em Matemática no Terceirão. Sim, o colégio não quis me dar um 10. Talvez porque já sabiam que eu queria fazer jornalismo e não admitiam que alguém que fosse para esse curso tivesse nota máxima.

Hoje trabalho com o jornalismo, mas melhorando o layout de jornais online de interior. Continuo as pesquisas no jornalismo, mas sobre modelo de negócios. Voltei para o Cidade Plural, mas sem aquela proximidade com as artes. Essa bodega talvez seja meu canal direto com o mundo de humanas.

 

Crônica da Beira Baixa

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Entrou no comboio encharcado pela chuva que há meses não caia em Lisboa. O inverno acabava, mas o frio persistia naquela noite de março. Antes de guardar sua mala, retirou o laptop e buscou vídeos bestas na internet para se distrair.

Enquanto o comboio balançava lentamente em sua viagem interminável, o passageiro duelava internamente entre a insônia e a preguiça. A internet não colaborava, a noite escurecia as belas paisagens e o espresso da tarde impedia que o sono chegasse. O pouco sinal de WiFi era disputado pelo passageiro da frente, a velocidade diminuía, o tédio aumentava.

Foi quando ela chegou. Com tímido sorriso estampado em seu rosto, uma enorme mochila nas costas e um guarda-chuva verde já embalado, ela pediu para tirar a mala que estava no banco. Sim, ela jovem morena sentou ao seu lado e desde então, a viagem ganhou outro percurso.

O fone de ouvido continuou ligado, mas o volume abaixou. Concentrava-se na rua, já escura e nas músicas, mas era impossível não olhar para o lado. Para negar que direcionava seus olhos a ela, fingia ler notícias na internet. Foi quando ela perguntou:

– A internet está a funcionar?

– Um pouco ruim, mas sim – respondeu.

– Obrigada!

Ela aumentou o sorriso, levantou-se e tirou um notebook gigante da mochila. Aquelas máquinas parrudas, usadas por pessoas que usam para jogar ou trabalhar com coisas pesadas. O jovem largou de vez a sua internet passou a concentrar-se na guria que acabara de conhecer. Ficou curioso em saber o que ela faria, se acessaria para ver um filme, ouvir uma música ou assistir a sua rede social favorita. Talvez fosse possível descobrir o nome dela. Talvez fosse possível encontrar um assunto em comum para puxar um papo.

Nada disso! Ela abriu um programa estranho, abriu uma tela preta e começou a digitar uns códigos indecifráveis. Muitos códigos. Ignorou o colega de viagem e passou a se concentrar freneticamente nos códigos que digitava.

O jovem passageiro estranhou no começo, mas logo imaginou que se tratava de uma dessas estudantes de informática ou coisa parecida. Algo que ele, estudante de letras, jamais entenderia. Mas isso pouco importava: sua beleza, seu sorriso eram mais importantes que aquelas letras e aqueles números. Ele aguardava um brecha, um segundo de distração da moça para puxar um assunto. Talvez tentar entender o que ela estava fazendo, talvez não.

Mas quem disse que a moça abriu esta possibilidade? Ela estava tão fixada na tela, que o colega decidiu momentaneamente deixar seus planos de lado. Tentou que concentrar novamente no seu laptop, na sua internet, que agora deixava de funcionar.

Provavelmente estamos passando por um lugar sem sinal, pensou. Mas quando o trem parou em uma estação, o jovem passou a estranhar. O carregador também parou de funcionar. E sua bateria corria risco até chegar em casa.

Sem internet, o tempo passa mais devagar. Sem internet, os jovens perdem a noção do tempo. E cada segundo que passava offline e com a bateria a gastar, a angústia aumentava. E a moça do lado? Continuava concentrada, digitando códigos indecifráveis.

Se levantou para pegar um café na máquina que tinha dentro da carruagem. Sua única moeda de um euro entrou, mas a máquina parou de funcionar antes de apertar a opção do mocaccino. Sem internet, sem carregador, sem café. E a viagem estava na metade.

Voltou para o banco e a sua colega continua na mesma posição. Concentrada com os dedos nas teclas, de forma frenética, sem perceber as pessoas a sua volta. O jovem ficou com medo de falar com ela, interrompe-la, e ser agredido por isso. Desconectado, tentou concentrar-se na rua, na chuva que caia fora.

Entediado e sem café, o sono começava a dar as caras. As pálpebras se fechavam e o stress da viagem ficava para trás quando um barulho forte despertou todos no comboio. E quem acordou pouco viu o que aconteceu, pois as luzes se apagaram.

Um odor forte se espalhava pelo ar. O trem continuava a andar, mas o cheiro, a falta de luz, a chuva forte lá fora, eram ingredientes de algum problema maior com o comboio. Algumas pessoas se levantavam preocupadas, outras mantinham o silêncio. E o jovem começava a relacionar a falta de internet, de energia, o cheiro…tudo em uma conspiração só. E a moça? Continuava frenética na frente do computador.

O jovem percebeu que a situação havia saído da normalidade. Todos os problemas que estavam e poderiam ocorrer o assustavam, mas havia ali uma oportunidade única: avisar a moça que o trem estava com problemas. Ela estava tão concentrada que provavelmente não tinha percebido.

Ele tentou conversar com ela…em vão. Ela ignorou sua voz e sua mão que tentava avisa-la. Ele ficou ainda mais preocupado. O trem poderia parar de funcionar a qualquer hora, estava distante das cidade, ao lado de uma pessoa bem estranha.

O cheiro foi ficando mais forte e barulhos estranhos passaram a fazer parte da viagem. Era como se todos soubessem em logo o trem ia parar. A chuva fora, a falta de energia, tudo se somava para um filme de terror. Enquanto isso, a moça continuava.

O jovem já penava em trocar de lugar quando a moça parou de digitar. Fechou o laptop, colocou ele na mochila como se nada demais estivesse acontecido até aqui. Ignorou os barulhos, o mau cheiro. Olhou para o seu colega e disparou:

– Estou cansada. Vou dormir um pouco. Vai demorar a viagem ainda, não?

A calma da moça deixou o jovem assustado, sem reação. Ela simplesmente ignorou tudo que aconteceu e tirou uma soneca. Se quer percebeu que estava tudo escuro. E para ficar tudo mais confuso, depois que ela dormiu, o cheiro começou a diminuir. Os barulhos pararam e logo a luz voltou, assim como a internet.

Foram duas horas offline e o jovem aproveitou a volta do WiFi para se atualizar.  Olhou a previsão do tempo e procurou alguma notícia de problemas nos trens ou de uma tempestade maior na região por onde passou. Não encontrou nada demais. O clima de terror que passara continuava um mistério, assim como a moça bonita que repousava ao lado.

O destino final estava próximo. O jovem não pensava na hora de chegar em casa. Calculava 30 ou 40 minutos para sair do comboio. Eis que ela acordou novamente. E como se fosse se tivesse um déjà vu, ele viu ela peguntar da internet, pegar o notebook novamente e começar a digitar códigos.

E a internet saiu do ar de novo….

Caligrafias de um garrancho

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A palavra era Chesbrough, rabiscada rapidamente em uma anotação para a minha dissertação. No primeiro olhar após o rabisco, havia entendido, no segundo não conseguia mais decifrar. O garrancho era tão explícito que minha caligrafia mais parecia uma arte dadaísta que uma sequência de caracteres. Olhei e pensei:  existe alguém com a letra mais feia que eu?

Uma realidade que convivo desde a infância, quando os cadernos de caligrafia eram métodos de tortura para uma criança com problemas de coordenação motora. Palavras não são más, palavras não são quentes, mas podem ser terrivelmente representadas em folhas de papel.

As brincadeiras sobre escrever a mão e o passado distante, as ironias feitas à universidade onde estudo por ainda trabalhar com textos manuscritos, o orgulho de usar o Evernote e já ter feito matérias pelo celular, são todas miseráveis desculpas para esconder esse meu talento escrever prescrições médicas.

É um defeito que não me impede de ver a beleza de um texto escrito a mão. Principalmente se vier das mãos de um artista da caligrafia, mas todos os manuscritos, bonitos ou garranchos, possuem o seu valor. Uma arte milenar, um costume que jamais será perdido.

Escrever um texto a mão é uma forma raiz de expressar. Seja um bilhete, uma anotação na aula ou uma carta, uma prática social tão maravilhosa que até pessoas com garranchos como eu podem (ou puderam) participar.

O Xico Sá disse que uma carta de amor vale por mil nudes. Verdade que lamber um selo postal, ir até os correios e receber uma delas na sua casa tem um valor especial, quase um ritual. Mas o verdadeiro prazer da carta está em escrever ela.

Já escrevi cartas de amor, já recebi também. Tive a ousadia de escrever cartas de amor com a minha letra. É como alguém fazer uma serenata cantando extremamente mal. Entre boas histórias e desfeitas, fica a lembrança do tempo que conseguia entender o que escrevia.

Consciente da minha coordenação motora, continuo a escrever. Por trás dos teclados, mantém se a essência de uma boa história, de boas palavras. O Xico Sá se preocupa com a urgência pornográfica dos nudes, eu me preocupo com a sintetização das antigas cartas em redes sociais. Há até quem combata o textão do Facebook, que deveria ser incentivado. As pessoas devem escrever mais, usar mais as palavras, brincar com elas.

Vamos escrever mais. Vamos escrever cartas de amor, cartas de ódio, textões políticos, observações do cotidiano chulo, histórias mirabolantes. Vamos falar daquela mulher que você nunca mais encontrou após a noite no bar, dos pássaros que sobrevoavam o jardim ou da ansiedade daquilo que está por vir.

Não precisa ser artista para escrever. Esta crônica não passa de uma vontade que surgiu após ler uma escrita que derrubou as regras que criava para tornar a atualização desse blog mais difícil. Escrevo porque tive vontade, não é preciso uma razão maior.

Conversem entre vocês

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Chegou no bar pontualmente às 10 da noite. Sedento por uma IPA após um dia exaustivo no trabalho, sentou em uma mesa e chamou o garçom:

– Primeiramente, Fora Temer. Em segundo, o que o senhor deseja?

– Oi?

– Oi

– Não entendi.

– Como assim não entendeu?

– Ah, esquece. Me dá uma Capivara.

– Certo. Visse as notícias do dia?

– Qual delas?

– Estão querendo prender o ex-presidente.

– E daí?

– Olha, eu acho que independente de direita ou esquerda, se roubou, tem que ser preso.

– Cara, me traz a cerveja, por favor! Não quero discutir política, não.

– Isentão!

Apesar de resmungar no fim, o garçom trouxe a cerveja. E juntou vá deixou um cardápio.

– Ei, garçom! Isso aqui não é um cardápio. É um álbum de fotos de gatinhos.

– Sim, eles são da minha mulher. Fofos, né?

– Mas por que diabos tu deixou isso aqui?

– Para tu veres, ora!

– Mas eu não quero ver isso. Quero saber o que tem de comida, pô! Podes me buscar o cardápio?

– Sim, já estou trazendo.

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O cardápio veio. Ele escolheu o seu hamburguer favorito e o garçom foi embora levando o cardápio e o álbum de fotos, que acabou deixando em outra mesa, com outros clientes. Enquanto o esperava o lanche, foi abordado por um casal que estava na outra mesa.

– Ooooi. Queres ver o que a gente está comendo?

– Oi?? Porque?

– Olha só, que petisco bom!

– Por que vocês estão fazendo isso? Estou nem aí para o que vocês estão comendo!

– Que gente grossa está vindo para cá, não? – falou a mulher para o namorado.

—–

O hambúrguer chegou. Com muita fome, ele queria devorar rápido o lanche, mas foi interrompido por um sujeito de terno e gravata com uma bíblia na mão, que recém tinha chegado no bar.

– O senhor teria um momento? Vim aqui trazer a palavra do nosso senhor? – perguntou o religioso.

– Desculpa aí, eu não sou cristão – respondeu o cliente.

– Deve ser ateu esquerdista – comentou um sujeito em outra mesa.

– Petralha, provavelmente – emendou outro.

– Por acaso eu pedi a opinião de vocês? Quem vocês pensam que são? – se irritou o cliente com os outros no bar.

– Desculpe, não vou mais incomodá-lo – falou o religioso.

—-

Depois da perturbação do religioso, ele conseguiu acabar o lanche. E foi nessa hora que entrou seu amigo, que havia combinado para conversar. O sujeito chegou empolgado no bar, sentou-se na mesa, pediu uma cerveja e foi direto ao assunto com o amigo.

– Olha essa guria (mostrando uma foto no celular). Júlia, 27 anos. Sairias com ela?

– Ela bonita, mas eu só sei isso dela. Nem conheço…

– Ela é professora, gosta de MPB e de andar de bicicleta.

– Tá, ainda sim…sei lá.

– E essa aqui? Andressa, 30 anos, publicitária. Ela quer algo sério…

– Cara, eu não vou escolher mulher assim. Nem sei de onde tu tirou essas fotos.

– Deixa de ser besta, essas mulheres estão aqui no bar.

– Oi??? Elas estão aqui? Não é mais fácil ir ali e falar com elas?

– Se elas aceitarem…

– Oi?

– Cara. Sem enrolação. Queres sair com uma delas ou não? Sem perguntas, sim ou não?

– Eu prefiro conversar com as mulheres antes de decidir se já estou interessado ou não.

– Mas aí perde muito tempo, cara. Tem que ser mais prático, mais objetivo, saca?

A estranha conversa entre os amigos foi interrompida pelo garçom, que perguntou se ambos queriam mais cerveja. A discussão sobre como conversar com as mulheres foi deixada de lado momentaneamente para resolver uma questão mais urgente: tirar o garçom estranho que fica mostrando as fotos dos gatos de sua esposa dali de perto:

– Eu vou querer mais uma IPA

– Eu também, de meio litro.

– Ok, anotado o pedido de vocês.

– Ei, Garçom, podes me passar a senha do Wifi?

– Não tem WiFi aqui. Conversem entre vocês!

Nada combina com absinto

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A garoa estava fina, mas o calor permanecia. A calçada era larga, de cimento, e a rua estava deserta. António acordou em meio ao vômito. Sujo, jogado ao chão, tentava se levantar atordoado, com uma forte dor de cabeça e várias perguntas no ar: onde estou? Que dia é hoje? Que horas são? Como vim parar aqui? O que aconteceu ontem à noite?

Ele vestia a mesma roupa que trabalhou no dia anterior: camisa social azul marinho aberta, com uma malha por baixo e calça jeans. Olhou em volta e não reconheceu aonde estava. Um muro fechado de mais de dois metros atrás de si, uma estrada de barro, sem casas em volta. Uma coisa era certa: estava longe, muito longe de casa.

Em sua volta uma garrafa vazia de sangria, um revólver e o seu bloco de anotações aberto em uma página com um número de telefone escrito em uma bela grafia que ainda continha a frase “Nada combina com absinto”. Ao tocar no bloco de anotações, teve algumas lembranças da noite anterior.

– Não vou poder ir. Estou com uma baita pauta. Investigo um empresário golpista, montou vários negócios em Lisboa para roubar turistas. Restaurante, hotel, hostel, tudo que ele monta é para truques – comentou António com o amigo, entre um gole e outro de cerveja.

– Tu tá falando daquele novo restaurante que abriu no Cais? Tu sabes que o dono tem um boteco duas quadras acima? O tal World’s Bar…

– Vamos lá? Só dar uma passada, olhar o movimento. Dificilmente ele estará aqui, mas posso conseguir algumas informações novas

– Tu podes trabalhar bebendo? Já tomasse várias, hoje…

– Jornalista é jornalista o tempo todo. Vamos lá

António e o amigo foram até o bar do suspeito. Diferente das outras bodegas do Bairro Alto, o World’s Bar estava em uma casa inteiramente reformada. Tinha seguranças na porta e cobrada entrada. O amigo jogou meio copo de cerveja fora para poder entrar.

António pegou o telefone para ver as fotos. Não lembrava da noite anterior, mas se estava a investigar um caso, era certo que a câmera foi usada. Porém, o aparelho estava desligado, sem bateria. Sentou-se na rua e começou a procurar por informações novas no bloco de anotações. Afinal, estava em um local misterioso e sem contato com o mundo.

Começou a tentar lembrar do telefone, de quem poderia ter escrito o número. Outras lembranças vieram.

Nunca havia saído com uma mulher tão bonita. Morena de cabelos cacheados e olhos verdes, Júlia era encantadora e misteriosa. Trocaram olhares na pista dos World’s Bar, foram para um canto conversar e, entre um drink e outro, os lábios já estavam entrelaçados. Enquanto isso, o amigo tirava a paciência do garçom com a descrição de glórias e feitos pessoais que jamais aconteceram.

– O bar de vocês é ótimo. O dono está por aí? O meu amigo quer conhece-lo

– Ele não está aqui. Mas por que ele quer conhecer?

– Não é nada do que tu estás pensando, não. Meu amigo gosta de mulher. Ele quer é conhecer os negócios do dono desse bar.

A conversa entre o amigo e o garçom foi interrompida por António, que pediu mais duas doses de absinto. Era a quarta vez que ele fazia isso.

– Cuida! Tu já bebeste um monte de sangria. E nada combina com absinto – disse o amigo.

Ninguém passava na rua. António estava mal. O estômago continua a fazer barulhos que jamais tinha ouvido, a dor de cabeça era insuportável. Decidiu então, procurar o portão da única casa que tinha na rua. Antes, juntou o revólver, a garrafa de sangria e o bloco de anotações.

Tocou o interfone e com a voz rouca pediu ajuda. Disse que estava perdido e precisava de uma localização. A voz masculina no outro lado mandou esperar.

A porta para pedestres abriu. Um homem alto, forte, careca, de roupas pretas o reconheceu, mas a memória de António continuava ruim.

– Filho da puta! Tu vai morrer – gritou o homem, antes de dar um soco na boca de António. Com o jornalista no chão, o careca sacou uma pistola e ordenou – Tu tens cinco minutos para sair da minha vista ou vai levar bala. Eu já estou arrependido de não ter te matado ontem, vou te dar mais uma chance.

Com a boca suja de sangue, António se levantou. Mas antes de virar as costas e ir embora, agiu sem pensar. Sacou o revólver que tinha e deu um tiro no homem. O jornalista nunca tinha atirado na vida, se quer usado uma arma. Mas o primeiro disparo da vida foi com sorte e ele derrubou o cidadão com cara de segurança.

António começou a chorar. Há dois dias, era um profissional da paz, um defensor do diálogo, um cidadão pacato que se tornou um homicida. O portão estava aberto e ele conseguiu ver e reconhecer a casa aonde esteve na noite anterior.

– Festa particular? Isso é arriscado. Acho que devemos recusar – disse António ao amigo.

– Vai todo mundo que está nesse restaurante. Tu não disseste que ele rouba os clientes? Pois então, conversei com vários e todos saíram satisfeitos – respondeu o amigo.

– Deve ser tudo amigo dele. Nem sei porque estamos aqui. Já é tarde, os bares já fecharam, até esse restaurante de rico dele já fechou.

– Então convence a tua namoradinha. Ela é a mais empolgada, lembra?

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– Ô caralho, para de beber – disse o amigo.

– Foda-se! Tu me encheu o saco para vir, para festa, agora eu vou. E digo mais…CUIDAAAAAADO – gritou António.

Os dois estavam dentro de um carro em alta velocidade, deixando a cidade, quando viram um veículo sob fogo na rodovia, na direção do aeroporto. O amigo, que estava no volante por ser o menos embriagado, conseguiu desviar e evitar o acidente. Ambos estranharam como alguém pode dirigir com o carro pegando fogo, mas logo esqueceram do fato bizarro que presenciaram. António começou a ficar tonto e pediu para que o amigo fizesse uma pausa no meio da estrada.

– Nada combina com absinto – disse Júlia, que também estava embriagada.

António entrou na casa e começou a ter alguns flashes na noite passada. Sim, era uma festa. Uma festa de ricos, engravatados, regada a whisky e absinto. Lembrava de estar com Júlia, do amigo sem roupa no meio da festa. Lembrou de Júlia na porta da casa, com uma caneta e o seu bloco de anotações na mão:

– Eu vou ter que sair mesmo. Me liga qualquer coisa – afirmou ela antes de sair.

Atravessou a casa e chegou em uma grande sala onde um senhor de barba com um roupão dormia em uma poltrona. Quando o senhor acordou, o revólver de António já estava mirado para sua cabeça.

– Aonde eu estou. Quem é você? Como eu volto para casa? Cadê a Júlia? – gritou o jornalista.

– Calma, António. Não me reconheces? E os nossos brindes de ontem? Eu entendo. Estás de ressaca. Tomasse todas ontem, misturasse tudo. E nada combina com a absinto. Sabes por quê? Porque a gente começa a ter umas alucinações.

– Quem é você, filho da puta?

– Sou teu amigo, porra!

Sobre o tempo e a felicidade

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O nascer do sol em Covilhã

Tá acabando, né? Uma pergunta com muitos sentidos, usada para bem, mas que me fez um mal na hora. Ouvi por skype do meu pai, sobre o primeiro ano do meu mestrado.

A ficha caiu naquela hora, uma expressão pra lá de ultrapassada, aliás. Senti o tempo passando, a fila andando e a hora de voltar para a terrinha cada vez mais próxima. O desconforto tomou conta de mim: mas como assim, já está acabando? Foi ontem que eu pisei pela primeira vez nas montanhas de Covilhã e já é hora de dar tchau?

Foi como se esse quase um ano longe de casa tivesse corrido tão rápido a ponto de eu não ter aproveitado nada. Uma sensação estranha de trabalho incompleto, uma lista de coisas que deveria ter feito aparecia na minha frente. Um ano é pouco, eu não conheci Portugal o suficiente, não vivi o país, as histórias, o cotidiano de Covilhã e de outras cidades. É isso?

Depois da sensação ruim de ver o tempo passando, tentei raciocinar mais para colocar as coisas em ordem. E só piorou. Na verdade, não é um tchau, é um já volto, pois o mestrado ainda não acabou (e pode ter o doutorado em seguida). Eu volto para Covilhã e há uma boa possibilidade de ficar mais tempo, aí sim, até enjoar da cidadela.

Mas e depois disso? O que vem depois do mestrado? Falava com um amigo há uns meses para nos despedirmos bem das aulas tradicionais. Doutorado não tem isso…e depois acabou. Sala de aula só se for do outro lado da mesa. Ou seja, um ciclo acabou. E acabou mesmo.

Ter a sensação de um ciclo acabando com 33 anos não é algo legal. E agora? O que fazer? Aquela rotina do mestrado, a rotina da Covilhã, descendo e subindo ladeiras até a UBI, madrugadas na biblioteca, briga com o WiFi da universidade, tudo isso acabou. Nem posso invocar o Temer, porque não dá para manter isso aí, viu?

Tristeza? Não. A palavra é saudade. Uma saudade antecipada, coisa de ansioso, mesmo. Antes mesmo de voltar ao Brasil, eu já sinto saudades daqui. E uma parte minha continua lutando para adiar meu retorno a Temerlândia. Nada está descartado.

A saudade é um sentimento estranho. É triste, mas nos remete a felicidade. E esse é o ponto chave dessa crônica. O filósofo Clóvis de Barro Filho fala que “a felicidade é assim – um instante de vida que você gostaria de durasse um pouco mais, que não acabasse logo, que você gostaria de repetir”.

Se tenho saudades e um certo receio de voltar ao Brasil agora, mesmo sabendo que sou obrigado a voltar em poucos meses, é uma prova definitiva que valeu a pena toda essa loucura de estudar fora. Valeu a pena os meses de agonia e ansiedade para conseguir os recursos e receber o visto. E valerá a pena sofrer novamente para buscar formas de terminar o estudo (sim, não tenho garantias).

Tá acabando? Não. Está só começando…

 

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