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Fator 30

fator30

A mancha molhada na parte de trás da camisa social indica o começo do verão. E não adianta colocar uma camisa de malha por baixo. Aquela mancha escura, como se você estivesse mijado em suas próprias costas, irá existir, chamando a atenção na rua.

O verão só é bom para quem não trabalha ou para quem mora na praia. Aquele vento forte depois do almoço atingindo a varanda onde você está deitado em uma rede é maravilhoso. Fazer a chamada siesta após comer também é muito bom. Você vai dormir despreocupado e quando acorda, a missão é ir para a praia.

Na minha infância e adolescência eu passava boa parte do verão na praia, por isso, gostava da estação. Parte das férias escolares e todos os finais de semana eram na praia de Armação, onde eu seguia religiosamente os ritos: acordar, tomar café, praia, banho em casa, almoço, sesta, praia, banho em casa, janta, jogos. Era assim todos os dias no litoral catarinense.

Mas quando voltava para Blumenau, em fevereiro, no reinício das aulas, ninguém acreditava que eu passava a maior parte do tempo na praia. “Tu foi para a praia direto? Mentira! Tu estás todo branco”, diziam meus colegas de classe. E era verdade. Eu voltava mais branco do que no ano anterior.

A minha pele clara nunca foi favorável ao bronze. O máximo que eu conseguia pegar era uma cor vermelha, que depois de descascar, ficava branca novamente. Eu adorava ir à praia, adorava o sol, mas ficava sempre sob a sombra. Ou então, vestindo uma camisa, mas sempre com muito protetor solar.

Sofria bullying racial na escola no início dos anos. Era proibido ir para praia e voltar branco. Não se tratava de um orgulho da cor, era medo de me queimar, mesmo. Mas os meus colegas não entendiam.

Os anos se passaram e eu ainda gosto de praia. Pretendo morar numa, um dia. Nada é mais admirável que uma bela tarde de sol à beira-mar, acompanhada de uma boa cerveja. Mas continuo sob a sombra, por baixo do fator 30…

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