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Palavras Pitorescas
Crônicas e contos do cotidiano chulo, por Giovanni Ramos | Página Inicial

Não temos mais idade para essas coisas

O sol vem forte e eu escondo-me atrás de uma árvore. É preciso ficar mudando de lugar a toda hora para garantir que eu não me queime. Apesar do calor exagerado, a brisa que bate no alto das montanhas alivia. Nem é preciso ficar à espera de um sol menor, como disse o Jimmy.

No meio do jardim está ele. O mascote oficial, um grande, peludo e simpático cachorro. Não há um morador da Covilhã que não tenha brincado com ele alguma vez. Com uma bola na boca, ele encaminha em direção de alguns frequentadores do jardim. Com sua simpatia e educação, pede para quem alguém jogue a bola para ele buscar.

Alguns ignoram o cachorro, outros vão atrás. Duas meninas atendem aos desejos do animal e decidem brincar com ele. Jogam a bola para perto e lá vai o mascote, um senhor cachorro, adulto trabalhador, buscar a bola jogada pelas meninas. A cena repete-se, mas o desafio aumenta: elas jogam a bola para bem longe, na expectativa que o cachorro corresse para buscar.

O cachorro olha…olha…fica olhando a bola ir para muito longe…e decide sentar. Encarando as meninas que tentavam brincar com ele, enxerguei de trás da árvore o cachorro respondendo mentalmente para as meninas:

Valeu aí, mas…vou não…

Trocam as luzes, mantém-se o cenário. É sexta-feira e em tempos de pandemia os jovens covilhanenses refugiam-se no mesmo Jardim Público para compensar a falta de baladas. Caminho pelas ladeiras da Covilhã para fugir do sedentarismo, caminhadas que só é possível fazer a noite, pois a Covilhã não saber brincar de temperatura.

Após queimar calorias, é hora de repô-las- Conversas fiadas em um bar no Centro Histórico, decidimos em conjunto ir ao Jardim Público dar uma passada.

Quando cheguei às montanhas, o Jardim Público fascinava-me não pela estrutura, é uma simples praça no meio da cidade, mas pela beleza exuberante da Serra da Estrela que pode ser apreciada no local. Ficar à noite na praça sempre foi uma terapia para o verão.

Chegamos ao jardim e encontramos o espaço lotado. Diversos grupos conversando, algo normal, grupos que se fundiam com outros tornando aglomerados, música alta, álcool, fumo, já tinha gente dançando também. O jardim virou balada.

Sou convidado a ficar mais um tempo por ali. Fico pensando um tempo enquanto observo o set de gravação de Malhação a céu aberto. Penso, penso e respondo:

Valeu aí, mas…vou não…

Te entendo, cachorro mascote do jardim, não temos mais idade para essas coisas…

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