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Palavras Pitorescas
Crônicas e contos do cotidiano chulo, por Giovanni Ramos. Página Inicial | Sobre o autor

Ninguém deixa as montanhas

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Covilhã não sabe brincar. Não sabe, mesmo. Quando é frio, é frio de renguear cusco, como diriam os gaúchos. Quando esquenta, nem o diabo aguenta. Há basicamente duas estações: VSF, que frio e VSF que calor. Todos temos corriqueiramente um sonho de uma noite de meia estação, que ocorre em poucos dias no ano.

Chuva? Covilhã também é uma espécie de Joselito. Se é para chover, fica uma semana, duas, um mês. Quando vem o período de seca, passamos até quatro meses em uma mísera gota. É preciso de uma bacia cheia de água no lado da cama ou uma toalha molhada na ponta para conseguir dormir. No inverno você se esconde, no verão você sofre para respirar.

Covilhã gosta mesmo de extremos. Como disse meu pai, aqui você nunca anda reto, ou está subindo ou descendo. A cidade é, de fato, um amontoado de ladeiras no pé de uma serra onde está o ponto mais alto de Portugal. Andar de bicicleta por aqui é um teste para os fortes. E quando os elevadores param de funcionar, todos são obrigados a fazer exercícios físicos.

Sim, elevadores. É tanta ladeira que são precisos elevadores públicos pela cidade para as pessoas poderem chegar aos seus destinos sem passar mal. É um lugar pequeno, montanhoso, com um clima bizarro e poucas oportunidades de emprego. Poderíamos afirmar até que ela é uma cidade de passagem, de pessoas que vem, estudam na universidade e vão embora.

Só que não. O que este mero observador do cotidiano chulo percebeu nos últimos meses é que ninguém consegue deixar Covilhã. O amontado de ladeiras escondido atrás da Serra da Estrela possui uma espécie de magnetismo que prende as pessoas aqui. Elas tentam ir embora, mas acabam ficando mais um pouco, emendam um mestrado, um doutoramento. Elas até vão embora, mas voltam sempre aos finais de semana.

São inúmeras as histórias de pessoas que, quando estavam por cá, gritavam para o mundo que queriam ir embora. E depois, a saudade os consumiu de tal forma que muitos voltaram. Outros, além-mar, se organizam para voltar a terrinha do tempo doidão. Histórias de brasileiros, espanhóis, angolanos e até mesmo de portugueses de outras regiões, encantados por uma terra sem saber as suas razões.

As paisagens que este conjunto de morros proporciona deveria ser a razão mais óbvia. De fato, muitas vezes basta abrir a janela do quarto para apreciar a Covilhã e a Serra da Estrela. Mas ainda duvido que seja só isso. Deve existir algum feitiço, algum ritual feito nos fundos de uma fábrica abandonada que faz com que as pessoas não consigam deixar a cidade…principalmente aqueles estudante que falavam mal quando chegaram. Ou talvez seja uma praga rogada nos tempos medievais, quando as montanhas ainda ostentavam um castelo.

O fato é que o mistério permanece. Na semana que se inicia com a publicação dessa crônica, centenas de estudantes chegarão pela primeira vez ao pé da Serra da Estrela. O ritual deve se repetir: falarão mal, reclamarão do tempo, da falta de opções…e nunca mais conseguirão se desligar daqui….