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Palavras Pitorescas
Crônicas e contos do cotidiano chulo, por Giovanni Ramos. Página Inicial | Sobre o autor

O acrobata de Toulouse

A chuva caia…fina, fria e eterna. Já era o quinto décimo dia seguido sem a presença do sol. Tão fina que não era possível de ouvir, o que ressaltava o [ … ]

A chuva caia…fina, fria e eterna. Já era o quinto décimo dia seguido sem a presença do sol. Tão fina que não era possível de ouvir, o que ressaltava o silêncio no circo. O clima era de desânimo, pois um circo sem plateia nada é. Chegava a hora de mudar, pois não havia mais futuro por ali.

A tenda se abriu e ela saiu. Com a cabeça baixa escondida no capuz, em silêncio, saiu discreta, saiu como se nunca tivesse entrado. Caminhou passos e passos debaixo da chuva rumo a rodoviária. Era a hora de voltar para casa após uma noite trágica.

Puxou o celular e avisou a amiga que havia se repetido. Precisava de palavras de conforto ao ver sua vida em ciclos. Antes de partir, jurou nunca mais aconteceria. Jurou de dedos não cruzados, pois já sabia seu destino.

O acrobata acordou e a chuva continuava. Foi avisado que o circo partiria em 10 dias, mas a sua missão agora era outra. Vistiu sua T-shit, bermuda e foi descalço a rodoviária para encontrá-la.

FOTO: Didier Descouens/Wikipedia

Havia preparado tudo. Um passeio pelas ruas, entradas em museus, restaurantes simples, mas perfeitos para um primeiro encontro. Ele sabia que não deveria estar fazendo isso. Sabia que estava a infringir regras, mas naquele momento nada mais importava.

A reconheceu saindo do ônibus. O cabelo, os óculos, os olhares. Era ela. Finalmente a encontraria. Descalço e mal vestido no frio, foi um verdadeiro gentleman. A beijou no rosto, trocou palavras em francês e português e a conduziu pela cidade.

Era a primeira viagem dela à França. Sabia poucas palavras em francês e ousou falar inglês aonde o idioma de Shakespeare é proibido. Ainda sim conseguiu tudo que queria. Encontrou com ele, conversaram, tiveram uma noite de amor antes da tragédia acontecer.

O acrobata estava apaixonado. Trocaram olhares, entrelaçaram dedos. Sentiu sua respiração mais funda. Como Fernando Pessoa, soube bem olhar para ela, mas não soube lhe falar.

Ele queria se entregar. Entregava seu corpo, sua alma, sua vida. Viveu aquele dia como se fosse o último…

continua….