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Palavras Pitorescas
Crônicas e contos do cotidiano chulo, por Giovanni Ramos. Página Inicial | Sobre o autor

Sobre o tempo e a felicidade

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O nascer do sol em Covilhã

Tá acabando, né? Uma pergunta com muitos sentidos, usada para bem, mas que me fez um mal na hora. Ouvi por skype do meu pai, sobre o primeiro ano do meu mestrado.

A ficha caiu naquela hora, uma expressão pra lá de ultrapassada, aliás. Senti o tempo passando, a fila andando e a hora de voltar para a terrinha cada vez mais próxima. O desconforto tomou conta de mim: mas como assim, já está acabando? Foi ontem que eu pisei pela primeira vez nas montanhas de Covilhã e já é hora de dar tchau?

Foi como se esse quase um ano longe de casa tivesse corrido tão rápido a ponto de eu não ter aproveitado nada. Uma sensação estranha de trabalho incompleto, uma lista de coisas que deveria ter feito aparecia na minha frente. Um ano é pouco, eu não conheci Portugal o suficiente, não vivi o país, as histórias, o cotidiano de Covilhã e de outras cidades. É isso?

Depois da sensação ruim de ver o tempo passando, tentei raciocinar mais para colocar as coisas em ordem. E só piorou. Na verdade, não é um tchau, é um já volto, pois o mestrado ainda não acabou (e pode ter o doutorado em seguida). Eu volto para Covilhã e há uma boa possibilidade de ficar mais tempo, aí sim, até enjoar da cidadela.

Mas e depois disso? O que vem depois do mestrado? Falava com um amigo há uns meses para nos despedirmos bem das aulas tradicionais. Doutorado não tem isso…e depois acabou. Sala de aula só se for do outro lado da mesa. Ou seja, um ciclo acabou. E acabou mesmo.

Ter a sensação de um ciclo acabando com 33 anos não é algo legal. E agora? O que fazer? Aquela rotina do mestrado, a rotina da Covilhã, descendo e subindo ladeiras até a UBI, madrugadas na biblioteca, briga com o WiFi da universidade, tudo isso acabou. Nem posso invocar o Temer, porque não dá para manter isso aí, viu?

Tristeza? Não. A palavra é saudade. Uma saudade antecipada, coisa de ansioso, mesmo. Antes mesmo de voltar ao Brasil, eu já sinto saudades daqui. E uma parte minha continua lutando para adiar meu retorno a Temerlândia. Nada está descartado.

A saudade é um sentimento estranho. É triste, mas nos remete a felicidade. E esse é o ponto chave dessa crônica. O filósofo Clóvis de Barro Filho fala que “a felicidade é assim – um instante de vida que você gostaria de durasse um pouco mais, que não acabasse logo, que você gostaria de repetir”.

Se tenho saudades e um certo receio de voltar ao Brasil agora, mesmo sabendo que sou obrigado a voltar em poucos meses, é uma prova definitiva que valeu a pena toda essa loucura de estudar fora. Valeu a pena os meses de agonia e ansiedade para conseguir os recursos e receber o visto. E valerá a pena sofrer novamente para buscar formas de terminar o estudo (sim, não tenho garantias).

Tá acabando? Não. Está só começando…

 

Crônica do rumo perdido

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Diz o Renato Russo que você pode andar distraído, impaciente, indeciso e ainda sim estar tranquilo e contente. Para muitos, trata-se de uma paixão, outros de amor, eu chamo de domingos e segundas-feiras. Para um ansioso, tudo é duvida e incertezas, mas talvez a absoluta falta de rumo pode ser doses de felicidade em meio a tantas angústias.

Sofrer com o amanhã, com o que pode acontecer e principalmente com o que não pode acontecer já faz parte da minha rotina. E como a idade de Cristo quando morreu se aproxima, eu tinha certeza que teria mais dúvidas do que certezas, mesmo com a decisão de abandonar o Brasil e virar a vida em 360 graus há poucos meses.

Os dois meses de espera pelo visto de Portugal já me destruíram por inúmeras vezes em poucas semanas. Passada a angústia, as curiosidades e as descobertas do Velho Mundo, estou novamente em uma encruzilhada, mas diferente do ano passado, não sei quantos são os caminhos e muito menos para aonde eles levarão.

FOTO: Pedro Schmitt/Arquivo Jornal Metas

Para onde eu vou? O que será de mim até o final do ano? O que eu estarei fazendo, onde estarei trabalhando? Com quem estarei convivendo? Perguntas que sempre foram fáceis de responde ao longo da vida para períodos curtos, hoje são desafios abstratos. Não sei para onde vou, nem sei para onde quero ir.

A música do Stuart lembra que o vento só te leva para o mesmo lugar. Nem é possível deixar a vida me levar, pois diferente do Zeca, a vida não vai me levar a lugar nenhum.

Estou sem rumo, sem definições, sem uma linha a seguir. Mas esta não é uma crônica da tristeza, como disse no início, estou tão tranquilo e tão contente. Não sei com o que, não sei o que me faz bem, tampouco estou apaixonado para poder me distrair.

Apenas aproveito os dias que ainda me permitem a liberdade de não ir a lugar nenhum. Sei que logo a vida me obrigará a tomar um rumo, uma decisão difícil que eu sofrerei para escolher e passarei novos dias de angústia. Até lá, aproveitarei essa estranha sensação de não pertencimento ao mundo.

Caminharei sozinho na estrada que não leva a nada, ladeiras acima e abaixo nas montanhas portuguesas, apenas observando e tentando entender essa sensação…

Ensaio sobre as selfies

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Pra dizer que nunca coloco foto minha

Está na descrição do meu perfil no instagram: não sou fotógrafo e não tiro selfies. Trata-se de um alerta e uma mensagem de segurança para o cidadão que por ventura desejar me seguir na rede social: não haverá fotografias de qualidades, mas ao menos o seguidor não precisará dar de cara com a minha cara.

Falta de amor próprio? Não. Uma forma exótica de narcisismo? Tampouco. Feio demais? Talvez. O fato é que não sinto prazer, não sinto vontade de ficar me fotografando. Também ficou pouco a vontade vendo meu retrato toda a vez que abro minhas redes sociais. Não é problema em aparecer na foto, eu apareço quando solicitado. Seria apenas um desapego diferente, um certo problema em apontar a câmara para mim.

Viajei bastante nos últimos meses. Conheci lugares fantásticos, vivo uma experiência diferente, uma quebra profunda da rotina e como qualquer ser humano tenho vontade de registrar tudo isso. Bato muitas fotos, tiro foto de tudo que vejo pela frente. Sou quase um japonês com o celular na mão, fazendo registros repetitivos sem ser um olhar diferenciado, um olhar artístico. São fotos normais, que qualquer um poderia ter feito. Há aquelas que tu capricha mais, que sai tão bem que tu mostra para todo mundo. Mas dispenso minha presença nelas.

Aaaah, mas você tem que ter um registro dos lugares que você teve. Sempre escuto isso. E fico com uma certa raiva pois eles têm razão. Minha memória funciona muito bem hoje (estranhamente até), com um GPS embutido no cérebro, mas o futuro ninguém sabe. Registros desses podem inclusive ajudar na memória. Então me rendo e tiro algumas para não ser tão o diferentão da turma.

Não julgo quem tem as lentes voltadas para si mesmo. Eu brinco, é verdade, mas não faço posição contrária a isso. Na minha timeline do instagram, há muitas registradoras de selfie, algumas são excelentes auto-fotógrafas e transformam suas contas em um verdadeiro book. Há outras cuja beleza não necessita de nenhum talento fotográfico, nem mesmo muita coordenação motora para garantir uma boa foto.

Há quem diga que muitos tiram selfie para levantar a auto-estima. Bom, eu conheço umas selfiers que tem uma auto-estima tão elevada que não necessitaria disso. Porém, se esse for o motivo, trata-se de uma razão nobre. Há quem está em dieta/academia que gosta de fazer registros diários para acompanhar a evolução. Tudo bem, também.

A verdade é que cada um tira a foto do jeito que quiser e eu continuarei dando preferência para lugares, cervejas e a minha cachorra. Na verdade, essa crônica não passa de uma desculpa para colocar uma foto que eu apareço e gostei muito, uma raridade por sinal. Agradeço a Fernanda, colega da excursão de brasileiros a Londres, pelo registro.

O Oceano

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Era o começo do ano e eu sentei a beira mar e comecei a observar o oceano enquanto pensava na vida. Um rito sagrado feito há quase 33 anos que não podia ser quebrado. Estava tudo lá como sempre, as ondas do mar, as pessoas caminhando na praia, outros correndo. Tinham aqueles que ficavam no molhe, sentados, observado a vista como eu. As crianças se divertiam tanto quanto os cachorros, em uma disputa eterna para saber quem corre mais.

O que estava diferente? As marcas na areia não eram pegadas e sim marcas de tênis, ninguém se aventurava a entrar no mar e casacos, luvas e gorros substituíam os biquínis. Era mais um início de ano na praia, mas uma praia no inverno.

Trocar o hemisfério é uma sensação estranha. É como se o ano não terminasse mais em dezembro e sim em junho. É ver o Natal com a cara de Natal dos filmes, mesmo que a cidade em que você mora parece desapegada às questões religiosas (ou seria comerciais). Aquela nevasca que faz as crianças dos filmes brincarem no dia seguinte foi trocada pelo sol, mas parece que as roupas são feitas para a ocasião.

Mas começar o ano na beira da praia não poderia ser diferente. Mesmo que você escolha passar a festa do Réveillon longe das águas, os dias seguintes precisam seguir os ritos. Organiza a agenda e marca para pegar um fim de tarde na orla, o primeiro pôr do sol no Mediterrâneo.

A sensação é a mesma do Atlântico em pleno verão. Não é o suor na camisa, o banho no mar que importa. Sentar em uma pedra a beira do oceano, olhando o horizonte e viajando entre o passado e o futuro é talvez o mais importante para um observador do mar como eu.

Estar à beira mar é aquilo que me acalma, me traz as forças para começar algo novo. Não escuto reggae, não como peixe, tampouco gosto de ficar torrando sob o sol (nem posso). Também detesto som alto na orla e não considero Balneário Camboriú uma praia.

Por que gosto tanto do mar, então? Não sei. Talvez uma praia no inverno seja o momento perfeito. É uma relação de amor, platônica, visual…

A revolução dos bichos – parte 2

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a-revolucao-dos-bichos1A neve continua a cair na fazenda. Todos os animais sofriam com o mais rigoroso inverno de suas vidas. Mesmo com o Moinho de Vento pronto e com um controle de comida, os bichos começam a passar fome na granja.

Napoleão não é mais o grande líder da fazenda. Ele se foi e deixou no lugar a porquinha Josefina, que reluta em precisa de nova ajuda dos seres humanos para manter a granja funcionando. Mas a neve castiga e os animais não conseguem mais fazer as suas atividades.

Josefina decide então chamar o porquinho François para ser seu braço-direito. Ele era da granja do humano Frederick e sempre viveu entre eles. Inteligente e estudioso, convenceu Josefina que saberia com administrar os recursos durante o inverno.

François aumentou o racionamento e obrigou todos os animais a trabalhares ainda mais. Buscou a ajuda do humano Frederick que mostrou aos animais como estava a sua granja: apesar do frio, o vizinho tinha comida estocada e tudo em ordem, algo que impressionou as ovelhas, que passaram a pedir pela maior presença da turma de Frederick.

Eis que Josefina e François brigaram e o porquinho deixou de ser o braço direito dela.  Aumentou a preocupação dos animais quanto ao frio e as ovelhas cansaram de trabalhar dobrado em troca de pouca comida. Os corvos, sempre muito atentos e inteligentes, foram os primeiros a se revoltarem contra os porcos. E não pegaram leve.

Os corvos procuraram os animais mais velhos para contar as histórias do passado, que começaram a ser reveladas: que Napoleão havia eliminado o ex-aliado Bola de Neve logo após a revolução. Que os porcos eram contra os humanos no começo e que depois passaram a andar igual a eles, se mudaram para a casa dos humanos e traíram os demais bichos. Os corvos sobrevoavam a fazenda e contavam a todos o passado negro dos porquinhos.

Protestos surgiram contra o comando de Josefina. Dia e noite, as ovelhas comandavam as manifestações. Mas todos os animais participavam, estavam todos desiludidos com que os porcos fizeram com a fazenda. Josefina lutava para tentar acalmar os demais, sem sucesso. Os corvos, principalmente, eram implacáveis nos protestos.

Enquanto isso, na granja ao lado, Frederick convidava os animais da fazenda de Josefina para passear. Foi ali que os animais tiveram o contato com Mick, filho do Sr Jones, antigo proprietário da terra hoje controlada pelos porcos. Mick era educado, inteligente e conversava com os animais, explicando porque o governo dos porcos não deu certo. E atraia muitos animais, principalmente as ovelhas.

Depois de conquistar os animais, Mick decidiu ir pra cima da antiga terra do seu pai. Passou a confrontar Josefina publicamente. Ela se defendia tentando lembrar que os humanos eram muito piores que os porcos, que os animais sofriam mais com o Sr Jones, mas ninguém lembrava dessa época.

O inverno ainda não havia acabado, mas os animais sentiram que era a hora da mudança. Não tinha mais como os porcos continuarem no poder: eles traíram os bichos, se tornaram iguais aqueles que diziam ser inimigos. E assim, Josefina foi deposta e os porquinhos foram chutados da casa onde moravam. Como nenhum outro animal sabia ler e escrever, Mick foi não teve residências para entrar na casa e recuperar o comando para os humanos. Os corvos foram os primeiros a apoiar a mudança.

Mick colocou os humanos de volta ao controle da fazenda. As coisas voltaram a ser como era antes e alguns porcos aceitaram em troca de ficarem próximo da casa. Josefina e seu bando tentou voltar ao passado, andando novamente sobre quatro patas. Mas foram expulsos do curral onde seus ancestrais moravam. Os outros animais não aceitavam de volta.

Os humanos reorganizaram a fazenda e mantiveram o controle de comida para os animais. Eram tempos difíceis e isso precisaria ser feito inclusive quando o inverno acabasse.

Nobel, Dylan e a poesia na música

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feinstein-03Eu tenho problemas com a poesia e contei aqui no Botequim que ela fazia mais sentido para mim quando ganhava tons musicais. Essa é a base para escrever agora sobre o Prêmio Nobel para Bob Dylan sem ser um fã do artista e da poesia, um texto herege que fará com que muitos fechem o computador com indignação.

Não que uma declamação não soe como música quando bem feita, ou que um poema de amor dito ao pé do ouvido não possa causar arrepios, mas a poesia e as notas musicais formam um casamento perfeito tão antigo e conhecido, que é estranho que se tenha estranheza ao saber que um compositor venceu o Nobel de Literatura.

A literatura é o uso estético da escrita. Tem origem em “Littera”, palavra em latim que significa letra. Uma composição musical que não seja instrumental utiliza-se das mesmas bases.  Não é necessário publicar um livro para ser um poeta, um artista literário. Dylan já publicou, mas não foram as publicações que o fizeram ganhar o Nobel.

Negar Dylan como um poeta da literatura seria como negar no Brasil que Chico Buarque seja um poeta também. O brasileiro já admitiu que é muito mais um letrista que um compositor musical. Se Construção não é poesia, eu realmente não sei o que é.

Nos últimos dias, completamos 20 anos sem Renato Russo, outro que será mais lembrado pela letra do que pela música. Além dos nomes tradicionais, estamos repletos de poetas-músicos na MPB, no rock, no rap e em inúmeras manifestações.

O Prêmio Nobel deixou o convencional. Quais as razões devem ser discutidas longamente em uma mesa de bar, mas a premiação de um compositor deve deixar bem claro: poesia e música devem andar juntas ou ao menos próximas.

O amor é subversivo?

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Ensinas-me a olhar pra ti sem querer beijar-te? O romântico subversivo tem razão. Existem aqueles momentos que você observa com os olhos e com os lábios. Mas esta crônica não é uma declaração de amor para alguém, até porque o cronista está em um relacionamento sério com a Europa. O fato é: o amor é subversivo?

Se não bastasse olhar sem querer beijar, os românticos daqui também deixam gravados indiretas como “Dá Te Me”. Fica a dúvida: será que a pessoa correspondida leu as mensagens? Será que ela/ele irá ensinar a olhar sem querer beijar? E se o tiro acertar outro alvo? E se um outro assumir a autoria do ato? E se o pichador não for romântico e sim tiver despertando os instintos mais primitivos?

Pichar é um ato de rebeldia, de subversão a ordem. As pichações são frequentemente mensagens contra o sistema ou então um grito de excluídos pedindo por uma voz perante a sociedade. Pichar uma declaração de amor seria uma subversão? O amor seria hoje, um ato ilegal, repreendido?

As ruas da Covilhã não são as únicas a serem pichadas com a paixão. A Blumenalha Desvairada foi invadida pela frase “mais amor” uns tempos atrás.  A sociedade hoje precisa de mais amor? O amor está tão escanteado que precisa de um grito suburbano?

Se você pichasse uma frase de amor, que mensagem seria?

Crônica de uma ansiedade eterna

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capa_curiosidades_vinho_do_porto_cultugaEu sou uma pessoa ansiosa. Mas muito, exageradamente. Se você me disse que vai chegar às 14h e chegar às 14h10min, eu sofrerei por 10 minutos, não importa quem você seja, não importa o quão importante era o encontro. Essa crônica que você está lendo é na verdade um exercício. O exercício de uma pessoa extremamente ansiosa a beira da loucura. Escrever me ajuda, quando tenho um pouco de concentração.

O autor estava acomodado. Vivendo uma vida tranquila, rotineira, sob controle. Isso, em tese, faz bem para uma pessoa ansiosa. Acordar já sabendo o que fará durante o dia, sem grandes novidades, uma rotina clássica, aconchegante, com trabalho de dia, um pouco de lazer à noite e nos finais de semana. Pouco dinheiro, mas também poucos gastos.

Mas quem disse que eu aceitei isso numa boa? O sinônimo de rotina é tédio. Decidi brincar com a própria sorte e arriscar o inusitado. Virar tudo de cabeça para baixo. Arrisquei só por brincadeira, para sair daquela vida pacata que levava, ou ao menos projetar algo diferente no horizonte.

E deu certo. Ou melhor, em tese deu. Porque o processo não foi 100% concluído. Ainda não tenho 100% de certeza se a minha vida vai virar 360 graus. A resposta deverá vir nas próximas duas semanas. E partir daí terei de 3 a 15 dias para resolver tudo antes de virar de cabeça para baixo. Organização? Nenhuma! Check-list? O que é isso? Eu sou um agente do caos, eu produzo na desordem, na bagunça…

Para um ansioso, 10 minutos é uma eternidade. Em 10 minutos eu vejo o mundo inteiro passando a minha frente três vezes. Agora com duas semanas eu não sei mais o que é. O ansioso vive do futuro e por isso sofre por antecipação. Ele vive com a cabeça no amanhã, pensando mil coisas que pretende fazer nos próximos dias, semanas, meses, mesmo que na hora esqueça tudo e faça algo inesperado. Para alguém assim é uma tortura não poder ficar “planejando” porque não sabe para onde vai amanhã.

É preciso uma distração ou um drink. Uma IPA faria bem agora ou uma taça de vinho. Um cabernet em uma tarde fria com ventos a beira-mar, caminhando sozinho na praia sem pensar em nada, buscando inspirações para novas crônicas…talvez mais taças de vinho me levem para esse mundo, ou melhor, me afastem dele, pois a ressaca seria grande e há muito o que fazer.

Nervoso, ansioso, contando as horas, não posso adiantar o tempo, até porque, adiantar seria perder algo que é muito precioso para mim. Preciso de calma, preciso relaxar….

A escrita mental (ou por que a escrita sempre fica para depois)

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u-720x340[1]Oi, por que não falas mais comigo? Ela pergunta. Como assim? Não estou fazendo nada de errado, eu respondo. Me deixou no vácuo e não respondeu minhas mensagem de domingo, ela replica. Respondi mentalmente, disparo minha tréplica.

Quem nunca respondeu mentalmente a uma mensagem do Whataspp, deixando a outra pessoa a ver navios, que atire a primeira pedra. É uma prática comum e corriqueira. Você visualiza, tem a ideia da resposta, mas por um algum enigma do universo deixa de responder e vai fazer outra coisa.

Feliz seria eu se esse hábito se limitasse a conversas por mensagens de texto no celular. Estou solteiro e por isso não tem ninguém querendo me matar por causa disso. No máximo perco oportunidades, outra especialidade minha. Mas a minha mania de escrever mentalmente vai muito além, em situações em que ninguém quer me matar, mas eu fico com vontade de me jogar da ponte.

Esta bodega virtual é um bom exemplo. Perceba que o cronista aqui está há um bom tempo sem publicar. E um cidadão que se sujeita a escrever crônicas e trabalha com o jornalismo não fica sem assunto. Ideias para crônicas brotam da terra, das esquinas, da fila da padaria, dentro do ônibus, em tudo que há mais tosco na vida cotidiana. Ideias que viraram maravilhosas crônicas no meu universo, mas que jamais deixaram a minha cabeça.

Quando eu chegar em casa, eu escrevo. Eis aí uma grande maldição. Quase sempre isso não acontece. Ou você esquece da ideia ou você senta em frente ao computador, abre a tela do Worpress e fica olhando ela vazia. Tudo aquilo que você escreveu mentalmente não foi salvo.

Essa crônica sobre o escrever mentalmente já poderia ter sido publicada antes, não? Em outros dos meus apagões de ideias, isso poderia ter entrado no lugar. Mas foi durante uma oficina de leitura sobre artes que o assunto entrou na pauta: o momento de inspiração do artista, a hora que a ideia surge na sua cabeça. Lembrei das minhas eternas mensagens respondidas mentalmente no whatsaspp e me dei conta do problema crônico que tenho.

Por que a escrita sempre fica para depois? Por que eu não puxo o celular/tablet e começo a escrever na hora que a ideia veio? Por que eu não reaprendo a escrever a mão, resolvendo os problemas com um caderninho? A verdade é que ter lembrado desse texto hoje, duas horas depois de chegar em casa, já foi uma vitória.

Se você gostou dessa crônica, comenta aí embaixo. Mas comenta agora. Não deixa para escrever depois, não….

O Príncipe

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boate

Entrar na boate em uma noite fria, chuvosa, típica do nosso inverno, era algo que eu não queria mais fazer. Mas era o meu dever. Não estava ali para me divertir, já não tinha mais idade para isso, era uma missão divertida para mim, mas não para a maioria daqueles que eu mandei embora. Estava ali motivado pela vingança.

Era o décimo quinto sumiço de pessoa dentro da boate mais cara da cidade. Uma pessoa especial desta vez: o agente Hartel, um dos mais competentes detetives da nossa equipe. Ele investigava a vida de Henrique de Marco, o arrogante e prepotente proprietário da boate O Príncipe. O Hartel tinha me contato que estava fechando o quebra-cabeças e logo teria as provas necessárias para colocar Henrique atrás das grades. São três dias que ele está desaparecido, temos a certeza que sumiu aqui, no Príncipe.

Boate vazia, só os funcionários presentes, chegou a hora de falar com aquele que se intitula o Príncipe da cidade. Um sujeito exótico, extravagante, vestindo um termo vermelho e uma cartola, com correntes de ouro no pescoço estava na minha frente, em seu trono. Em sua volta, três belas mulheres e três sujeitos mal-encarados, gigantes, que provavelmente portavam armas.

– Seja bem-vindo, delegado. Você sabe como é, a casa é sua

– Não me venha com enrolações, Henrique. Você sabe muito bem porque estou aqui. Vamos, cadê o Hartel?

– Hartel? Aquele homenzinho andou frequentando minha boate novamente? Não creio! Deve ter vindo atrás de um rabo de saia…

– Faça-me o favor, Henrique. Se o senhor não quiser colaborar, vou ter que revistar toda a boate…

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Um dos investigadores mais qualificados da metrópole, o agente Hartel sabia que teria problemas pela frente quando recebeu a missão de investigar os desaparecimentos na boate O Príncipe. Além dos sumiços, havia a denuncia de uma ex-funcionária que corpos estavam sendo esfolados nos fundos da casa noturna.

Hartel tinha uma extensa lista de fontes e contatos que poderiam ajudar a resolver a questão. A diarista Joaquina era a principal. Os dois vinham conversando há dois meses e ela topou repassar informações internas da boate. Trabalhando como faxineira na Príncipe, relatou uma movimentação estranha que ocorria todas as noites na dispensa da casa.

Distribuidor de bebidas foi o disfarce. Hartel chegou na noite de quarta-feira pelos fundos da boate com uma entrega de garrafas de vodka. A mercadoria chegaria naquela noite e o detetive tratou acertar com os verdadeiros entregadores antes. Assim, chegou pela porta de trás e entrou na dispensa, onde encontrou uma movimentação intensa de pessoas, buscando e levando bebidas para os bares da casa.

Joaquina estava ali e discretamente apontou para um canto escuro da sala, onde tinha uma geladeira de cervejas. Hartel deixou uma caixa de vodas próximo da geladeira e reparou em um alçapão no chão….

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Henrique estava tranquilo demais. Ignorava nossa presença. Ao invés de se preocupar com uma possível incriminação, se distraía com outras coisas em meio ao interrogatório. Teve a cara de pau de chamar seu gato, Merlim, para brincar durante as perguntas.

– O detetive Hartel esteve aqui há três dias. Veio investigar as denúncias de desaparecimento de frequentadores de sua boate. Desde então, não foi mais visto. Posso pedir uma prisão preventiva sua, se continuares zoando as investigações – ameacei.

– Delegado, a boate é sua. Investigue como quiser. Mas cuide com suas ameaças. Vocês não gostam de mim e eu não gosto de vocês, mas a diferença é que eu deixo vocês em paz. Vou dizer mais uma vez, não mexam comigo – respondeu em tom de ameaça Henrique.

Certo que ele não iria ajudar em nada, decidi iniciar a procura dentro da boate. O Hartel me falou em uma fonte sua era funcionária aqui, mas não sabia o nome. Teria que dar um jeito de descobrir.

Entramos sala por sala, conversamos com cada funcionário que encontrávamos com perguntas sobre a noite de quarta-feira. Ao invés de perguntarmos pelo detetive Hartel, demos apenas a descrição física dele. Deu certo. Uma atendente do bar disse que viu alguém parecido na dispensa, entregando caixas de vodka.

Sem perder tempo, fomos direto para a dispensa, onde encontramos uma geladeira velha claramente fora do lugar. Nos aproximamos e encontramos uma passagem para um porão aberta. Mandei meus agentes na frente….

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O detetive Hartel novamente contou com a ajuda de sua informante para despistar os funcionários da boate. Ela pediu para uma amiga que estava na festa fazer um escândalo, daqueles mais vergonhosos, atraindo a atenção de todos, principalmente dos seguranças. Enquanto uma mulher gritava histericamente que tinha sido roubada dentro da festa, Hartel e Joaquina tratavam de tirar a geladeira do lugar para conseguir abrir o alçapão.

O acesso ao porão era por uma escada de madeira frágil. Ela ficou em cima, dando a retaguarda. Um ambiente fétido, escuro e úmido já dava as credenciais para o que vira de pior. A lanterna era insuficiente para conseguir iluminar uma escuridão intensa e o cheiro de podridão embrulhava o estômago.

Mais uns passos e Hartel foi percebendo onde estava. Com a pouca iluminação, acabou esbarrando num objeto que estava pendurado. Percebeu que se tratava de um pedaço de um corpo. Jogou a lanterna em cima e as peças foram se encaixando. Era o tal “açougue dos infernos”. que haviam denunciado. Pedaços de corpos humanos sem pele espalhados pela sala formavam o cenário de horror.

Ligou a câmera do celular e começou a registrar fotos. Sabia que estava sob risco no local, por isso precisava ser rápido. Algumas imagens seriam mais que suficientes.

Quando batia as fotos, escutou um grito vindo de cima. Era a voz de sua informante. A escada que estava colocada caiu e o alcapão fechou. Sentindo o perigo, tentou correr para aonde estava a escada.

A luz da lanterna parou de funcionar. A escuridão ficou ainda mais profunda e um frio na espinha se intensificou quando ele sentiu que não estava sozinho na sala….

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O porão estava praticamente vazio, com apenas alguns materiais de limpeza guaradados. Ainda sim, tinha a impressão que tiraram alguma coisa dali, pois estava vazio demais. Foi quando um dos meus policiais me avisou:

– Delegado! O Hartel está aqui!

Sai correndo e fui até o segundo andar da boate. Era um belo camarote, dos mais luxuosos. Lá estava Hartel, bem vestido, tomando um drink com uma mulher vestida simples. Devia ser a informante dele. Eles estavam rindo, conversando.

– Delegaaaaaaaaadoooo! Não precisas mais se preocupar. Está tudo bem comigo. Na real, eu sai da polícia e vou atuar com segurança privada. E esquece o Henrique, tá. Sacaneamos com ele, mas é uma boa pessoa. Controversa, é verdade, mas bem intencionada!

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