O ditado que noticia boa é notícia ruim foi revivido com as tempestades em Portugal, que assolam o país desde o fim do mês passado. Os jornais regionais das regiões afetadas pelas chuvas estão fazendo ótimos trabalhos. Ou, ao menos, provando a importância do jornalismo local e ressaltando o risco da ausência deste tipo de mídia. Enquanto muitos portugueses na Região Centro fazem analogias das chuvas e neve do inverno com os incêndios do verão, escrevo para fazer uma comparação entre locais bem atendidos com a imprensa e desertos de notícias nessas tragédias.
Com a experiência das coberturas das enchentes, acompanhei com um olhar especial as notícias dos jornais de Coimbra das tempestades. O Diário As Beiras e o Diário de Coimbra possuem um foco muito maior no impresso, porém, desempenharam bem na cobertura digital das chuvas. As destruições do vento, os riscos de inundações, o acompanhamento da meteorologia, são urgências que não podem esperar o dia seguinte. E o trabalho digital de ambos, somado ao nativo digital Notícias de Coimbra reforçam que: a comunicação social conimbricense no que diz respeito ao hard-news. Depois que a chuva parar, será possível uma análise mais ampla.
Em Leiria, sem surpresas. O Região de Leiria, semanário impresso e diário digital, já é uma das melhores publicações do país. Não analisei outras publicações, mas assegura-se que o distrito também foi bem atendido com o jornalismo local perante a tragédia ocorrida.
As publicações dos jornais de Coimbra e Leiria nas redes sociais reforçam a tese que a confiança dessas populações com seus meios de comunicação mantém-se. Se há críticas em períodos normais, diante das tempestades que destruiu a cidade de Leiria e inundou localidades como Ereira, a população manteve o voto de confiança nos meios para se informar. A desinformação, que tomou conta do debate na tragédia do Rio Grande do Sul em 2024 no Brasil, ficou em segundo plano aqui.
Se por um lado, temos jornalismo a cumprir o seu papel nas cheias do inverno, por outro, nos incêndios do verão, a desinformação foi mais relevante e muitas comunidades tiveram problemas de informação. O que diferencia Coimbra e Leiria de Manteigas e Pedrógão Grande? Além dos seus tamanhos (vilas contra capitais de distritos), a presença do jornalismo. Manteigas e Pedrógão Grande são desertos de notícias, portanto, localidades sem nenhum meio de comunicação para chamar de seu.
No excesso de chuva, houve uma abundância de jornalismo, que retratou o drama dos moradores de Ereira, uma pequena freguesia do município de Montemor-o-Velho (próximo a Coimbra) que ficou totalmente ilhada com a cheia do Rio Mondego. Nos incêndios de Manteigas em 2022, a população dependeu das habilidades de blogueiro do presidente da Câmara para ficar atualizado do avanço dos fogos. Pedrógão Grande foi notícia no país inteiro e até no exterior…depois da tragédia completa, claro.
Seja a catástrofe climática do Vale do Itajaí (2008), Serra do Rio de Janeiro (2011), Rio Grande do Sul (2024), incêndios em Portugal (2017, 2022, quase todos os anos) ou agora nas cheias, este é um território do jornalismo local. Primeiramente, porque a cobertura jornalística é feita por pessoas que vivem o problema. Apesar de todo o problema de saúde mental que isso acarreta, a cobertura será sempre mais precisa que aquela feita por jornalistas que caem de paraquedas no cenário.
E apesar de toda literatura apontar os riscos para um défict democrático e uma erosão da arena pública, os desertos de notícias apontam também para um problema mais simples e explítico: a falta de informações em casos de tragédias. As tempestades em Portugal neste começo de 2026 apenas explicitam a diferença de regiões que têm jornalismo local e as que não possuem. E também explicitam a relação entre desinformação e desertos de notícias. Isto no caso português, claro. A desinformação ocorrida no Rio Grande do Sul em 2024 é outra coisa.
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