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Novo cenário político tem espaço para três candidaturas

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Polos de Lula e Bolsonaro estão sendo formados. Terceira via só poderá ter um nome

O xadrez político brasileiro começou uma nova partida no dia 8 de novembro de 2019, com a liberação de Luís Inácio Lula da Silva. O ex-presidente dificilmente será candidato em 2022, mas sua liberdade permite a organização da oposição e antecipa ainda mais a campanha para a sucessão de Jair Bolsonaro.

Lula em campo possuirá todas as condições para reorganizar a oposição num único polo, que terá uma candidatura forte em 2022. Chamo aqui de POLO LULA que pode unir PT, PCdoB, PSB, PSOL e até mesmo o PDT (talvez sem os Gomes). Do outro lado, Bolsonaro ganha a oportunidade para reorganizar a casa e deixar a direitona apenas com ele de candidato, chamo aqui de POLO BOLSONARO.

Com dois polos fortes, a proliferação de candidaturas presidenciais em 2022 fica inviável. Uma terceira via ao lulismo e ao bolsonarismo só terá viabilidade de for concentrada em uma única candidatura. E como há muita gente poderosa contra Lula e Bolsonaro, a tendência só reste mesmo um candidato. Neste caso teremos:

POLO LULA ————————- TERCEIRA VIA ————————- POLO BOLSONARO

Os beneficiados e prejudicados INICIALMENTE neste cenário tripartite que se aproxima são:

Os beneficiados:

Lula é, obviamente, o maior de todos. Nem entra-se na discussão sobre a liberdade pessoal de um cidadão, ficamos apenas na parte política: Lula poderá viajar o Brasil inteiro e articular uma esquerda que estava até agora presa em Curitiba com ele. Se preso, Lula participou diretamente da campanha de 2018, nas ruas o seu protagonismo será ainda maior.

O desafio de Lula é unir a sua base e ter candidato viável para 2022. Ele sabe que não será novamente permitida a sua participação. A tendência é que, enquanto dirigentes petistas falem dele para 2022, o próprio vai negociando para ver quem pode ser seu candidato. Nomes possíveis: Rui Costa, governador da Bahia, e Flávio Dino, governador do Maranhão (que teria que trocar PCdoB pelo PT).

Bolsonaro também pode ganhar com a libertação de Lula. O presidente vivia um momento de desmanche da sua base, com brigas internas no PSL. A volta daquele que é no imaginário bolsonarista o grande inimigo permite ao presidente reconquistar e reorganizar a sua base.

O desafio de Bolsonaro será controlar os seus filhos para conseguir reorganizar a base. Todos os bolsonaristas em conflito com o Planalto apontam o dedo para eles, especialmente Carlos e Eduardo. Se não aproveitar o momento para unir sua base, Bolsonaro corre o risco de ser literalmente passado para trás por outra liderança à direita e com isso, o risco do impeachment aumenta.

Luciano Huck se quer é filiado a um partido, apesar de todos saberem da proximidade com o Cidadania (novo nome do PPS). Por que o apresentador da Globo pode ganhar com a volta de Lula. A polarização entre Bolsonaro e Lula diminui espaços para uma terceira via. Com dois lados bem fortes, é impossível tirá-los do segundo turno com vários candidatos a terceira via.

Huck leva vantagem sobre os seus concorrentes (nem Lula, nem Bolsonaro) justamente por não estar em partido nenhum, por ter o apoio da grande mídia brasileira e de parte considerável do establishment brasileiro. Seus concorrentes diretos estão muito mais próximos do polo Bolsonaro (Witzel e Dória) e do polo Lula (Ciro), o que facilita a disputa no meio.

Quem sai atrás

João Dória (PSDB) se elegeu com o bordão BolsoDória. Assim que viu o governo de Bolsonaro ir mal, optou por moderar o discurso de olho numa terceira via. Mas o fato é que o governador paulista é muito identificado com a direitona brasileira e o candidato que quiser ser bem sucedido na terceira via precisa de um discurso mais ao centro.

Dória se elegeu prefeito de São Paulo atacando Lula dia sim, dia não. Mas esse papel nacional já é de Jair Bolsonaro. É muito difícil para o governador paulista passar um discurso de centro. Por isso, larga atrás neste cenário tripartite que se aproxima.

Wilzon Witzel (PSC) é outro que se elegeu na onda bolsonarista e buscou descolar a imagem nos primeiros meses de governo. Ao contrário de Dória, que busca a moderação, Witzel engrossou o coro à direita como governador do Rio de Janeiro, mesmo buscando distãncia de Bolsonaro.

Por isso, suas chances de virar candidato a presidente em 2022 são fraquíssimas. Se manter a distância do bolsonarismo pode até perder a reeleição para governador.

Ciro Gomes (PDT) é ideologicamente muito próximo de Lula. Mas os egos dos dois são grandes demais para serem parceiros. Candidato frustrado em 2018, Ciro buscava criar uma força política de centro-esquerda longe do petismo para 2022. Esse plano ficou muito complicado com a liberação de Lula, que terá todo tempo do mundo para articular.

Se tentar buscar uma candidatura pela terceira via, Ciro terá muita dificuldade pois seu nome é muito ligado às esquerdas. Como ninguém imagina que ele possa ser o candidato lulista, suas chances foram bem reduzidas.

Jornal impresso: desinteresse de quem?

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Três maiores jornais de Santa Catarina vão fechar. Falta público?

Os três maiores jornais do Estado de Santa Catarina vão deixar de existir a partir do final deste mês. O Diário Catarinense, de Florianópolis, o A Notícia de Joinville e o Jornal de Santa Catarina de Blumenau, todos do grupo NSC, serão substituídos por uma revista semanal feita em conjunto em todo o Estado. Os portais locais também perderão espaço para o NSC Total, a página do grupo.

Capa da primeira edição do Santa em 1971.

A notícia não foi recebida como surpresa para quem trabalha no meio, visto que as redações dos três jornais eram enxugadas a cada ano e já sabia-se de um interesse do grupo NSC em vender ao menos os jornais A Notícia e Santa, ambos sem sucesso. Mas há um grande impacto nesta notícia, por causa dos fatores a seguir:

  • São os três maiores jornais do Estado. Apesar do impresso perder relevância, continuavam importantes.
  • O Santa tem 48 anos, o Diário Catarinense 33 e o A Notícia é quase um centenário. Santa e AN fazem parte da história das cidade onde estão sediadas.
  • Blumenau, terceira maior cidade de Santa Catarina com 350 mil habitantes, não terá mais impresso diário. Se contar que a nova versão é uma revista feita em conjunto, sequer um semanário a cidade terá.

Fim do impresso?

Muitos podem receber a notícia como um “os jornais impressos vão acabar, mesmo”. É fato que os media impressos não possuem mais a força e relevância do passado, que os custos de operacionalização de um jornal em papel são muito caros e que é desnecessário fazer um jornal diário em papel com notícias curtas que a cidade já soube no dia anterior pela internet.

O impresso não possui mais papel nos dias de hoje? Ou é possível pensarmos um novo modelo?

Uma cidade como Blumenau, que possui diversos sites de notícias, não precisa mais de um diário para dar “notinhas” e outras notícias sem profundidade. Mas será que não há leitores para um jornalismo mais trabalhado? Grandes reportagens, análises, artigos, crônicas, isto tudo não tem mais sentido em Blumenau? O blumenauense não gosta de ler? Ou não há ninguém oferecendo isso para ele se interessar?

As cidades em volta de Blumenau todas têm jornais impressos. Gaspar, Pomerode e Timbó possuem um bissemanário e um semanário cada. E em conversa com alguns de seus proprietários, não há interesse em deixar de circular no papel, apesar da crise financeira. Ainda há leitores e anunciantes.

Identidade local

Em comum, esses jornais da região metropolitana de Blumenau são administrados por pequenos empresários que têm no jornal o seu principal meio de sustento (quando não o único). Situação muito diferente da NSC, onde a principal atividade ainda é a televisão.

Mas o mais importante: são empresários locais, moradores de longa data (ou nascidos) nas cidades onde atuam. São jornais com identidade local, com características comunitárias, órgãos de imprensa com compromisso e participação local.

Nessas cidades (e em muitas outras do interior de Santa Catarina onde já atuei com consultoria) há muitos assinantes que assinam o jornal por uma ligação local, ou direta com o proprietário ou com a ideia de que é preciso apoiar o que é da cidade. Muita gente em Gaspar quer ver o Jornal Metas ativo, muita gente em Pomerode quer o Testo Notícias funcionando, publicando.

Alguém sairia em defesa do Jornal de Santa Catarina atual? Um jornal que vem perdendo sua identidade nos últimos anos, sendo uma cópia de AN e Diário Catarinense?

Desconfio de um modelo para o jornalismo regional que não tenha fortes laços com a comunidade onde atua. O grupo NSC optou por fazer isso ao, além de deixar de circular a versão impressa, trocar as versões digitais de AN, Santa e DC pelo NSC Total, um portal para toda Santa Catarina, um estado onde cada região tem a sua cultura própria e pouco interesse pelas outras.

O ClicRBS, portal de notícias do grupo RBS, pode até ter dado certo no Rio Grande do Sul, mas em Santa Catarina foi um fracasso. O grupo precisou investir nas versão digitais de Santa, AN e principalmente DC para ter relevância digital no estado. Os novos donos, da agora NSC, trocam as marcas conhecidas pelo mesmo erro cometido pelos gaúchos há mais de 10 anos.

Concluindo….

O fechamento dos três jornais é uma notícia de grande impacto, sim! É um momento para pensarmos sobre o futuro do jornalismo regional em Santa Catarina. É um momento para Blumenau pensar: a cidade não quer mais um grande jornal impresso ou as pessoas que tocavam o jornal da cidade não tiveram a competência e/ou interesse em manter?

A resposta for a cidade quer ter, que modelo de jornal deve ser esse?

Pioneiro no combate ao racismo, Vasco não pode ser homofóbico

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Finalmente, combate a homofobia entrou na pauta do futebol brasileiro

Resposta histórica na sede do Vasco

Pela primeira vez na história do futebol brasileiro, uma partida foi interrompida por causa de gritos homofóbicos por parte de uma torcida. O caso ocorreu no final de agosto, na partida entre Vasco e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro. O juiz parou a partida no primeiro tempo porque a torcida do Vasco gritava frases homofóbicas para o time adversário.

O técnico cruzmaltino Vanderlei Luxemburgo pediu e a torcida atendeu, encerrando os gritos. O jogo foi reiniciado e o caso foi colocado na súmula do árbitro. A justiça esportiva brasileira vai analisar a partir do que foi colocado na súmula, porém a tendência é que não ocorra uma punição ao clube, já que foi o primeiro caso e os gritos foram encerrados assim que o jogo parou.

Trata-se de algo inédito no futebol brasileiro e podemos estar diante do início de uma nova fase no nosso futebol. O combate a homofobia chega a um dos núcleos mais homofóbicos da sociedade brasileira. E o Vasco, pioneiro no combate ao racismo, precisa ser cobrado.

Homofobia no futebol

A homofobia no futebol brasileiro é absurda. Ser chamado de homossexual é ainda uma ofensa grave entre os torcedores, tanto que São Paulo e Fluminense são chamados pelas outras torcidas de “time de viado” e as direções dos clubes pouco agiram até hoje para combater isso.

Nenhum jogador de futebol é homossexual declarado. Um ex-jogador de São Paulo e Atlético Mineiro tinha fama de afeminado e era alvo constante das torcidas. Se ele era homossexual mesmo, ninguém sabe. Pois se fosse, não havia espaço para se assumir. Um jogador do Corinthians deu um “selinho” num amigo em uma foto de combate à homofobia e foi cobrado pela própria torcida.

O Vasco e o racismo

Afirmar que o Vasco foi o primeiro clube brasileiro a ter jogadores negros é arriscado, devido ao tamanho do país e a falta de informações no início do século XX. Mas é fato que o clube foi pioneiro no combate ao racismo, ao montar um time de negros e pobres nos anos 20 e optar não deixar uma liga de clubes cariocas após exigirem a saída destes jogadores do elenco.

O clube possui orgulho da sua história: a carta de resposta à liga, onde recusa tirar os negros virou placa na estrada do estádio de São Januário), a direção já fez camisas especiais em alusão aos anos 20 e a torcida faz cantos lembrando o combate ao racismo. As origens humildes do clube e participação na popularização do futebol (até os anos 20 um esporte de elite) também são ressaltados.

Como vascaíno, gostaria de ver o clube tomar a iniciativa também no combate à homofobia. O clube, que nos últimos anos foi administrado pelo reacionário Eurico Miranda, jamais cogitou isso. Agora, com a regra de proibir cânticos homofóbicos vindo da Fifa, a chance de um protagonismo se foi. Ainda sim, é inaceitável que o clube aceite comportamentos homofóbicos, seja qual for. É inaceitável que uma torcida que canta que “já lutou por negros e operários”, mantenha coros preconceituosos.

Fica a pergunta: quando algum jogador homossexual decidir se assumir publicamente, como o seu clube reagirá? Como sua torcida reagirá?

Esquerda precisa ir além de Bolsonaro e impor agendas

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Caso Amazônia é exemplo: é preciso vencer guerra de agendas

A sequência de erros políticos de Jair Bolsonaro na crise das queimadas da Amazônia abre uma grande oportunidade para as esquerdas recuperarem terreno junto ao eleitorado brasileiro. É hora de pedir impeachment? Não! A hora é de fazer exatamente o que a direita fez nos últimos anos e que a esquerda tinha feito no início do anos 2000: fazer uma polarização “inteligente”, e impor agendas de esquerda no debate brasileiro.

Já foi dito no post anterior que o discurso político de Bolsonaro sobre o meio ambiente é mais letal para ele que as práticas realizadas. O Brasil sempre teve problemas com o meio ambiente, mas o fato do presidente apoiar desmatamento desde os tempos de deputado, de ter se intitulado o “Capitão Motoserra” no começo de agosto, tornou a situação ainda pior. Os incendiários do “dia do fogo” foram estimulados com o discurso do presidente a a avançar.

Mas não basta atacar Bolsonaro. É quase um consenso entre os brasileiros (tirando a base de apoio fanática) que o comportamento do presidente foi errado nesse caso da Amazônia. Mas a situação ainda é fácil de resolver internamente. Vejamos:

  • Para boa parte da imprensa, o Agro é pop. Muita gente na imprensa não reclama do ataque ao meio ambiente, reclama apenas da reação do presidente.
  • Bolsonaro recuou. Ficou com medo depois que os gigantes do agronegócio como Blairo Maggi reclamando da atuação do Planalto. O pronunciamento em TV foi uma prova disso.
  • Daqui a pouco as chuvas voltam e os focos de incêndio vão acabar. Não espere que a imprensa que acha que o “agro é pop” vai manter o assunto na pauta.
  • O mercado financeiro vai querer mudar logo de assunto. Empresários vão querer mudar de assunto. Muita gente grande vai querer mudar logo de assunto.

Se o presidente fosse o Temer, a crise já teria sido contornada. Bolsonaro ajuda as esquerdas com suas teorias da conspiração, com sua política de levar tudo para guerra. Graças ao seu estilo, a crise vai durar um pouco mais tempo. E aí, as esquerdas precisam avançar:

  • – Lideranças políticas, jornalistas, e até mesmo os cidadãos no dia-dia precisam reforçar que o “Agro é Tox”. Que o Bolsonaro não é o único problema nessa história.
  • – É preciso reforçar, lembrar que quem coloca comida na mesa do brasileiro é o pequeno agricultor, não os gigantes do agronegócio.
  • – É preciso abandonar o desenvolvimentismo do século XX entre os partidos de esquerda e abraçar de vez a “agenda verde”. É preciso conscientizar a própria esquerda que sem um desenvolvimento sustentável não há como fazer mais justiça social.

É a hora de fazer uma “polarização inteligente”. De solidificar a agenda verde na esquerda, apontar caminhos claros para este tema. Do outro lado, Bolsonaro vai continuar associando a direita as queimadas, destruição do meio ambiente.

A esquerda foi competente no passado em capturar as pautas identitárias para si. Liberais de direita não conseguem levantar questões LGBT, etnias, mulheres. A direita foi competente em capturar para si a pauta de segurança pública e de combate a corrupção. A esquerda ainda tem dificuldades em falar desses assuntos e convencer o eleitorado. Graças a Bolsonaro, o combate a corrupção pode ser desassociado da direita.

Dominar a agendas importantes como a ambiental, avançar sobre segurança pública e combate a corrupção diferenciando do discurso direitista é hoje mais importante para a esquerda que atacar Bolsonaro. Na verdade, o presidente pode ajudar muito àqueles que ele mais odeia.

O Brasil vai virar uma Venezuela?

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Discurso nacionalista imbecil encaminha o país ao precipício

Nasa 22 08 2019 -Focos de fumaça em varios estados da região sobre a Amazônia — Foto: Aqua/Nasa

Um governo dito nacionalista, presidido por um ex-militar que já defendeu golpe de estado no passado, mas que foi eleito democraticamente. Um governo que foca a economia do país em commodities, que faz um discurso contra alguns países do primeiro mundo, que defende censura, que não aceita dados científicos, apoiado em uma parcela significativa da população que ataca instituições como o Judiciário e o Parlamento, mesmo com os números da economia em baixa.

Estou falando de Hugo Chávez na Venezuela ou de Jair Bolsonaro no Brasil?

Bolsonaro foi eleito com um discurso radical contra as esquerdas. Tanto ele quanto seus apoiadores durante as eleições no ano passado diziam que se o PT voltasse ao poder, o Brasil se tornaria uma Venezuela. Este ano, com as prévias apontando uma provável vitória da oposição na Argentina, o presidente brasileiro voltou a usar a Venezuela como referência para o que há de pior.

Mas o país que mais se encaminha para virar “uma Venezuela da vida” é o Brasil. As semelhanças entre o presidente brasileiro e o ex-ditador venezuelano já foram apontadas no primeiro parágrafo. Para o blogueiro aqui, nacionalismo militarista é tudo igual, independente da cor da farda.

E o Brasil está próximo de dar mais um passo rumo a venezuelização. Como vários analistas políticos já apontaram, entre eles o jornalista Reinaldo Azevedo, pior que o aumento das queimadas este ano na Amazônia é a retórica do governo para lidar com o problema. Qualquer presidente normal admitira o problema e anunciaria soluções para o caso, mesmo que não houvesse um interesse real em resolver a questão.

Mas Bolsonaro não sabe fazer política. Ainda se comporta como um deputado do baixo clero, dos tempos que falava bobagens e ninguém dava bola, exceto programas de entretenimento como CQC e da Luciana Gimenez. Só que agora ele é o presidente. E cada fala é um ato do governo. Cada fala, cada ato, tem sua consequência.

Muito mais que a política ambiental, a retórica de Bolsonaro pode nos levar a um cenário de boicote e sanções internacionais.

Bolsonaro não sabe jogar

O presidente da França está sendo oportunista em usar o caso Amazônia para derrubar o acordo UE-Mercosul? Está. Os artistas internacionais mal sabem o que é a Amazônia e muitos estão se pronunciando somente para se aparecer? Sim. Mas milhões de pessoas estão dando sua opinião sobre qualquer coisa no mundo e é extremamente normal que a opinião de celebridades ganhe destaque.

Ao invés de reclamar do uso político internacional da Amazônia, Bolsonaro deveria se comportar como um presidente de um país importante como o Brasil. Deveria saber jogar o jogo político. É óbvio que há interesses externos em dificultar o comércio dos produtos agropecuários brasileiros, por isso mesmo o presidente e o chanceler precisam saber jogar. E os nossos atuais não sabem.

O Brasil não precisa obedecer ordem de país nenhum? Não precisa. Mas a União Europeia também não precisa comprar os produtos brasileiros. Temos concorrentes no mundo.

Bolsonaro facilita a vida dos adversários agrícolas do Brasil com sua retórica nacionalista burra. Trata-se de uma situação delicada do país no cenário internacional e a única coisa que o presidente sabe fazer é jogar para o seu eleitorado fanático.

A bancada ruralista conta com mais de 200 deputados. Bolsonaro sempre trabalhou para agradá-los. Arrumar briga com os países que compram os nossos produtos não é uma forma de fazer isso…

Ataques a Freixo provam que a esquerda continua perdida

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Com as esquerdas perdidas, o centro vira a oposição a Bolsonaro

Nos últimos dois meses, nós tivemos uma aprovação da reforma da previdência que retira direitos importantes dos trabalhadores. O presidente demitiu o presidente do INPE por discordar dos números apresentados. Ele ainda decidiu indicar o filho para a embaixada nos Estados Unidos, atacou a honra do presidente da OAB, completando sua agenda de atacar sistematicamente todas as instituições que não se curvam diante dele.

E as esquerdas? Continuam batendo cabeça. Se não fosse a grande imprensa (aquela mesma que perseguia o governo do PT) mostrar os absurdos do atual governo, se não fosse o centrão e, pasmem, o DEM de Rodrigo Maia colocar um freio, o bolsonarismo teria patrolado tudo em Brasília. Derrotada em 2018, as esquerdas continuam se matando…

O motim da vez é a participação do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) em um quadro do canal Quebrando o Tabu, onde ele dialogou com a deputada Janaina Pascoal (PSL-SP), a bolsonarista que foi uma das responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Janaína e Freixo, o vídeo de discórdia

Diálogo com o bolsonarismo

Freixo passou a ser atacado nas redes sociais por eleitores de esquerda, não apenas do PT e do PCO, o nanico da extrema-esquerda que funciona como um pitbull do petismo, mas também de simpatizantes do PSOL. Motivo: Freixo foi “frouxo” ao aceitar participar do programa com uma deputada bolsonarista.

A opinião dos críticos é que não deve haver diálogo com o bolsonarismo, ainda mais com uma deputada que foi a responsável pelo impeachment de Dilma Rousseff. Petistas ainda reclamaram do fato que ele não criticá-la na hora quando a bolsonarista mencionava o impeachment. Para eles, Freixo tinha a obrigação de dizer que “foi um golpe”.

Mas a principal munição usada pelos críticos contra Freixo foi um tuíte de Janaína no outro dia:

Por que Freixo não errou

Os eleitores de esquerda têm razão em ficar indignados com a deputada do PSL, que na frente de Freixo tentou amenizar o discurso, mas no outro dia vai ao Twitter mostrar que não sabe respeitar os grupos de esquerda. Ela foi hipócrita em discursar por diálogo em um dia e promover o radicalismo no outro.

Pela incoerência da deputada que finge ser uma voz sensata no bolsonarismo, mas não é, o deputado Marcelo Freixo acertou em aceitar o convite do Quebrando o Tabu. Justifico em tópicos:

  • Política é a arte do diálogo. Quem tem um mandato de deputado tem a obrigação de dialogar com todas as partes. Ou ao menos, tentar isso.
  • Freixo não fugiu dos temas durante o programa, mostrou as incoerências do PSL e ainda cutucou diversas vezes a deputada mostrando que a uma moderação que ela diz ter é incompatível com o presidente.
  • Janaína costuma argumentar que a esquerda não dialoga. Que age de forma autoritária nos discursos, na imprensa, universidades. Freixo provou que não ao ir no programa. O tuíte no outro dia mostra que quem não sabe dialogar é ela.
  • É preciso dialogar além da bolha da esquerda. Uma parte considerável da população não se identifica como direita ou esquerda. É o grupo que votou no PT entre 2002 e 2014 e que migrou para o bolsonarismo em 2018 por raiva do PT. Um espaço como o Quebrando o Tabu não pode ser ignorado.

Considerações finais

As esquerdas saíram derrotadas em 2018 e a ficha ainda não caiu. Muitos analistas já apontam que a preocupação excessiva de Bolsonaro em agradar o seu núcleo mais fiel é o responsável pela baixa aprovação do presidente.

As esquerdas não podem cometer o mesmo erro. É preciso dialogar além da bolha. É preciso falar em Segurança Pública, dialogar com militares, evangélicos. É preciso dialogar com movimentos de direita. Dialogar não significa apoiar, fazer acordos. Dialogar significa levar a disputa política de volta a um nível civilizado.

Uma prova que o diálogo entre direita e esquerda é possível, que é possível fazer um debate inteligente, sem ódio, é o que o Canal My News cricou recentemente (muito melhor que o quadro do Quebrando o Tabu, que foca na polêmica pela polêmica).

Os podcasts entraram de vez na imprensa lusófona

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Jornais brasileiros e portugueses apostam no formato. Haverá retorno financeiro?

O jornal O Globo estreou na última semana o podcast “Ao Ponto”. Trata-se de um programa diário produzido pela redação do jornal, publicado sempre no começo das manhãs, onde um tema da atualidade é escolhido para ser “destrinchado”. Além dos apresentadores, há sempre a participação de repórteres do grupo e colunistas para abordar os assuntos com mais profundidade.

Muitos podem achar que o formato de Ao Ponto é uma cópia do Café da Manhã, produzido pela Folha de São Paulo em parceria com o Spotify. O formato é muito semelhante mesmo, mas não é uma obra da Folha. Na verdade, quem criou essa tendência foi o americano The New York Times em 2017. Hoje, vários jornais do mundo possuem podcasts assim e na imprensa brasileira e portuguesa está cada vez mais frequente.

Em 2018, o jornal Público, um dos mais importantes de Portugal, havia lançado o P24, de notícias diárias. O formato era um pouco diferente, um resumo de notícias com duas edições diárias. Em 2019, o podcast foi alterado para o padrão do NYT. O jornal digital português Observador apostou tanto em formato de áudio que hoje possui uma rádio inteira.

Jornalismo adapta-se ao público

A adesão dos grandes jornais do mundo aos podcasts não é uma surpresa. A grande imprensa no mundo inteiro busca se reaproximar dos públicos e não é apenas os conteúdos que estão em debate. O formato é fundamental e os jornais já perceberam o óbvio:

O público de hoje anda com um smartphone no bolso, um fone de ouvido e consome informações enquanto exerce outras atividades. O podcast acompanha os públicos em qualquer situação.

O Spotify foi a primeira das empresas de streaming de música e perceber que os públicos não escutam só música por aí. E para divulgar que o aplicativo também funciona agora com podcasts, uma parceria com a Folha foi feita no Brasil.

Vale a pena os jornalões entraram nessa área?

A dúvida é quanto a questão financeira. O formato do podcast do NYT usado por Folha e O Globo dão audiência, pois explicam assuntos importantes em poucos minutos. É barato a produção porque a maioria dos convidados são jornalistas e colunistas da própria empresa. No mundo da podosfera, os jornalões reforçam suas marcas e podem levar ouvintes para serem leitores das versões digital e até impressa desses veículos.

O desafio é financeiro porque podcasts em geral são gratuitos e esses jornais, quase todos, usam plataformas de paywall para restringir o conteúdo aos assinantes. O Café da Manhã, da Folha de São Paulo, já possui publicidade. Mas, no momento, não se enxerga outra fonte de receita para estes jornais com os podcasts.

Quais podcasts acompanhar?

Já que o assunto é podcasts jornalísticos, apresento uma lista de programas a serem acompanhados em língua portuguesa:

NOTÍCIAS DIÁRIAS

Café da Manhã (Folha) – na minha opinião o melhor podcast da atualidade
Ao Ponto (O Globo) – novidade do grupo O Globo, que têm bons colunistas , isso ajuda
Durma com Essa (Nexo) – mesmo formato dos anteriores, porém mais didático
P24 (Público) – podcast diário português. Vai direto ao ponto e acaba sendo mais curto

POLÍTICA

Politiquês (Nexo) – um programa didático sobre questões políticas
Xadrez Verbal (Central3) – revista semanal de política internacional, um dos melhores podcasts do Brasil
Foro de Teresina (Revista Piauí) – debate semanal com três temas da política brasileira por episódio
Poder Público (Público) – Debates políticos complexos e nada leves com a equipe do jornal Público.

ESPORTES

Pontapé (Central3) – mesa redonda semanal de esportes com José Trajano e Dudu Monsanto (ambos ex-ESPN)
Muito mais que futebol (Central3) –  futebol extra-campo, com Mauro Cezar Pereira

LAZER/CULTURA/ENTRETENIMENTO

Braincast (B9) – Sobre cultura digital, entretenimento, mercado de trabalho de comunicação
Thunder Radio Show (Central3) – Programa semanal do Thunderbird, sempre com um músico/banda convidado(a)
Inimigo Público (Público) – Programa do caderno semanal de humor do jornal português.
Expresso Ilustrada (Folha) – Podcast do caderno Ilustrada. Um assunto diferente por semana

OUTROS

Mamilos (B9) – Podcast sobre assuntos polêmicos tratados de forma profunda, sempre com profissionais.
Fronteiras Invisíveis do Futebol (Central3) – Podcast quinzenal de história e futebol feito pelo pessoal do Xadrez Verbal. Vale muito a pena conferir.

 

 

 

 

Navios iranianos e o surrealismo brasileiro

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Porto de Imbitura no Litoral Sul de Santa Catarina

Americanismo cego pode atingir estado mais bolsonarista em 2018

Se as declarações polêmicas e absurdas proferidas pelo presidente da República fossem os únicos problemas do Brasil em 2019, estaríamos muito bem. O problema é que as loucuras vão muito além das frases. O caso dos navios iranianos na costa do Sul do país mostram o quanto um governo que prima por questões ideológicas nas relações comerciais pode prejudicar a nação.

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, somente no primeiro semestre de 2019, o Brasil exportou U$ 1,3 bilhão para o Irã, enquanto importou R$ 26 milhões, evidenciando o saldo positivo nas relações comerciais com o país do Oriente Médio. A principal troca entre os países é o Irã vender fertilizantes (ureia) e o Brasil vender milho.

O governo americano tem sanções ao Irã, mas que segundo fontes consultadas pela Revista Exame, não atingem alimentos e remédios. Ainda sim, dois navios iranianos estão parados na costa do Paraná por falta de combustível e a Petrobrás recusa-se a abastecer por causa da aproximação do governo brasileiro com os Estados Unidos.

É surreal! O Irã é sim um parceiro comercial importante para o país, um grande comprador dos produtos brasileiros, em sua maioria alimentos, o que não entra nas sanções americanas. Mas como disse o jornalista Reinaldo Azevedo, Bolsonaro é mais trumpista que o próprio Trump.

Puxa-saquismo pode atingir Santa Catarina

Além dos dois navios parados no Paraná, há outros dois na costa de Santa Catarina, que trarão ureia e levarão milho do Porto de Imbituba para o Oriente Médio. Não há no momento, riscos desses navios ficarem parados no litoral catarinense porque o porto em questão não faz abastecimento. Mas é importante ressaltar que 67 mil toneladas de milho catarinense serão carregados e vendidos ao exterior.

No início do ano, o governo brasileiro queria mudar a embaixada de Israel da cidade de Tel-Aviv para Jerusalém, em uma clara provocação a comunidade islâmica, que é uma grande importadora de produtos brasileiros. Agora, por um puxa-saquismo aos Estados Unidos maior que o solicitado pelos americanos, o Brasil arrisca-se a azedar de vez as relações com os iranianos.

Se azedar, afetará diretamente a produção agropecuária de Santa Catarina, estado que deu a maior vitória para Bolsonaro em 2018. Afetará a população inteira, mas sobretudo os produtores rurais catarinenses, que até agora foram fieis ao governo.

 

Bolsonaro lança Flávio Dino para sucessão

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Esquerda está em candidato para 2022. Ataque do presidente deu um caminho

Em qualquer análise política do cenário brasileiro atual, cientistas políticos e jornalistas eram unânimes em dizer que a esquerda não tinha candidatos para a sucessão em 2022, enquanto a direita tinha opções como extrema (com o próprio Bolsonaro), conservadora-populista (João Dória) e liberal (Luciano Huck). A esquerda não tinha! Em mais uma gafe bizonha para um presidente da República, Jair Bolsonaro conseguiu apontar um caminho para as esquerdas: Flávio Dino, governador do Maranhão, hoje no PCdoB.

O Nordeste já era o calcanhar de aquiles do bolsonarismo. Única região que deu vitória a Fernando Haddad (PT) em 2018, era de onde vinha a maior rejeição os seis primeiros meses de mandato. Sete dos nove governadores são de partidos de esquerda, tornando a região um centro anti-bolsonaro.

Ao invés de buscar formas de romper com essa barreira, Bolsonaro conseguiu fazer o contrário. Foi flagrado em um vídeo antes de uma conversas com jornalistas estrangeiros chamando todo o Nordeste de “Paraíba” e ainda atacando diretamente Flávio, que seria o “pior deles” e que o governo não deveria ter acordo nenhum.

Reações

Quais foram as reações? Uma revolta geral no Nordeste contra o presidente paulista criado no Rio de Janeiro, que chamou todos os nordestinos de “paraíba”, expressão comum entre os cariocas para mostrar um preconceito contra o Nordeste. Bolsonaro deu munição para a oposição, para seus críticos na imprensa e reforçou uma divisão entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste causado pelas últimas eleições nacionais.

Bolsonaro dificulta a vida dos seus aliados no Nordeste, que fiéis são poucos. Muitos dos que hoje não fazem oposição ao seu governo, a maioria políticos do Centrão, podem muito bem trocar de lado se perceberem que suas bases eleitorais estão ainda mais descontentes com o governo.

Flávio Dino

Governador do Maranhão em segundo mandato, Dino já teve a proeza de derrotar a família Sarney dentro do estado de origem do clã. Reeleito com mais de 70% no primeiro turno e com uma das melhores avaliações do Brasil, Dino já se assanhava com a possibilidade de disputar o Planalto em 2022. Participava de entrevistas no eixo Rio-São Paulo para nacionalizar seu nome e algumas de suas ações no governo foram feitas milimetricamente ajustadas contra Brasília como o anúncio de mais investimentos nas universidades estaduais do Maranhão, em contraponto aos cortes feitos pelo Ministério da Educação.

Contra Dino pesavam dois fatores importantes para não ser o candidato da centro-esquerda em 2022: a filiação ao PCdoB, um partido frágil que se quer conseguiu ultrapassar a cláusula de barreira em 2018 e a baixa projeção que o governo do Maranhão dá em termos nacionais. Graças a Bolsonaro, o segundo ponto poderá ser resolvido.

Ser atacado pessoalmente por Bolsonaro dentro de uma fala preconceituosa e desastrada era tudo que Dino precisava para impulsionar o seu nome

A favor do governador maranhense o bom trânsito com PT, PDT (inclusive Ciro Gomes), PSB, Rede e PSOL. É um nome que pode unir uma região inteira e toda a esquerda ao seu favor. Tudo isso com a ajuda de Bolsonaro, claro.

A extrema-direita é forte em SC. Mas chamar tudo de nazista não é o caminho

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A censura promovida por grupos de extrema-direita em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, que fizeram com que a organização da Feira do Livro da cidade desconvidasse a jornalista Miriam Leitão por não poder garantir a segurança dela virou debate em todo o país. No post anterior, temos um artigo exclusivamente sobre o avanço das milícias da extrema-direita, da internet para o mundo real. O post de hoje é sobre Santa Catarina.

O fato desta censura ocorrer em um estado que deu a maior vitória a Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições do ano passado, com direito a 5 deputados federais (de 16) e o governo estadual (Carlos Moisés também é PSL) fizeram com que o Estado ficasse conhecido como reduto bolsonarista, de extrema-direita. Alguns, como o filósofo Paulo Ghiraldelli, foram além e lembraram a simpatia de alguns moradores de regiões catarinenses com o nazismo. Como catarinense progressista, entendo que é preciso esclarecer alguns pontos.

1 – O bolsonarismo é forte, mas vem de cima

De fato, não foi apenas a vitória nas eleições. O bolsonarismo continua forte em Santa Catarina. As esquerdas estão desarticuladas e a centro-direita se apequenou durante o processo eleitoral do ano passado. Porém, é preciso entender algumas coisas. Houve uma grande pressão empresarial a favor do candidato do PSL nas eleições do ano passado no Estado.

Além do famoso caso de Luciano Hang, proprietário da Havan que gravou um vídeo “orientando” os funcionários a votar 17 nas urnas, há muitos outros casos de assédio eleitoral de empresários. Só que os outros não são midiáticos como Hang e não gravaram vídeos, fizeram isso em eventos mais discretos. Eu recebi um vídeo de uma cidade próxima a Blumenau onde o proprietário praticamente obrigava os funcionários a votar contra o PT.

Santa Catarina foi o estado que mais recebeu denúncias de assédio eleitoral no Ministério do Trabalho durante as eleições. Isso é importante e precisa ser destacado. Diferente de outras regiões onde o bolsonarismo tem origem em camadas mais populares, em Santa Catarina houve uma forte e influente campanha de empresários. Isso ajuda a conter manifestações contrárias. Muitos jaraguaenses estão revoltados com o caso Miriam Leitão, mas não vão se manifestar por temerem seus empregos.

2 – Extrema-direita sim, nazismo não

É preciso acabar com a fábula que toda a extrema-direita é nazista. Os movimentos autoritários de direita são diversos e não é porque Santa Catarina forte influência da colonização alemã que a extrema-direita estadual é toda nazista. Uma prova disso é que o movimento O Sul é o Meu País perdeu a pouca relevância que tinha após a eleição de Bolsonaro. Muitos só apoiaram a causa porque o PT estava em Brasília. Quando entrou a direita, abandonaram o barco.

Com o nazismo é igual. Muitos em Blumenau, Pomerode, Jaraguá, só se diziam nazistas quando o PT estava no poder. Agora eles são nacionalistas brasileiros com orgulho. Chamar todo bolsonarista de nazista é caricaturar a extrema-direita e isso não dá resultado nenhum. É uma minoria, uma meia dúzia de cidadãos que ainda fazem apologia ao regime, mas o número pode aumentar se colocarmos tudo no mesmo saco. O bolsonarismo é uma extrema-direita com características próprias, precisa ser combatido a partir do que ele realmente é, sem precisar de rótulos adicionais.

3 – Santa Catarina já deu 70% ao Lula. Blumenau já foi governada pelo PT

Se em 2018 Santa Catarina deu a maior vitória a Bolsonaro entre os estados, em 2002 o fato se repetiu a favor de Lula. O candidato do PT chegou a 70% dos votos e só foi ultrapassado no segundo turno pelo Rio de Janeiro, que tinha Garotinho como presidenciável no primeiro.

Na época, Blumenau, a terceira maior cidade de Santa Catarina era governada pelo PT, que teve Décio Lima prefeito entre 1997 e 2004. Itajaí, Joinville, Criciúma e Chapecó, cidades importantes do Estado, também já estiveram nas mãos dos PT. Florianópolis esteve nas mãos do PPS quando este ainda era um partido de centro-esquerda.

Se Santa Catarina fosse um estado tradicionalmente fascista, isso jamais teria acontecido. O que é fato: os catarinenses odeiam Brasília e possuem um sentimento de abandono/traição junto à União. O povo de SC já teve raiva do governo Fernando Henrique e depois passou a ter raiva dos governos do PT. Se Bolsonaro não atender as reivindicações estaduais, também virará alvo, mesmo que demore.

Outro caminho

É fácil tachar Santa Catarina como um estado fascista. Trabalha-se com esteriótipos que também são usados pelos catarinenses da extrema-direita para atacar o Nordeste.

Atacar tradições do estado, sua história e colonização definitivamente não é o caminho para derrotar a extrema-direita em Santa Catarina.

O caminho, talvez, seja o oposto. Resgatar a verdadeira história do Estado. De imigrantes italianos que fugiram da fome e da tirania de governos. Do surgimento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, do fato de hoje termos uma agropecuária predominantemente familiar. A Alemanha atual, não a de 1933, também pode ser um bom exemplo. Empresários que cresceram a base de sonegação de impostos e ajudas volumosas do BNDES para depois cuspir no prato não precisam, não devem ser o exemplo de sucesso. Temos coisas melhores para mostrar.