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Ataques a Freixo provam que a esquerda continua perdida

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Com as esquerdas perdidas, o centro vira a oposição a Bolsonaro

Nos últimos dois meses, nós tivemos uma aprovação da reforma da previdência que retira direitos importantes dos trabalhadores. O presidente demitiu o presidente do INPE por discordar dos números apresentados. Ele ainda decidiu indicar o filho para a embaixada nos Estados Unidos, atacou a honra do presidente da OAB, completando sua agenda de atacar sistematicamente todas as instituições que não se curvam diante dele.

E as esquerdas? Continuam batendo cabeça. Se não fosse a grande imprensa (aquela mesma que perseguia o governo do PT) mostrar os absurdos do atual governo, se não fosse o centrão e, pasmem, o DEM de Rodrigo Maia colocar um freio, o bolsonarismo teria patrolado tudo em Brasília. Derrotada em 2018, as esquerdas continuam se matando…

O motim da vez é a participação do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) em um quadro do canal Quebrando o Tabu, onde ele dialogou com a deputada Janaina Pascoal (PSL-SP), a bolsonarista que foi uma das responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Janaína e Freixo, o vídeo de discórdia

Diálogo com o bolsonarismo

Freixo passou a ser atacado nas redes sociais por eleitores de esquerda, não apenas do PT e do PCO, o nanico da extrema-esquerda que funciona como um pitbull do petismo, mas também de simpatizantes do PSOL. Motivo: Freixo foi “frouxo” ao aceitar participar do programa com uma deputada bolsonarista.

A opinião dos críticos é que não deve haver diálogo com o bolsonarismo, ainda mais com uma deputada que foi a responsável pelo impeachment de Dilma Rousseff. Petistas ainda reclamaram do fato que ele não criticá-la na hora quando a bolsonarista mencionava o impeachment. Para eles, Freixo tinha a obrigação de dizer que “foi um golpe”.

Mas a principal munição usada pelos críticos contra Freixo foi um tuíte de Janaína no outro dia:

Por que Freixo não errou

Os eleitores de esquerda têm razão em ficar indignados com a deputada do PSL, que na frente de Freixo tentou amenizar o discurso, mas no outro dia vai ao Twitter mostrar que não sabe respeitar os grupos de esquerda. Ela foi hipócrita em discursar por diálogo em um dia e promover o radicalismo no outro.

Pela incoerência da deputada que finge ser uma voz sensata no bolsonarismo, mas não é, o deputado Marcelo Freixo acertou em aceitar o convite do Quebrando o Tabu. Justifico em tópicos:

  • Política é a arte do diálogo. Quem tem um mandato de deputado tem a obrigação de dialogar com todas as partes. Ou ao menos, tentar isso.
  • Freixo não fugiu dos temas durante o programa, mostrou as incoerências do PSL e ainda cutucou diversas vezes a deputada mostrando que a uma moderação que ela diz ter é incompatível com o presidente.
  • Janaína costuma argumentar que a esquerda não dialoga. Que age de forma autoritária nos discursos, na imprensa, universidades. Freixo provou que não ao ir no programa. O tuíte no outro dia mostra que quem não sabe dialogar é ela.
  • É preciso dialogar além da bolha da esquerda. Uma parte considerável da população não se identifica como direita ou esquerda. É o grupo que votou no PT entre 2002 e 2014 e que migrou para o bolsonarismo em 2018 por raiva do PT. Um espaço como o Quebrando o Tabu não pode ser ignorado.

Considerações finais

As esquerdas saíram derrotadas em 2018 e a ficha ainda não caiu. Muitos analistas já apontam que a preocupação excessiva de Bolsonaro em agradar o seu núcleo mais fiel é o responsável pela baixa aprovação do presidente.

As esquerdas não podem cometer o mesmo erro. É preciso dialogar além da bolha. É preciso falar em Segurança Pública, dialogar com militares, evangélicos. É preciso dialogar com movimentos de direita. Dialogar não significa apoiar, fazer acordos. Dialogar significa levar a disputa política de volta a um nível civilizado.

Uma prova que o diálogo entre direita e esquerda é possível, que é possível fazer um debate inteligente, sem ódio, é o que o Canal My News cricou recentemente (muito melhor que o quadro do Quebrando o Tabu, que foca na polêmica pela polêmica).

Os podcasts entraram de vez na imprensa lusófona

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Jornais brasileiros e portugueses apostam no formato. Haverá retorno financeiro?

O jornal O Globo estreou na última semana o podcast “Ao Ponto”. Trata-se de um programa diário produzido pela redação do jornal, publicado sempre no começo das manhãs, onde um tema da atualidade é escolhido para ser “destrinchado”. Além dos apresentadores, há sempre a participação de repórteres do grupo e colunistas para abordar os assuntos com mais profundidade.

Muitos podem achar que o formato de Ao Ponto é uma cópia do Café da Manhã, produzido pela Folha de São Paulo em parceria com o Spotify. O formato é muito semelhante mesmo, mas não é uma obra da Folha. Na verdade, quem criou essa tendência foi o americano The New York Times em 2017. Hoje, vários jornais do mundo possuem podcasts assim e na imprensa brasileira e portuguesa está cada vez mais frequente.

Em 2018, o jornal Público, um dos mais importantes de Portugal, havia lançado o P24, de notícias diárias. O formato era um pouco diferente, um resumo de notícias com duas edições diárias. Em 2019, o podcast foi alterado para o padrão do NYT. O jornal digital português Observador apostou tanto em formato de áudio que hoje possui uma rádio inteira.

Jornalismo adapta-se ao público

A adesão dos grandes jornais do mundo aos podcasts não é uma surpresa. A grande imprensa no mundo inteiro busca se reaproximar dos públicos e não é apenas os conteúdos que estão em debate. O formato é fundamental e os jornais já perceberam o óbvio:

O público de hoje anda com um smartphone no bolso, um fone de ouvido e consome informações enquanto exerce outras atividades. O podcast acompanha os públicos em qualquer situação.

O Spotify foi a primeira das empresas de streaming de música e perceber que os públicos não escutam só música por aí. E para divulgar que o aplicativo também funciona agora com podcasts, uma parceria com a Folha foi feita no Brasil.

Vale a pena os jornalões entraram nessa área?

A dúvida é quanto a questão financeira. O formato do podcast do NYT usado por Folha e O Globo dão audiência, pois explicam assuntos importantes em poucos minutos. É barato a produção porque a maioria dos convidados são jornalistas e colunistas da própria empresa. No mundo da podosfera, os jornalões reforçam suas marcas e podem levar ouvintes para serem leitores das versões digital e até impressa desses veículos.

O desafio é financeiro porque podcasts em geral são gratuitos e esses jornais, quase todos, usam plataformas de paywall para restringir o conteúdo aos assinantes. O Café da Manhã, da Folha de São Paulo, já possui publicidade. Mas, no momento, não se enxerga outra fonte de receita para estes jornais com os podcasts.

Quais podcasts acompanhar?

Já que o assunto é podcasts jornalísticos, apresento uma lista de programas a serem acompanhados em língua portuguesa:

NOTÍCIAS DIÁRIAS

Café da Manhã (Folha) – na minha opinião o melhor podcast da atualidade
Ao Ponto (O Globo) – novidade do grupo O Globo, que têm bons colunistas , isso ajuda
Durma com Essa (Nexo) – mesmo formato dos anteriores, porém mais didático
P24 (Público) – podcast diário português. Vai direto ao ponto e acaba sendo mais curto

POLÍTICA

Politiquês (Nexo) – um programa didático sobre questões políticas
Xadrez Verbal (Central3) – revista semanal de política internacional, um dos melhores podcasts do Brasil
Foro de Teresina (Revista Piauí) – debate semanal com três temas da política brasileira por episódio
Poder Público (Público) – Debates políticos complexos e nada leves com a equipe do jornal Público.

ESPORTES

Pontapé (Central3) – mesa redonda semanal de esportes com José Trajano e Dudu Monsanto (ambos ex-ESPN)
Muito mais que futebol (Central3) –  futebol extra-campo, com Mauro Cezar Pereira

LAZER/CULTURA/ENTRETENIMENTO

Braincast (B9) – Sobre cultura digital, entretenimento, mercado de trabalho de comunicação
Thunder Radio Show (Central3) – Programa semanal do Thunderbird, sempre com um músico/banda convidado(a)
Inimigo Público (Público) – Programa do caderno semanal de humor do jornal português.
Expresso Ilustrada (Folha) – Podcast do caderno Ilustrada. Um assunto diferente por semana

OUTROS

Mamilos (B9) – Podcast sobre assuntos polêmicos tratados de forma profunda, sempre com profissionais.
Fronteiras Invisíveis do Futebol (Central3) – Podcast quinzenal de história e futebol feito pelo pessoal do Xadrez Verbal. Vale muito a pena conferir.

 

 

 

 

Navios iranianos e o surrealismo brasileiro

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Porto de Imbitura no Litoral Sul de Santa Catarina

Americanismo cego pode atingir estado mais bolsonarista em 2018

Se as declarações polêmicas e absurdas proferidas pelo presidente da República fossem os únicos problemas do Brasil em 2019, estaríamos muito bem. O problema é que as loucuras vão muito além das frases. O caso dos navios iranianos na costa do Sul do país mostram o quanto um governo que prima por questões ideológicas nas relações comerciais pode prejudicar a nação.

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, somente no primeiro semestre de 2019, o Brasil exportou U$ 1,3 bilhão para o Irã, enquanto importou R$ 26 milhões, evidenciando o saldo positivo nas relações comerciais com o país do Oriente Médio. A principal troca entre os países é o Irã vender fertilizantes (ureia) e o Brasil vender milho.

O governo americano tem sanções ao Irã, mas que segundo fontes consultadas pela Revista Exame, não atingem alimentos e remédios. Ainda sim, dois navios iranianos estão parados na costa do Paraná por falta de combustível e a Petrobrás recusa-se a abastecer por causa da aproximação do governo brasileiro com os Estados Unidos.

É surreal! O Irã é sim um parceiro comercial importante para o país, um grande comprador dos produtos brasileiros, em sua maioria alimentos, o que não entra nas sanções americanas. Mas como disse o jornalista Reinaldo Azevedo, Bolsonaro é mais trumpista que o próprio Trump.

Puxa-saquismo pode atingir Santa Catarina

Além dos dois navios parados no Paraná, há outros dois na costa de Santa Catarina, que trarão ureia e levarão milho do Porto de Imbituba para o Oriente Médio. Não há no momento, riscos desses navios ficarem parados no litoral catarinense porque o porto em questão não faz abastecimento. Mas é importante ressaltar que 67 mil toneladas de milho catarinense serão carregados e vendidos ao exterior.

No início do ano, o governo brasileiro queria mudar a embaixada de Israel da cidade de Tel-Aviv para Jerusalém, em uma clara provocação a comunidade islâmica, que é uma grande importadora de produtos brasileiros. Agora, por um puxa-saquismo aos Estados Unidos maior que o solicitado pelos americanos, o Brasil arrisca-se a azedar de vez as relações com os iranianos.

Se azedar, afetará diretamente a produção agropecuária de Santa Catarina, estado que deu a maior vitória para Bolsonaro em 2018. Afetará a população inteira, mas sobretudo os produtores rurais catarinenses, que até agora foram fieis ao governo.

 

Bolsonaro lança Flávio Dino para sucessão

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Esquerda está em candidato para 2022. Ataque do presidente deu um caminho

Em qualquer análise política do cenário brasileiro atual, cientistas políticos e jornalistas eram unânimes em dizer que a esquerda não tinha candidatos para a sucessão em 2022, enquanto a direita tinha opções como extrema (com o próprio Bolsonaro), conservadora-populista (João Dória) e liberal (Luciano Huck). A esquerda não tinha! Em mais uma gafe bizonha para um presidente da República, Jair Bolsonaro conseguiu apontar um caminho para as esquerdas: Flávio Dino, governador do Maranhão, hoje no PCdoB.

O Nordeste já era o calcanhar de aquiles do bolsonarismo. Única região que deu vitória a Fernando Haddad (PT) em 2018, era de onde vinha a maior rejeição os seis primeiros meses de mandato. Sete dos nove governadores são de partidos de esquerda, tornando a região um centro anti-bolsonaro.

Ao invés de buscar formas de romper com essa barreira, Bolsonaro conseguiu fazer o contrário. Foi flagrado em um vídeo antes de uma conversas com jornalistas estrangeiros chamando todo o Nordeste de “Paraíba” e ainda atacando diretamente Flávio, que seria o “pior deles” e que o governo não deveria ter acordo nenhum.

Reações

Quais foram as reações? Uma revolta geral no Nordeste contra o presidente paulista criado no Rio de Janeiro, que chamou todos os nordestinos de “paraíba”, expressão comum entre os cariocas para mostrar um preconceito contra o Nordeste. Bolsonaro deu munição para a oposição, para seus críticos na imprensa e reforçou uma divisão entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste causado pelas últimas eleições nacionais.

Bolsonaro dificulta a vida dos seus aliados no Nordeste, que fiéis são poucos. Muitos dos que hoje não fazem oposição ao seu governo, a maioria políticos do Centrão, podem muito bem trocar de lado se perceberem que suas bases eleitorais estão ainda mais descontentes com o governo.

Flávio Dino

Governador do Maranhão em segundo mandato, Dino já teve a proeza de derrotar a família Sarney dentro do estado de origem do clã. Reeleito com mais de 70% no primeiro turno e com uma das melhores avaliações do Brasil, Dino já se assanhava com a possibilidade de disputar o Planalto em 2022. Participava de entrevistas no eixo Rio-São Paulo para nacionalizar seu nome e algumas de suas ações no governo foram feitas milimetricamente ajustadas contra Brasília como o anúncio de mais investimentos nas universidades estaduais do Maranhão, em contraponto aos cortes feitos pelo Ministério da Educação.

Contra Dino pesavam dois fatores importantes para não ser o candidato da centro-esquerda em 2022: a filiação ao PCdoB, um partido frágil que se quer conseguiu ultrapassar a cláusula de barreira em 2018 e a baixa projeção que o governo do Maranhão dá em termos nacionais. Graças a Bolsonaro, o segundo ponto poderá ser resolvido.

Ser atacado pessoalmente por Bolsonaro dentro de uma fala preconceituosa e desastrada era tudo que Dino precisava para impulsionar o seu nome

A favor do governador maranhense o bom trânsito com PT, PDT (inclusive Ciro Gomes), PSB, Rede e PSOL. É um nome que pode unir uma região inteira e toda a esquerda ao seu favor. Tudo isso com a ajuda de Bolsonaro, claro.

A extrema-direita é forte em SC. Mas chamar tudo de nazista não é o caminho

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A censura promovida por grupos de extrema-direita em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, que fizeram com que a organização da Feira do Livro da cidade desconvidasse a jornalista Miriam Leitão por não poder garantir a segurança dela virou debate em todo o país. No post anterior, temos um artigo exclusivamente sobre o avanço das milícias da extrema-direita, da internet para o mundo real. O post de hoje é sobre Santa Catarina.

O fato desta censura ocorrer em um estado que deu a maior vitória a Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições do ano passado, com direito a 5 deputados federais (de 16) e o governo estadual (Carlos Moisés também é PSL) fizeram com que o Estado ficasse conhecido como reduto bolsonarista, de extrema-direita. Alguns, como o filósofo Paulo Ghiraldelli, foram além e lembraram a simpatia de alguns moradores de regiões catarinenses com o nazismo. Como catarinense progressista, entendo que é preciso esclarecer alguns pontos.

1 – O bolsonarismo é forte, mas vem de cima

De fato, não foi apenas a vitória nas eleições. O bolsonarismo continua forte em Santa Catarina. As esquerdas estão desarticuladas e a centro-direita se apequenou durante o processo eleitoral do ano passado. Porém, é preciso entender algumas coisas. Houve uma grande pressão empresarial a favor do candidato do PSL nas eleições do ano passado no Estado.

Além do famoso caso de Luciano Hang, proprietário da Havan que gravou um vídeo “orientando” os funcionários a votar 17 nas urnas, há muitos outros casos de assédio eleitoral de empresários. Só que os outros não são midiáticos como Hang e não gravaram vídeos, fizeram isso em eventos mais discretos. Eu recebi um vídeo de uma cidade próxima a Blumenau onde o proprietário praticamente obrigava os funcionários a votar contra o PT.

Santa Catarina foi o estado que mais recebeu denúncias de assédio eleitoral no Ministério do Trabalho durante as eleições. Isso é importante e precisa ser destacado. Diferente de outras regiões onde o bolsonarismo tem origem em camadas mais populares, em Santa Catarina houve uma forte e influente campanha de empresários. Isso ajuda a conter manifestações contrárias. Muitos jaraguaenses estão revoltados com o caso Miriam Leitão, mas não vão se manifestar por temerem seus empregos.

2 – Extrema-direita sim, nazismo não

É preciso acabar com a fábula que toda a extrema-direita é nazista. Os movimentos autoritários de direita são diversos e não é porque Santa Catarina forte influência da colonização alemã que a extrema-direita estadual é toda nazista. Uma prova disso é que o movimento O Sul é o Meu País perdeu a pouca relevância que tinha após a eleição de Bolsonaro. Muitos só apoiaram a causa porque o PT estava em Brasília. Quando entrou a direita, abandonaram o barco.

Com o nazismo é igual. Muitos em Blumenau, Pomerode, Jaraguá, só se diziam nazistas quando o PT estava no poder. Agora eles são nacionalistas brasileiros com orgulho. Chamar todo bolsonarista de nazista é caricaturar a extrema-direita e isso não dá resultado nenhum. É uma minoria, uma meia dúzia de cidadãos que ainda fazem apologia ao regime, mas o número pode aumentar se colocarmos tudo no mesmo saco. O bolsonarismo é uma extrema-direita com características próprias, precisa ser combatido a partir do que ele realmente é, sem precisar de rótulos adicionais.

3 – Santa Catarina já deu 70% ao Lula. Blumenau já foi governada pelo PT

Se em 2018 Santa Catarina deu a maior vitória a Bolsonaro entre os estados, em 2002 o fato se repetiu a favor de Lula. O candidato do PT chegou a 70% dos votos e só foi ultrapassado no segundo turno pelo Rio de Janeiro, que tinha Garotinho como presidenciável no primeiro.

Na época, Blumenau, a terceira maior cidade de Santa Catarina era governada pelo PT, que teve Décio Lima prefeito entre 1997 e 2004. Itajaí, Joinville, Criciúma e Chapecó, cidades importantes do Estado, também já estiveram nas mãos dos PT. Florianópolis esteve nas mãos do PPS quando este ainda era um partido de centro-esquerda.

Se Santa Catarina fosse um estado tradicionalmente fascista, isso jamais teria acontecido. O que é fato: os catarinenses odeiam Brasília e possuem um sentimento de abandono/traição junto à União. O povo de SC já teve raiva do governo Fernando Henrique e depois passou a ter raiva dos governos do PT. Se Bolsonaro não atender as reivindicações estaduais, também virará alvo, mesmo que demore.

Outro caminho

É fácil tachar Santa Catarina como um estado fascista. Trabalha-se com esteriótipos que também são usados pelos catarinenses da extrema-direita para atacar o Nordeste.

Atacar tradições do estado, sua história e colonização definitivamente não é o caminho para derrotar a extrema-direita em Santa Catarina.

O caminho, talvez, seja o oposto. Resgatar a verdadeira história do Estado. De imigrantes italianos que fugiram da fome e da tirania de governos. Do surgimento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, do fato de hoje termos uma agropecuária predominantemente familiar. A Alemanha atual, não a de 1933, também pode ser um bom exemplo. Empresários que cresceram a base de sonegação de impostos e ajudas volumosas do BNDES para depois cuspir no prato não precisam, não devem ser o exemplo de sucesso. Temos coisas melhores para mostrar.

 

A censura a Miriam Leitão em Santa Catarina assusta

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Feira desconvidou a jornalista por causa de ameaças de morte

A jornalista das Organizações Globo Miriam Leitão era apenas uma das convidadas para a Feira do Livro de Jaraguá do Sul, uma das mais tradicionais do Estado de Santa Catarina. Jornalista famosa no Brasil por comentários de Economia, ela iria para o Norte catarinense como autores de sete livros, dois deles vencedores do Prêmio Jabuti.

Crítica dos governos do PT, onde chegou a ser chamada de urubóloga por um jornalista/blogueiro de esquerda, Miriam também era crítica do atual governo. Sua presença em Jaraguá do Sul, município que deu quase 90% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno, seria marcada com polêmicas em redes sociais e nos comentários de sites de jornais. Tudo certo ate aí.

Até mesmo um abaixo-assinado pedindo a não presença da jornalista e do sociólogo Sérgio Abranches seria normal em um período conturbado da política brasileira. Mas o que aconteceu foi muito além disso. E o fato mais preocupante do que se possa pensar.

Ameaças

Segundo o escritor Carlos Henrique Schroeder, coordenador artístico da Feira do Livro, não foi apenas uma petição online e críticas em redes sociais. Foi um verdadeiro bombardeio que incluía ameaças de morte a jornalista. Sem condições de garantir a segurança da convidada, a organização do evento optou por desconvidá-la, situação semelhante do sociólogo.

“A Feira do Livro sempre foi um evento para as crianças e para famílias. Por causa da característica truculenta, intimidadora e ameaçadora de mensagens recebidas, decidimos cancelar parte da programação para proteger a integridade física dos convidados e o bem estar do público”, afirmou Schroeder para a jornalista Dagmara Spautz, do grupo NSC (leia entrevista completa aqui).

Miriam não é a única jornalista a ser alvo da extrema-direita em eventos culturais. Recentemente grupos extremistas tentaram atrapalhar a palestra do americano Glenn Greenwald, do The Intercept Brasil, na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) no Estado do Rio de Janeiro. O grupo tentou impedir a palestra com carros de som.

Fora de controle

Se a sociedade brasileira não quer se assemelhar com países ditatoriais de outros continentes onde jornalistas são mortos por discordarem do governo, alguma coisa precisa ser feita. Em várias ditaduras pelo mundo, a opressão contra quem discorda do governo vem de agentes do estado. No Brasil, não. Essas atitudes não partem do governo e sim de simpatizantes dele. É uma milícia que se organiza pela internet para caçar quem pensa contra. Eles começaram com linchamentos virtuais e agora levaram para o mundo real.

Eram mais de três mil assinaturas na petição que pedia a censura a jornalista. Provavelmente muitos não eram de Jaraguá e região, muitos nem reais eram. Porém, quem garantia que não haveria malucos entrando na feira para impedir a palestra dela? Quem não garante que poderia entrar alguém armado?

Governos populistas simpatizantes de ditaduras não sabem lidar com jornalistas, com o contraditório, com críticas. Neste caso, alinho-me aos conservadores (de verdade) que defendem que o fortalecimento das instituições serve com freio para estes populismos. Governos simpatizantes de regimes autoritários são comuns na democracia e a vigilância eterna ajuda a combater as insanidades.

O que vemos no Brasil assusta ainda mais porque a iniciativa vem da sociedade. O governo apoia, incentiva com suas ideias e projetos? Sim, mas a iniciativa vem realmente de grupos organizados na internet. Foram essas milícias que elegeram o governo e não o governo que ajudou eles.

Em alta com a eleição de Bolsonaro, as milícias virtuais da extrema-direita ganham terreno no mundo real. Se você é de direita, se você não gosta das esquerdas e por isso não se preocupa com o que está acontecendo, pense que uma reação igual pode ocorrer. Se grupos anti-bolsonaristas se comportarem da mesma forma, qualquer tipo de evento público estará sob risco.

É preciso fazer algo logo, com urgência.

 

 

Por que Tabata Amaral deveria ser expulsa do PDT?

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FOTO: Agência Brasil

Spoiler: não é por ela ser favorável a reforma da previdência

A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) é um dos assuntos mais comentados nas redes sociais desta semana. A jovem parlamentar do PDT era um dos destaques da Câmara dos Deputados em 2019 e ganhou notoriedade quando enfrentou o então ministro da Educação, Ricardo Vélez, em uma audiência na Casa. Já atacada por militantes de partidos como PT e PSOL por conta de algumas entrevistas, Tabata voltou ao alvo das esquerdas por votar a favor da reforma da previdência, contrariando decisão do partido. Há sim, razões para os trabalhistas expulsarem Tabata da legenda. E o motivo principal nem é especificamente a reforma.

Esse vídeo publicado pela direção nacional do PDT é a chave para a discussão deste artigo. Em março deste ano, numa convenção da legenda, o presidente Carlos Lupi propõe que os brizolistas fechem a questão CONTRA a reforma da previdência. A proposta é aprovada por unanimidade com a presença de Tabata Amaral, que aparece no vídeo, sorrindo, ao lado de Lupi.

Um político pode mudar de ideia? Pode. Mas o mandato que um deputado possui não é mérito exclusivo seu. Com algumas exceções, os deputados federais são eleitos pela legenda. Sozinhos, não atingem o número de votos mínimo para o coeficiente eleitoral. Deputados e vereadores não chegam em seus mandatos sozinhos, só com seus votos. Chegaram em grupo, em partidos.

Tabata comunicou a direção do PDT que votaria contra a orientação partidária somente uma semana antes. Ela só mudou de ideia há 10 dias? Se mudou antes, porque não comunicou o partido? Se mudou antes, porque não abriu um debate interno no partido sobre a reforma da previdência.

A deputada tentou sim, abrir uma discussão sobre a reforma, mas fez isto pela imprensa. Ou seja, priorizou holofotes e ignorou a legenda ajudou a levá-la a Brasília.

A minha crítica sobre Tabata não é por ter apoiado a reforma. É por ter ignorado o partido que a elegeu. Ela agiu de forma individualista, agiu com infidelidade partidária.

O discurso independente

Eu duvido que o PDT vá expulsá-la. Para fazer isso, precisaria expulsar outros sete deputados que também votaram pela reforma e isso enfraqueceria muito a sigla. Mas o caso abre a oportunidade para falarmos sobre o discurso independente nos poderes legislativos.

Independente do que? Um parlamento serve para representar setores da sociedade. E o sistema político brasileiro (e de todos os outros países democráticos) é feito a partir de partidos. O partido é um norte para o eleitor saber mais ou menos como o candidato vai se portar caso seja eleito. O partido indica para o eleitor de que lado ele vai ficar nas discussões mais importantes.

Um parlamentar que diz independente do partido a qual é filiado, tem responsabilidade com quem? É falacioso o discurso que a responsabilidade é com os eleitores. Ora, um deputado não sabe quem foi que votou em si, no máximo conhece uma militância mais próxima e aguerrida.

Fidelidade partidária

Para quem acha que fidelidade partidária é bobagem, lembramos que o tal centrão, o grupo de partidos fisiológicos tem como característica a falta de um norte, uma ideologia, um caminho a seguir. São amontados de políticos “independentes” que se juntam para serem eleitos e depois para receber verbas do governo para seus cidades de origem.

Qual a diferença entre o discurso ideológico de um político clássico do centrão e um “independente”? Ambos colocam seus interesses pessoais acima de grupos políticos e não são confiáveis.

Tabata é integrante de um movimento político chamado Acredito, que elegeu diversos deputados por siglas diferentes nas últimas eleições. Todos eles votaram a favor da reforma da previdência, todos com o mesmo discurso sobre o assunto. Pergunto: porque os partidos aceitam candidatos de movimentos como o Acredito? Não há um conflito de interesses/ideias ali? Se o Acredito é homogêneo em suas ideias, porque não se torna uma partido próprio?

Se você é contra a expulsão de Tabata (que nem deve acontecer), faço a pergunta: se você fosse presidente de um partido, gostaria de ter ao seu lado uma parlamentar apoiada por um grupo externo, que ignora as posições do partido e vota como bem entender?

O que aconteceria se um deputado do NOVO votasse CONTRA a reforma, depois da sigla fechar questão a favor? Independente de você ser a favor ou contra a reforma da previdência, vamos combater esse discurso independente que ignora os partidos, que se coloca acima deles? Isso não é bom para a democracia…

Ah, e sobre a reforma em si, um artigo sobre o papel das esquerdas no processo. Confira.

A esquerda perdeu tempo na previdência. Mas ainda dá tempo

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Brasília – O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, durante sessão para votação da MPV 752/2016, no plenário da Câmara (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Não é uma questão ideológica. É uma questão de marketing político

A proposta de reforma da previdência apresentada pelo Executivo e reorganizada pelo Legislativo avançou na Câmara dos Deputados. A primeira votação foi aprovada com larga vantagem e a segunda votação também resultará em aprovação. O Senado também vai aprovar, ou seja, alguma reforma vai passar. Os partidos de esquerda não souberam lidar com o assunto, não tiveram um bom marketing político e perderam o bonde da história. Mas ainda dá tempo para arrumar. Vamos lá.

A proposta apresentada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, era o sonho do empresariado, do establishment brasileiro. Obviamente era o terror para as esquerdas, para as classes sociais mais baixas. O Centrão, formado por partidos fisiológicos no Congresso, tratou de tirar as coisas mais absurdas do texto. O presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ) assumiu a responsabilidade de aprovar uma reforma em meio as loucuras do presidente Jair Bolsonaro. E as esquerdas? Bom, as esquerdas perderam tempo.

Considerando que o sistema previdenciário brasileiro é de solidariedade, que há outras fontes de receita além do pagamento do INSS, que há muitos empresários com dívidas enormes com a previdência, podemos concluir que a tal tese do “a previdência está quebrada” não é bem assim. Porém, deve-se reconhecer duas coisas:

A população está envelhecendo. É preciso agir antes, criar idades mínimas (algumas profissões n tinham). Todos os países fizeram isso.

Várias classes sociais eram privilegiadas de forma absurda no sistema atual. Juízes, deputados, etc.

Ou seja, a reforma da previdência urgente pregada pelo establishment queria sim ferrar os trabalhadores, mas o sistema previdenciário precisa SIM passar por ajustes. E foi aí que as esquerdas erraram. Ao invés de combater os absurdos e defender alguns pontos positivos, com o teto de cinco mil reais, os partidos de esquerda fizeram oposição a qualquer tipo de reforma.

As insanidades do presidente, que nunca foi de fato um apoiador da reforma, a bagunça do governista PSL, a desarticulação política do Executivo, havia espaço para as esquerdas tomarem o protagonismo e ajustarem a reforma junto com o Centrão, ou na pior das hipóteses, enfraquece-la ao máximo.

Enquanto as esquerdas diziam REFORMA NÃO, governo, centrão, imprensa, o establishment político-empresarial do país fizeram uma gigantesca e bem-feita campanha para convencer a população que uma reforma precisava ser feita e que era melhor aceitar a do Rodrigo Maia que não ter nenhuma. Resultado, a reforma passou com facilidade na Câmara, com as esquerdas ficando com a fama de birrentas, que não sabem fazer contas, que não se atentam aos problemas fiscais do país.

Manutenção do Benefício de Prestação Continuada, Aposentadoria Rural, exclusão do sistema de capitalização, redução da idade mínima para mulheres. Essas importantes correções ficaram na conta de Rodrigo Maia, não das esquerdas.

Ainda dá tempo

Depois da paulada da votação do texto-base, as esquerdas deram uma acordada e conseguiram articular vitórias importantes na votação dos destaques. A redução de 20 para 15 como tempo de contribuição mínima para todos e a regra de transição que abaixou a idade minima para professores na ativa são conquistas importantes que vai para conta dos partidos de oposição.

E ainda dá para fazer mais. Como a segunda votação na Câmara ficou para agosto, é possível colocar novos destaques, minimizar as maldades contra os mais pobres e tornar a reforma mais aceitável. Questões relacionadas a pensões por morte, abono, entre outros possuem condições de serem aprovados. O governo continua preocupado em arrumar confusões, o presidente em colocar o filho como embaixador. Portanto…

É hora das esquerdas trocarem os ataques insanos ao texto-base da reforma, aonde já perdeu, e focar em articular com o centrão uma suavização ainda maior da proposta. A aprovação de alguns destaques na primeira votação sinalizam que é possível.

E quanto a votação de deputados da oposição em favor da reforma? Esse assunto merece um artigo próprio, especialmente sobre Tabata Amaral. Confira aqui.

O desafio de se fazer um jornalismo mais colaborativo

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WordPress e outras experiências mostram os resultados de um trabalho coletivo

Lisboa recebeu no último final de semana (18 e 19 de maio) uma edição do Wordcamp, congresso da comunidade do WordPress, a mais popular plataforma de conteúdo. Programadores e designers dominaram o evento entre os participantes, mas as lições da Wordcamp devem ser colocadas em questão na imprensa. É possível fazer um jornalismo mais colaborativo?

Cerca de 34% das páginas da internet utilizam WordPress. Se contarmos apenas as plataformas de gestão de conteúdo, o WordPress chega a dois terços da internet. Quais os segredos do sucesso deste CMS (Content Management System)? Uma plataforma fácil de usar, aplicável para qualquer tipo de proposta online, com atualização permanente e totalmente gratuita.

O WordPress é um código aberto sob de uma fundação sem fins lucrativos, mantido e atualizado por uma comunidade internacional de programadores, designers. Todo mundo pode contribuir com o desenvolvimento da ferramenta, que melhora muito a cada atualização, sem custos para instalação e uso.

Ações e resultados

Fórum para desenvolvedores, tradução, a comunidade de WordPress se organiza de forma prática. Quem quiser colaborar de algum jeito, terá espaço e orientação para fazer isso. O resultado deste trabalho colaborativo é a ferramenta cada vez melhor. O WordPress surgiu em 2003 como um blog e é hoje uma referência para qualquer tipo de página.

Hoje é possível montar blog, portais de notícias, sites institucionais e até lojas no WordPress. A comunidade garante versões em todos os idiomas e ajustes de acordo com características de cada país.

Voltamos ao jornalismo. Desnecessário falar sobre artigo sobre a crises das empresas de comunicação e a necessidade de se reinventar. Mas quem possui capital e força de trabalho para fazer as devidas inovações? Quem consegue se arriscar em um mercado cada vez mais incerto?

Experimentações interessantes

Pesquisar e propor alternativas a crise é também papel das faculdades de comunicação. As universidades, em tese, possuem condições de criar laboratórios para inovação. E sobre colaboração, destaca-se um caso da Escola de Comunicação e Mídia da Montclair State University dos Estados Unidos, relatado aqui.

Para contar histórias sobre imigração, a escola de Comunicação fez um trabalho coletivo com a partir dos estudantes e em poucos dias tinha mais de 32 matérias, programas de TV ao vivo entre outras ações. A publicação do Nieman Lab (traduzida pelo Poder 360) traz ainda outro caso da Inglaterra, onde jornais locais se uniram por uma campanha em prol de melhorias no Norte do país.

Queremos ser colaborativos?

Quanto o jornalismo deseja ser colaborativo? Qual o real interesse das empresas de mídia em colaborar entre si? Se os jornais possuem dificuldades financeiras e precisam seduzir seus públicos, por que não atuam em conjunto?

Espirito de concorrência? O grande concorrente de um jornal não é outro jornal e sim o descrédito da população pelas empresas de mídia. No artigo anterior deste blog, foi abordada a necessidade de se fazer um jornalismo ainda mais qualificado. Os argumentos apresentados pelos donos de jornais é sempre a falta de recursos para isso, mas poucos buscam saídas alternativas.

Pode fazer sentido o espirito de concorrência falar mais alto em grandes conglomerados de comunicação. Porém, quando falamos em imprensa local, o argumento se se desfaz. Um jornal pequeno tem, de fato, pouco espaço e dinheiro para inovar, mas teme demais em ousar, em colaborar. Para alguns jornais locais, o digital não é prioridade porque concorre com o impresso. Se eles não querem colaborar nem dentro da empresa, imagina fora.

Caminhos

Convencer um dono de jornal, um editor que está há 30, 40 anos fazendo jornalismo da mesma forma a mudar é realmente difícil. Porém, as soluções apresentadas neste texto podem ser aplicadas aos novos media. Convencer jornalistas independentes e pequenos novos projetos e trabalhar de forma colaborativa talvez seja a saída. Será assunto para um novo post, em breve.

O jornalismo ainda pode pautar a opinião pública

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Fazer jornalismo ficou mais difícil, porém não impossível

As discussões em torno de um impeachment do presidente Jair Bolsonaro dominaram o Twitter nesta sexta-feira (17), com a hashtag #impeachmentbolsonaro sendo a mais comentada do dia no Twitter, a principal rede social usada por políticos. Porém, não foi uma denúncia específica contra o presidente que fez com que os usuários subissem a hashtag e sim um artigo do jornalista Reinaldo Azevedo publicado no site da Folha de São Paulo.

Apesar dos primeiros meses do governo serem marcados por polêmicas e pelas investigações contra um dos filhos do presidente ter avançado nas últimas semanas, foi o artigo que fez o assunto ser abertamente discutido nas redes sociais. Outro artigo do mesmo jornalista, em seu blog no mesmo dia, também tornou-se um viral e manteve o assunto na ordem no dia. E a discussão que proponho aqui não é sobre a política partidária brasileira, é sobre o papel do jornalismo nos dias de hoje.

Foi um artigo de um jornalista (e não um digital influencer) publicado em um jornal antigo e conhecido que pautou o Twitter. Ainda no campo político, apoiadores do presidente fizeram na quarta-feira (15), mais uma campanha para o público boicotar o Jornal Nacional naquela noite. Era o dia de grandes protestos contra o governo e todos sabiam que seria esse o assunto principal do jornal. Milhares foram às ruas e os apoiadores do presidente se preocupavam com a repercussão no mais famoso telejornal brasileiro.

Canal direto com a sociedade

Os exemplos envolvendo o presidente do Brasil são simbólicos. Bolsonaro foi eleito com apenas oito segundos na TV no primeiro turno e muitos anunciaram a morte da importância da TV aberta por causa disso. O entendimento era que se o presidente foi eleito sem precisar do horário eleitoral gratuito na TV (foco total em campanhas pelo Whatsapp), as emissoras não tinham mais o poder de antigamente.

Os telejornais brasileiros falaram de Bolsonaro o tempo todo. Positivamente ou negativamente, o atual presidente foi o personagem central da cobertura do noticiário. Antes da eleição, o personagem principal do noticiário na TV era Lula, que liderava as pesquisas.

Pergunto: o marketing eleitoral de Bolsonaro ignorou a TV ou soube usá-lo ao seu favor, criando fatos que tornavam o candidato o assunto principal dos noticiários? Bolsonaro ganhou sem a ajuda da televisão ou ganhou sabendo usar a televisão ao seu favor, mesmo a principal emissora não apoiando sua candidatura?

As redes precisam do jornalismo

No interior dos Estados Unidos, o fechamento de alguns jornais locais fez com que o Facebook perdesse força nessas praças. Por que? Sem o jornalismo local para pautar os assuntos, o povo não conversava, não discutia no Facebook. As redes sociais distribuem conteúdo produzidos por terceiros, como jornais e conteúdos dos usuários.

A premissa que qualquer cidadão pode produzir material não se aplica a uma notícia de qualidade, bem produzida, com alta relevância. O bom jornalismo não possui concorrência com os cidadãos.

Voltando ao caso do começo deste artigo. Bolsonaro sempre foi assunto no Twitter e muitos já falavam em impeachment do presidente. Eis um assunto que sempre e citado em cada escândalo que surge. Porém, foi depois de um artigo jornalístico que o assunto realmente tornou-se tendência. O que Reinaldo Azevedo fez de diferente dos outros que já tinham abordado o tema na internet? Escreveu um texto bem feito e publicou na hora certa, em um jornal com alcance nacional.

Em defesa do bom jornalismo

Não se pode negar que os jornais perderam força com o surgimento de novos atores. A concorrência aumentou e a publicidade diminuiu com a distribuição sob controle de empresas como Google e Facebook, porém, pode-se afirmar que parte da crise do jornalismo tem a ver com a capacidade dos jornalistas de saberem pautar a comunidade, ter relevância nela. E isto deve ser feito fazendo um jornalismo bem feito, bem escrito, publicado na hora certa (ter o feeling).

No livro “A crise no jornalismo tem solução?”, o professor e jornalista Rogério Christofoletti destaca a necessidade de agregar valor ao produto “jornalismo”, pois a informação por si só tornou-se uma commodity.

É preciso, então, “agregar valor” ao produto jornalístico, evangelizam no jargão administrativo. Na verdade, usam-se outras palavras para designar o que antes se referia a fazer bom jornalismo. Reportagem, entrevista, nota ou qualquer produto jornalístico tem valor quando contém exclusividade, originalidade, atualidade, relevância e utilidade. É também um bom produto quando gera prazer na experiência de consumo, adiciona novidades ao conhecimento já acumulado, e quando apresenta uma satisfatória relação custo-benefício.

Saber pautar a comunidade onde atua não vai resolver a crise no jornalismo e nos jornais. A proliferação de produtores de conteúdo com a internet de hoje definitivamente aumenta as dificuldades do jornalismo ser reconhecido nas sociedades. A exigência é muito maior e o profissional precisa estar muito mais qualificado. Porém, é evidente que precisa-se ir muito além de escrever um lead para produzir algo que tenha impacto na sociedade. Para dar meras notícias, qualquer um dá.