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Quem acompanha o Twitter com regularidade já está acostumado a ler falas absurdas, mentiras espetaculares e ideias que não fazem sentido algum. A rede social é famosa por ser uma arena pública de chorume, o espaço onde pessoas descarregam raiva, ódio e frustração em qualquer assunto. Porém, em tempos de instabilidade das democracias no mundo, chama a atenção como alguns meios de comunicação normalizam falas absurdas, principalmente quando elas são proferidas por autoridades.
A ideia deste artigo é discutir dois casos: um internacional, de grande repercussão, e outro local, do interior de Portugal. O espírito crítico é tão importante para o jornalismo quanto a capacidade de escrita e a rede de contatos e fontes. Sem a crítica, o jornalismo vira uma espécie de central de assessorias de imprensa, e o jornalista, um “catador de aspas” (como se diz no Brasil) ou um “pé de microfone” (como é chamado em Portugal).
O presidente dos Estados Unidos é o exemplo máximo do usuário de Twitter que chegou ao poder. É como se um comentarista de portal de notícias no Brasil virasse presidente. Seus textos em redes sociais não são institucionais, tampouco peças cuidadosas de propaganda política. São textos de um típico twitteiro. Só que ele é o presidente da maior potência econômica e militar do planeta.
Primeiramente, Trump fez diversas ameaças ao Irã pelas redes sociais durante a guerra. É verdade que a maioria delas não foi cumprida, mas, no dia 7 de abril, ele foi além. O governante americano disse em sua rede social que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá“.
A imprensa mundial noticiou e repercutiu essa fala, mas de forma simplista. A frase “uma civilização inteira morrerá esta noite” apareceu em diversas manchetes mundo afora. Mas será que era essa a manchete? O que é mais importante: repetir ipsis litteris o que Trump falou ou destacar que o presidente dos EUA estava ameaçando fazer um genocídio?
Uma coisa é fazer uma guerra. Outra é promover um genocídio. A maior parte dos governos genocidas fez isso sem dizer que o era. Se Trump fizesse o que falou, ele teria que ser colocado na mesma prateleira de outros famosos genocidas – nomes que não é necessário mencionar (ou seria?).
O ponto aqui nem é a atitude do presidente americano. O ponto é como a imprensa naturalizou isso. Colocou uma ameaça de genocídio como mais uma frase de um presidente em guerra, como se isso fosse normal em um conflito (spoiler: não é).
O segundo caso é local e ocorreu na última sexta-feira na cidade de Coimbra. A presidente da Câmara (equivalente a prefeita em Portugal), Ana Abrunhosa, irritou-se com um jornalista da agência de notícias Lusa. O motivo? A publicação de uma reportagem crítica ao governo local que, segundo a autarca, não ouviu o “outro lado”.
Até aí, parece uma típica reclamação de político quando é atacado. O problema é que Abrunhosa retirou a confiança do jornalista. A imprensa local e, depois, a nacional repercutiu o assunto, com destaque para as manifestações em favor do jornalista por parte do sindicato dos jornalistas, associações de classe e partidos de oposição.
Mas, na primeira cobertura sobre o assunto, há dois problemas: 1. A imprensa local de Coimbra não se revoltou com a atitude da presidente. Noticiou sem um posicionamento explícito contrário. 2. Os jornais usaram a expressão da autarca – “retirar a confiança”. O problema é que uma presidente de Câmara não possui poder algum para retirar a confiança de um jornalista.
A palavra “confiança” é forte. Um primeiro-ministro que perde a confiança do parlamento cai. Em Portugal, se um governo perde um voto de confiança, o país vai a eleições. Quando Abrunhosa diz que retirou a confiança ao jornalista, dá a entender que ele pode perder direitos como profissional. Porém, isso não existe. O jornalista tem o direito de continuar a fazer seu trabalho, e, se a autarca se sentiu injustiçada, ela pode recorrer à Justiça. Ou seja, foi apenas uma frase de efeito para prejudicar a imagem do jornalista. E a imprensa publicou sem reforçar que aquilo era um absurdo
Quando Abrunhosa fala que retirou a confiança ao jornalista, dá a entender que ele pode perder direitos como profissional. Porém, isso não existe. O jornalista tem o direito de continuar a fazer o seu trabalho e se a autarca se sentiu injustiçada, ela pode recorrer à Justiça. Ou seja, foi uma frase de efeito de Abrunhosa para prejudicar a imagem do jornalista. E a imprensa publicou sem reforçar que aquilo era um absurdo.
A maior parte da imprensa internacional é contrária às posições de Trump. A maior parte da imprensa portuguesa divulgou as críticas contra a presidente da Câmara de Coimbra e deu voz a quem a ataca. Porém, a crítica aqui é à reação após o absurdo.
As manchetes não deveriam ser a frase de Trump; deveriam ser algo como “Trump ameaça genocídio contra povo iraniano”. As manchetes não deveriam repetir que Abrunhosa “retirou a confiança” a um jornalista; deveriam ser algo como “Autarca ataca liberdade de imprensa”.
Por fim, é preciso dizer que a crítica é fundamental. Se a imprensa não se posicionar diante de uma fala absurda, dará o sinal verde para que novos ataques ocorram. A imprensa internacional normalizou a ideia de um genocídio. A imprensa portuguesa normalizou uma autarca atacando um jornalista.
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