Blog do Giovanni Ramos

Quando vamos ter a CazéTV do jornalismo?

A CazéTV será a grande estrela das transmissões da Copa do Mundo deste ano. O canal da Live Mode é o único com direitos de todos os jogos do torneio. O fato consolida um novo modelo de transmissão de eventos esportivos no Brasil, um modelo cuja semente foi plantada há nove anos em Curitiba.

Sim, há nove anos. Em 2 de março de 2017, eu escrevi um artigo sobre a ida do futebol para o streaming. Athletico e Coritiba haviam brigado com a Federação Paranaense de Futebol e decidiram transmitir o clássico pelo YouTube, através dos canais dos dois clubes. Na época, apostei que aquele evento seria o pontapé para as transmissões esportivas migrarem para o streaming. E foi. Agora eu pergunto: o jornalismo pode seguir o mesmo caminho? Ou melhor, será que vamos ter a CazéTV do jornalismo?

A revolução de 2017

Primeiramente, vamos lembrar o caso de 2017. Os clubes paranenses brigaram com a federação e a transmissão online foi uma espécie de protesto. Porém, há um personagem importante nessa história: a Live Mode. Os antigos donos do canal Esporte Interativo foram os responsáveis por viabilizar a rebeldia dos clubes. Ora, estamos falando dos mesmos empresários que cinco anos depois colocaram a CazéTV no ar.

O futebol brasileiro tinha um modelo de transmissão com monopólio do Grupo Globo, que ganhava dinheiro principalmente com o Premiere, o canal exclusivo para transmissão de jogos, vendido separadamente dos planos de TV por assinatura. O Brasil já tinha internet com qualidade suficiente para transmitir eventos ao vivo online. Em 2012, o Terra transmitiu as Olimpíadas pela internet.

É verdade que a Globo já tinha a opção para assistir os jogos do Premiere pela internet. Porém, a revolução foi transmitir pelo YouTube, de graça. Por quê? Porque a internet passou a ser vista como opção de concorrência para a TV aberta também, e não apenas para a TV fechada. A transmissão não acontece apenas na plataforma da emissora, mas na rede social de vídeos onde todos estão.

O sucesso da CazéTV foi tanto que a Globo, que vem apostando muito no seu streaming (o Globoplay), cedeu e fez um canal no YouTube para concorrer com a CazéTV. A GETV entrou no ar ano passado copiando tudo que a CazéTV fez: jogos de graça no YouTube, narradores e comentaristas identificados com a linguagem digital. Um produto muito mais com a cara do YouTube do que da TV Globo.

No entanto, essa transformação ficou restrita ao esporte. No jornalismo, a Globo — e as demais emissoras — seguem operando como sempre operaram.

O jornalismo como a CazéTV

Já escrevi sobre o jornalismo no YouTube aqui no blog. Em 2021, abordei o MyNews, projeto editorial de Antonio Tabet e Mara Luquet. Criado em 2018, o MyNews foi um dos primeiros a apostar forte no ao vivo digital e, em 2021, aventurou-se por Portugal.

Em 2024, escrevi sobre ICL Notícias, UOL e Jovem Pan, que davam sinais da criação de um estilo jornalístico próprio — algo que chamei de “Jornalismo de YouTube“. Este tema está sendo pesquisado cientificamente e este ano poderemos ter um artigo acadêmico a respeito.

Porém, o ponto aqui é: nem MyNews, nem UOL, nem ICL, nem Jovem Pan chegaram ao jornalismo como a CazéTV chegou ao esporte. Não houve um case de sucesso no jornalismo audiovisual digital que mexesse com as estruturas da TV aberta no Brasil. A TV Globo não mudou seu jornalismo por causa dessas experiências. Tampouco os telejornais da Record, SBT e Band se transformaram por influência do audiovisual digital.

Em 2024, observei duas tendências no jornalismo audiovisual digital. De um lado, canais como MyNews e ICL Notícias bebem na fonte do rádio: jornais ao vivo, longos, com participação de entrevistados e opinião em tempo real. De outro, BBC Brasil e DW Brasil apostam no modelo “a la carte”: reportagens aprofundadas, de 10 minutos ou mais, atemporais, que podem ser consumidas como episódios de uma série na Netflix. Duas estratégias radicalmente diferentes — e ambas distantes do modelo tradicional do telejornal.

Talvez o caminho seja uma mistura dos dois formatos: a agilidade do rádio nos jornais ao vivo com a qualidade das reportagens pensadas para o consumo on demand. Mas não há certezas — o cenário para o jornalismo ainda é muito nebuloso.

O que falta?

A verdade é que o jornalismo continua chegando por último quando o assunto é revolução nos formatos. O cinema aprendeu a dialogar com o streaming; a música se reinventou com playlists e algoritmos; o esporte, como vimos, encontrou na CazéTV uma linguagem nova que conquistou uma geração. O jornalismo, infelizmente, ainda busca a sua.

Talvez o problema seja justamente este: enquanto os outros setores perguntaram “como o público quer consumir?”, o jornalismo insiste em perguntar “como sempre fizemos?”. E, enquanto não mudar a pergunta, a resposta continuará sendo a mesma.

Giovanni Ramos

Jornalista, professor e pesquisador.

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