O debate entre jornalismo e entretenimento vai precisar mudar
Afinal, quais os limites do jornalismo e do entretenimento? Até onde cada um vai? Uma discussão antiga da comunicação está de volta no Brasil e em Portugal. E o culpado é o mesmo: a LiveMode, dona da CazéTV (BR) e LiveModeTV (PT). A plataforma de mídia e marketing esportivo revolucionou o entretenimento esportivo e está colecionando críticos nessa Copa do Mundo de 2026. Mas será que as críticas estão certas?
O texto abaixo está dividido em três partes: 1) O que a LiveMode fez e seus críticos; 2) A separação entre jornalismo e entretenimento no esporte; 3) A reestruturação do mercado.
No momento em que este texto era produzido, a CazéTV já ultrapassava os 40,5 milhões de inscritos no YouTube, entrando no top 10 dos maiores canais do Brasil. Em Portugal, a LiveModeTV conquistou 968 mil inscritos em poucos meses, num país 20 vezes menor em população.
Primeiramente, a empresa foi criada em 2017 por Sérgio Lopes e Edgar Diniz, fundadores da TopSports (agência de marketing responsável pela marca Esporte Interativo), vendida em 2015 para a Turner Broadcast. Inicialmente, Lopes e Diniz focaram em assessoria e consultoria para organizadores de campeonatos, especialmente nas transmissões desses eventos. Depois, num trabalho junto à FIFA, a LiveMode liderou o processo de levar os jogos da Copa 2022 para a internet. Como a Globo tinha aberto mão da exclusividade, surgiu a CazéTV como um teste.
O teste, obviamente, deu certo. A parceria com o streamer Casimiro Miguel funcionou muito bem e, aos poucos, a CazéTV foi se tornando um player importante nas transmissões de eventos esportivos. Em seguida, a empresa comprou os direitos de todos os 104 jogos da Copa 2026, com exclusividade numa parte deles, enquanto o Grupo Globo adquiriu um pacote com apenas a metade dos jogos. A partir daí, começou a expansão.
No começo deste ano, a LiveMode atravessou o Atlântico e começou a atuar em Portugal. Comprou jogos (não a totalidade) da Copa para transmitir no país e abriu a LiveModeTV, com a mesma receita da CazéTV no Brasil. O jogador Cristiano Ronaldo virou acionista da empresa e deu ainda mais visibilidade ao projeto.
Os resultados são impressionantes. A CazéTV detém o recorde das maiores lives da história do YouTube e virou referência no país. A partir de agosto, vai transmitir as cinco maiores ligas da Europa para o Brasil, além do Campeonato Brasileiro. Em Portugal, a LiveModeTV tornou-se rapidamente o maior canal de desporto do país, com picos de mais de 1,5 milhões de visualizações num único jogo de Portugal e atingindo cerca de 30% dos agregados domésticos nos primeiros dias.
No Brasil, a CazéTV virou vidraça. Como se tornou o canal principal da Copa do Mundo, todo mundo começou a falar, assistir… e criticar. A publicidade excessiva de casas de apostas foi a crítica mais frequente. A ponto de a Secretaria Nacional do Consumidor abrir uma investigação sobre a transmissão e, após as críticas, a CazéTV mudar o formato, com narradores e comentaristas deixando de sugerir odds em tempo real. Além disso, o linguajar extremamente informal, com algumas palavras chulas, também foi alvo de críticas. O jeito CazéTV de transmitir eventos esportivos ainda divide o país, e a própria CBF descartou a empresa nas negociações para a Copa do Brasil, citando “fortes problemas de relacionamento”.
Em Portugal, onde a comunicação social é muito mais conservadora, o estilo LiveMode ainda causa estranhamento e críticas, a despeito do sucesso. A Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) obrigou a LiveMode a registrar a empresa como órgão de comunicação social. Mas foi dentro do jornalismo que veio o maior incômodo. Na newsletter Conversas ao Ouvido do jornal Expresso, a jornalista Joana Beleza organizou as principais críticas à LiveMode e abriu o debate: qual o espaço dos influenciadores e dos jornalistas no mercado digital?
O debate que me parece mais interessante fazer sobre a LiveMode não é tecnológico nem geracional. É um debate de cidadania. O cidadão tem o direito de ser informado, de saber quem responde pelos conteúdos que consome e de compreender onde termina o entretenimento e começa a informação.
— JOANA BELEZA, Expresso
Entretanto, a concorrência também reagiu. Em Portugal, o CEO da TVI, Pedro Morais Leitão, criticou publicamente a Google por “apoiar o arranque da LiveMode”, chamando a atenção para a falta de regulação das plataformas digitais face aos operadores tradicionais.
Afinal, o que é jornalismo esportivo e o que é entretenimento esportivo? O debate é antigo, especialmente no rádio e na televisão, formatos onde jornalismo e entretenimento dividem espaço. Com a internet, a situação tornou-se ainda mais complexa.
Os pesquisadores Silvan Menezes dos Santos, Cristiano Mezzaroba e Doralice Lange de Souza publicaram em 2017 um artigo sobre infotenimento no jornalismo. Infotenimento é justamente a mistura do jornalismo e do entretenimento. Tem carácter noticioso, mas não segue princípios do jornalismo. Por exemplo, troca-se o chamado “interesse público” por um suposto “interesse do público”, que acaba por ser o interesse comercial acima de tudo.
No infotenimento esportivo, os autores destacam o uso excessivo de humor e a ausência da crítica, especialmente com os eventos em si. Ora, se o meio de comunicação comprou (pagou) pelos direitos de transmissão, a prioridade passa a ser vender o evento para o público.
Outros autores pesquisados trazem os mesmos pontos sobre jornalismo esportivo e infotenimento: são estudos de caso que mostram como os meios (principalmente as TVs e rádios) incorrem em desvios éticos da profissão de jornalismo em prol de outros interesses.
A crítica de muitos jornalistas e pesquisadores no Brasil e em Portugal é que a LiveMode abandonou de vez os princípios do jornalismo. E é isso mesmo.
A LiveMode não enxerga as transmissões esportivas como uma linha tênue entre jornalismo e entretenimento. Eles fazem ENTRETENIMENTO E SÓ. Para a LiveMode, quem acessa o YouTube dos seus canais não quer se informar, quer se divertir, entreter-se.
Ora, ninguém assiste a um jogo de futebol para estar bem informado. É festa, é diversão. Portanto, apesar de ter alguns profissionais que são jornalistas (como repórteres e alguns comentaristas, como Rafael Oliveira), o foco ali é a diversão.
E o jornalismo? As notícias, análises, críticas, contextos? A LiveMode não pratica, e ponto. O jornalismo esportivo de fato, ao estilo da antiga ESPN, o jornalismo investigativo no esporte de Lúcio de Castro, tem seu espaço, mas não é a mesma experiência para o público que ver um jogo. São produtos diferentes para públicos e momentos diferentes.
Ao separar definitivamente jornalismo e entretenimento, a LiveMode abala o mercado brasileiro (e agora português). Em vez de discutirmos porque a empresa não faz nada de jornalismo esportivo, devemos abrir outros debates. Abaixo, alguns pontos que merecem destaque:
Por fim, é preciso dizer que a comunicação mudou, os modelos de negócios mudaram, os hábitos dos consumidores de produtos midiáticos mudaram. A LiveMode força Brasil e Portugal a reverem leis, estratégias e o próprio conceito de comunicação social como um todo. E, acima de tudo, obriga-nos a perguntar: queremos ser informados ou entretidos? E por que é que, no fundo, ainda achamos que temos de escolher?
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