Faltam reportagens no jornalismo de youtube. Imagem gerada por IA
A recente demissão do jornalista Leandro Demori colocou o ICL Notícias em destaque na mídia brasileira. Afinal, o meio de comunicação que se propagava como mais progressista adotou medidas típicas de grandes empresas. O ICL distribuiu lucros milionários aos sócios em 2025 e, este ano, fez uma reestruturação com cerca de 15 despedimentos afetando aproximadamente 30% da equipe, incluindo o diretor de jornalismo. Mas o objetivo deste artigo não é o modelo de negócios, nem a linha editorial. O foco aqui é a estrutura do jornalismo praticado pela empresa no audiovisual: o jornalismo sem reportagem.
O modelo de negócios do ICL, receitas oriundas de venda de cursos e investimentos, ausência de publicidade e dependência da monetização do YouTube, merece um artigo próprio. O debate sobre um veículo se dizer de esquerda e adotar práticas clássicas do liberalismo poderia ser outro artigo. Afinal, toda empresa é aberta visando lucro. Se o objetivo fosse outro, a natureza institucional seria outra (vide The Guardian, Revista Piauí). O que me incomoda no ICL é o formato adotado, que desprestigia a reportagem em detrimento da opinião.
Num artigo publicado em 2024, apontei as características do que chamei de “jornalismo de YouTube” no Brasil: um jornalismo audiovisual crossmedia (que pode ser consumido noutros formatos, neste caso, apenas em áudio), muito mais próximo do rádio do que da televisão tradicional, com muita informalidade, espaço excessivo para opiniões e ausência de reportagens no formato clássico.
Este tema foi estudado cientificamente e, em breve, será publicado em forma de artigo académico. Porém, vamos focar aqui numa dessas características: a falta de reportagem.
Primeiramente, é preciso deixar claro que o ICL Notícias não é somente opinião. O canal já fez alguns furos, como a entrevista com o general Braga Netto ou as revelações sobre as contas do governo Bolsonaro, entrevistas exclusivas e deu informações em primeira mão que repercutiram em toda a imprensa. Na redação da empresa há jornalistas habilitados para isso, como Juliana Dal Piva e Heloísa Vilela. E este artigo também não critica a ausência do formato tradicional de reportagem de TV, o VT (videotape) clássico de 2 ou 3 minutos.
O ponto aqui é a ausência da “cereja do bolo” do jornalismo: a reportagem longa, narrativa, as grandes histórias. Reportagens com apuração em profundidade, múltiplas fontes, narrativa estruturada e edição cuidada, que exigem dias ou semanas de trabalho. A opção do ICL é diluir as suas reportagens, as suas histórias, num programa ao vivo, em meio a MUITA OPINIÃO. Em vez de produzir uma história bem contada, com uma boa edição, a preferência é que a história seja contada ao vivo por um repórter, com muitas (excessivas) intervenções opinativas..
O jornalismo digital tem como uma das suas principais características o hibridismo. E o híbrido no jornalismo digital não é apenas no formato (vídeo, áudio, texto), mas também um hibridismo de géneros jornalísticos. Misturar opinião, notícia e reportagem é comum e não é uma prática exclusiva do ICL.
A crítica aqui é só fazer isso. O tal “jornalismo de YouTube” descrito anteriormente foca no ao vivo e despreza materiais produzidos. É um jornalismo mais fácil de produzir, porém mais pobre, que limita públicos. Ao ficar meia hora discutindo uma notícia com formadores de opinião diversos, mas todos da mesma corrente, o canal consegue segurar uma audiência fiel e manter bons números. Porém, quem porventura não concordar 100% com a opinião apresentada enxerga o conteúdo como algo exclusivo para uma militância política, e não como um jornalismo sério com uma posição política bem definida.
Portanto, ser excessivamente opinativo é um recurso para fazer um jornalismo com pouco dinheiro, que atrai público rápido, engaja, mas se prende a bolhas. A mistura de opinião com reportagem coloca em risco o principal ganho de um canal com reportagem: a credibilidade. Porque é nas grandes histórias que o jornalista se diferencia, que a qualidade aparece, onde se separa o bom jornalismo do simples, do comum.
Conforme dito no início, esse “jornalismo de YouTube” não é exclusivo do ICL. Há diversos canais com programação diária, principalmente no período da manhã, com este formato. Mas há também ótimos exemplos onde o conteúdo não factual tem espaço, onde as boas histórias aparecem. Afinal, o YouTube é uma plataforma essencialmente para conteúdos on demand, o “ao vivo” veio depois. Abaixo, três linhas diferentes de conteúdo longo, bem produzido, que vão além do “jornalismo de YouTube” descrito.
Por fim, é possível afirmar que o ICL Notícias possui um modelo de negócios interessante, pouco comum no jornalismo, e uma linha editorial que se torna exótica no Brasil por estar à esquerda. Uma reestruturação da equipa é normal em empresas de comunicação. A crítica deste blog ao projeto de Eduardo Moreira não está no facto de ele tirar os dividendos antes da mudança da lei no Brasil, nem em demitir o diretor de jornalismo. Isso faz parte do jogo.
A crítica está em produzir pouquíssimas reportagens audiovisuais, mesmo tendo na equipe nomes como Heloísa Vilela. O ICL possui condições, recursos, talento, audiência, para fazer mais e melhor. A escolha pelo caminho mais fácil, da opinião fácil, é uma escolha editorial que o enfraquece como projeto jornalístico. E é isso que, no fim, mais importa..
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