1 comunista contra 20 conservadores, 1 cristão contra 20 ateus, 1 vascaíno contra 20 flamenguistas. A nova moda da internet é o debate 1 contra 20. O formato começou nos Estados Unidos — popularizado por canais como o Jubilee — mas chegou ao Brasil através do canal Spectrum, que inaugurou o modelo em terras tupiniquins puxando influenciadores políticos para a roda. Mas, afinal, por que os debates se transformaram em um produto de entretenimento?

Esse tipo de debate lembra discussões de programas de televisão que fizeram sucesso nas décadas de 90 e 2000. Parece ser tudo muito real, mas a escolha dos 20 anônimos que vão debater contra um suposto especialista não é tão aleatória. Alguns participantes são atores que aparecem em vários programas, sobre temas diferentes. Sim, eles ganham cachê para isso. Ou alguém achava que alguém iria passar vergonha de graça?
Sim, 1 contra 20 é entretenimento
O formato se aproxima do que chamamos de staged reality (realidade encenada). Não há um roteiro fechado, mas há uma direção clara para criar confrontos e momentos “viralizáveis”. O 1 é a grande estrela. Ele escolhe os seis tópicos nos quais se preparou para falar e “enfrenta” 20 pessoas com pouco conhecimento. Sim, entre os 20 sempre há aqueles com mais capacidade de debate — é preciso dar um tom de equilíbrio. Porém, a intenção é promover o 1. Ele sempre tende a “ganhar o debate”.
Os convidados especiais também entendem o jogo. Não escolhem qualquer tópico à toa. Vão selecionar temas em que têm as frases mais prontas para serem RECORTADAS e jogadas nas redes sociais. Nada melhor que um coadjuvante qualquer para receber a “lacrada” no corte que vai viralizar. A própria organização do Spectrum faz isso, pois entende a lógica das plataformas: o corte é o produto final. O debate de duas horas é a matéria-prima; o vídeo de 60 segundos com a “lacrada” é o que realmente alimenta o algoritmo e gera engajamento.
Isso não chega ao nível de um Teste de Fidelidade do João Kleber, mas se assemelha aos “debates” do SuperPop, da Luciana Gimenez, nos quais um deputado federal pelo Rio de Janeiro ganhou fama. O resto é história. Outro ponto interessante é a gamificação. Os coadjuvantes levantarem bandeiras, com poder de cortar o debate de outro, e uma premiação no final para quem ficar mais tempo dão um tom de reality show.
Portanto, trata-se sim de um programa de entretenimento. Muito distante do que seria um debate produzido para fins jornalísticos, como os eleitorais que as TVs transmitem. Ou eles também são entretenimento?
Política como entretenimento
Primeiramente, lembro que já publiquei dois textos neste blog sobre como a política passou a ser tratada como produto de entretenimento: um sobre a Jovem Pan, em 2022, e outro sobre Pablo Marçal, em 2024. Aliás, o caso Marçal é emblemático pelo fato de ele ter transformado em entretenimento debates que deveriam ser jornalísticos.
Na verdade, a política brasileira como um todo virou entretenimento. Como a internet é o principal meio de comunicação para obter votos, as estratégias políticas se fundiram com as do marketing digital. No fim, não sabemos mais se o corte é de um político ou de um influenciador — eles usam as mesmas táticas. Ou melhor: existe alguma diferença entre deputado e influenciador hoje?
Os criadores do Spectrum, que não são jornalistas, juram querer qualificar o debate no Brasil com o projeto criado. Porém, como qualquer canal do YouTube, o Spectrum precisa de muitas visualizações, muitas viralizações. A polêmica pela polêmica é a grande atração!
E o público?
Quase todo mundo sabia que os testes de fidelidade do João Kleber eram farsas. Mesmo assim, o programa tinha muita audiência. Em tempos de polarização política extrema, a simples presença de alguns influenciadores políticos é suficiente para garantir a audiência. Será que alguém realmente se importa com os outros 20? Ou eles estão ali para serem sacos de pancada?
Além de atores, é possível que entre os 20 estejam candidatos a influenciadores, que pretendem usar o programa para fazer seus próprios cortes, mesmo que o objetivo central seja ser escada para o convidado. O fato é que os debates 1 contra 20 são apenas uma versão gamificada e mais divertida dos já cansados debates promovidos por podcasts.
Em tempos de comunicação em redes, os influenciadores precisam de novos formatos para manter a atenção de suas audiências. Foram as entrevistas e os debates nos podcasts; agora são os debates 1 contra 20 e 3×3, também produzido pelo Spectrum.
Mas a ideia original dos debates — serem um espaço para discussão e aprofundamento de ideias — esses programas não cumprem. Os programas antigos cumpriam? Os Roda Viva da vida ou os debates eleitorais da TV sempre tiveram sua dose de espetáculo e audiência. A nostalgia muitas vezes nos engana: o “debate de ideias” puro talvez nunca tenha existido na grande mídia. O que muda agora é a velocidade do corte, a escala da viralização e a sensação de participação que o espectador tem.
Bom, isso já é outro debate…