• Post publicado:23 de fevereiro de 2026
  • Tempo de leitura:6 minutos de leitura

Até quando será possível ter jornais impressos no interior?

A circulação de jornais impressos no interior de Portugal foi colocada em xeque no final do ano passado. A Vasp, empresa que detém quase um monopólio da distribuição de jornais e revistas no país, anunciou que pode deixar de fazer o serviço em oito distritos. Mas afinal, o jornalismo impresso está ameaçado no país? Talvez, o interior de todos os países. Parafraseando a famosa frase do assessor da campanha de Bill Clinton em 1992, é a circulação, estúpido.

Jornais Impressos

O rolo compressor do digital e os problemas populacionais são elementos fundamentais para entender a crise do jornalismo impresso no interior. Mas o que realmente vai inviabilizar o modelo é a complexa logística da circulação. A cada ano, as dificuldades de manutenção desta logística serão mais fortes que a tradição dos moradores do interior com o jornal em papel.

As etapas de circulação

Primeiramente, temos um problema ligado à impressão. Estamos falando de um produto caro, mesmo quando impresso em folha de jornal — um papel muito mais barato que o de revista. Ainda assim, a maioria dos jornais não possui gráfica própria: não vale a pena devido aos custos. E quando você terceiriza, surgem diversos problemas:

  • Horário da gráfica. Por ser terceirizado, o jornal fica refém da agenda alheia. O fechamento da edição precisa se adaptar ao horário da gráfica, não ao da redação. O resultado? Prejuízo no fluxo de trabalho e, muitas vezes, notícias de última hora ficam de fora.
  • Distância. Quanto mais no interior, mais longe a impressão fica dos leitores. Isso vai trazer problemas na próxima etapa: a distribuição.

Depois, temos o problema do transporte da gráfica até o centro de distribuição. Em Portugal, a maioria dos jornais grandes trabalha com a Vasp, que possui o centro de distribuição. Quem não contrata a Vasp fica à mercê dos correios (CTT), que têm outro ritmo de trabalho — e outro custo.

Por último, temos a questão do tempo. Jornal diário que não chega de manhã na casa do assinante ou na banca/quiosque vence rapidamente. Praticamente todos os jornais estão também no digital. Portanto, ou o papel chega cedo, ou é um produto que vai para o lixo.

Muitos jornais no interior de Portugal, por não terem dinheiro para contratar a Vasp, improvisam a distribuição nos quiosques com meios próprios e deixam os assinantes nas mãos dos CTT. Assim, os assinantes ficam por último no recebimento do jornal, e os jornalistas precisam fechar a edição com até dois dias de antecedência para que a logística seja possível — no caso dos semanais.

O ciclo vicioso dos jornais impressos no interior

Os custos de impressão e distribuição têm um peso significativo no valor final do produto. Custo do papel, do combustível, de equipamentos e até mesmo dos pedágios (portagens) das rodovias entram na conta. Esses custos sobem anualmente, enquanto a procura pelos jornais impressos diminui.

Agora, acrescente os problemas populacionais no interior de Portugal (e de muitos outros países), a crise do modelo de negócios do jornalismo na publicidade, o fato de as novas gerações lerem muito menos em papel — e chegamos ao ciclo vicioso dos jornais impressos.

Custos logísticos sobem (combustível, equipamentos)

Jornais precisam aumentar o preço ou cortar custos

Assinantes cancelam — o preço subiu ou o serviço piorou

Circulação cai

Receita cai

(e o ciclo recomeça)

Não só os jornais locais

A analogia do sapo na panela quente é uma ótima forma de explicar a crise do jornalismo local. Se você joga um sapo na panela com ela bem quente, ele pula na hora. Mas, se você jogá-lo com a panela fria e for esquentando aos poucos, o sapo não percebe, acostuma-se com a mudança gradual de temperatura e morre devagar, sem condições de reagir.

A cada ano, a maioria dos jornais locais perde mais um pouco de assinantes e publicidade. Porém, não ao ponto de gerar uma crise imensa. Assim, os jornais vão morrendo aos poucos, sem que os donos e jornalistas consigam reagir. No caso dos jornais locais, os gestores temem que mudanças radicais — como reduzir a periodicidade ou migrar definitivamente para o digital — afastem de vez os leitores mais tradicionais. Então vão empurrando com a barriga, até que não há mais o que empurrar.

O cenário já era ruim, e a notícia da Vasp fez uma nuvem negra se formar no horizonte do interior. Se antes o problema era o jornal local chegar ao leitor na hora certa, agora os jornais nacionais podem ficar na mesma situação.Apesar de ser um monopólio, a Vasp é uma empresa privada com fins lucrativos. A ameaça de dezembro tem um fundamento real: uma boa parte do país só traz prejuízo para a empresa. E é justamente nesses oito distritos — onde a Vasp pode parar de atuar — que se concentram os desertos de notícias em Portugal. Ou seja, comunidades sem jornal e rádio, outras com jornais com problemas de circulação e todas possivelmente sem jornais impressos nacionais.

O papel do jornais impressos no interior e em todo país no século XXI

O debate sobre o futuro do jornalismo em papel é longo, amplo e complexo. Primeiramente, varia conforme o país: Portugal possui uma tradição de leitura de jornais em papel muito superior à do Brasil, por exemplo. Ainda assim, os problemas logísticos colocam esse modelo em risco.

Talvez o debate não deva ser como manter o jornalismo impresso no interior de Portugal e de outros países. Talvez a pergunta seja QUE TIPO DE JORNALISMO IMPRESSO cabe no interior no século XXI. Mesmo com toda a tradição do papel, Portugal só possui três cidades com mais de um diário em papel: Lisboa, Braga e Coimbra. O país tem apenas 15 diários fora da capital.

Os diários são o formato mais ameaçado, por motivos óbvios. Semanário impresso e diário digital pode ser o caminho para muitos, ainda que com desafios imensos. E isso vale para as cidades maiores. No interior, em pequenos municípios com população reduzida e, muitas vezes, dispersa em diversas aldeias, a viabilidade do jornalismo impresso é ainda mais complexa.

O objetivo aqui não é um discurso antissaudosista radical, pelo fim do jornalismo em papel. No entanto, é difícil acreditar que haverá condições para que este formato permaneça como conhecemos. Com muitas direções de jornais se comportando como sapos na panela, talvez seja necessária uma intervenção externa. As universidades terão um papel fundamental nisso.

Giovanni Ramos

Jornalista, professor e pesquisador.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.