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Podcasts podem popularizar as grandes reportagens?

Narrativas no formato ganham popularidade e reforçam um tipo de jornalismo que perdia força no mundo digital

Fazer jornalismo é contar boas histórias. E, em meio a uma disputa feroz por atenção na internet, onde os conteúdos estão cada vez mais curtos e simples, os podcasts podem ser a forma de recuperar a cereja do bolo do jornalismo: a grande reportagem. A popularização de podcasts narrativos está fazendo com que as grandes reportagens, enfraquecidas no jornalismo digital, reapareçam em um formato popular.

Recentemente, mais uma grande reportagem foi publicada para o público brasileiro e português: a Coimbra Coolectiva e o jornal Público lançaram “Quem Matou Rosalina?”, um true crime sobre o assassinato de uma senhora portuguesa no Rio de Janeiro. O podcast narrativo de cinco episódios tem versão narrada por uma brasileira (Vilma Reis) e por um português (José Martins), e é distribuído também pelo jornal O Globo.

“Quem Matou Rosalina?” apenas confirma uma tendência: a aposta de jornais, inclusive originários do impresso, em fazer grandes reportagens em formato podcast narrativo. Porém, os podcasts narrativos são também uma oportunidade para pequenos meios e meios alternativos fazerem grandes reportagens com qualidade e chegarem a um grande público.

Podcasts brasileiros: reportagens que mudaram a história

rimeiramente, não há como falar de podcasts brasileiros sem falar de O Caso Evandro. Trata-se da quarta temporada do podcast Projeto Humanos, idealizado pelo jornalista Ivan Mizanzuk, focado em grandes narrativas. A primeira temporada é de 2015, sobre uma sobrevivente do Holocausto no Brasil. Porém, foi na quarta temporada, em 2018, que Mizanzuk fez história. O Caso Evandro reconta a história de um menino de 6 anos assassinado brutalmente em Guaratuba, litoral do Paraná.

Mizanzuk contou o caso, ocorrido em 1992, de forma tão envolvente que acabou por revelar gravações que expunham tortura, levando à revisão do processo e à absolvição dos condenados. O sucesso foi tão grande que O Caso Evandro virou documentário na Globoplay. O jornalista virou uma referência e hoje dá cursos de narrativas. Recentemente, anunciou uma nova temporada do Projeto Humanos, sobre o assassinato de PC Farias. Ao todo, o Projeto Humanos já teve 7 temporadas.

Outros podcasts

O Caso Evandro abriu a porteira para novos podcasts de grandes reportagens. A Rádio Novelo lançou Praia dos Ossos em 2020, sobre o assassinato de Ângela Diniz em 1977. O sucesso da narrativa gerou uma série dramática, que já estreou. A Folha de S.Paulo também apostou no formato. Em 2022, o jornalista Chico Felitti lançou A Mulher da Casa Abandonada, que liderou o ranking dos podcasts mais ouvidos do Spotify Brasil desde dois dias após o seu lançamento .

Em 2023, a revista Piauí lançou Alexandre, sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal. Criado pela jornalista Thais Bilenky (uma produção da Trovão Mídia em parceria com a Piauí), a série quebrou o estereótipo de que os podcasts narrativos são apenas sobre crimes. O UOL, onde Thais trabalha hoje, já lançou outros do gênero, incluindo Arthur Lira, sobre o presidente da Câmara, e séries sobre a primeira-dama Janja da Silva e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Podcasts portugueses: grandes reportagens diversas

Apesar de os true crimes serem a moda nos podcasts narrativos, Portugal se destaca em reportagens de outras histórias. Por aqui, o destaque é o FUMAÇA, um projeto jornalístico alternativo focado em podcasts. Destaco a reportagem “Exército de Precários“, publicada em 2021, e “Desassossego“, sobre saúde mental.

Além disso, outras reportagens de sucesso em formato podcast incluem O Sargento na Cela 7, do Observador; Alcafache, do Público; e agora, “Quem Matou Rosalina?”, que reúne reportagem transnacional, documentos e testemunhos em duas variantes da língua portuguesa.

Os podcasts portugueses mostram a flexibilidade do formato. Enquanto Desassossego teve 13 episódios, Alcafache, que conta a história do maior acidente ferroviário do país, teve apenas 3 episódios, todos relativamente curtos (menos de 30 minutos).

Números robustos

Os podcasts continuam em ascensão, não como uma febre, mas com um crescimento constante e estável. O Digital News Report, relatório anual do Instituto Reuters sobre o consumo de informação digital em mais de 40 países, apresenta dados que sustentam esta aposta:

  • 73% dos ouvintes de podcasts de notícias no mundo dizem que o formato os ajuda a compreender assuntos em maior profundidade .
  • 42% dos ouvintes regulares de podcasts de notícias dizem que estariam dispostos a pagar um preço razoável por podcasts de qualidade .

No Brasil, os podcasts de notícias já empatam com jornais impressos como fonte de informação. Em Portugal, dados do Marktest apontam que cerca de 34% dos portugueses declararam ouvir podcasts em 2025, um crescimento face a 2023 .

Os podcasts também são o formato que mais retém a atenção das audiências. A taxa de retenção de um podcast fica, em média, entre 60% e 85%. Isto é, a maioria dos ouvintes passa pelo menos da metade do programa. Isso significa que os podcasts retêm mais atenção do que outros formatos digitais, como os vídeos curtos e textos publicados em sites e blogs.

Podcasts, grandes reportagens e slow journalism

Quando foi a última vez que você leu uma grande reportagem escrita? Qual foi a última vez que você, caro leitor, leu uma reportagem em uma revista, em um jornal? O jornal que costuma ler ainda aposta em grandes reportagens? E na televisão?

Vivemos em um período de alta velocidade, de instantaneidade no consumo de informações. A dinâmica das redes sociais moldou a forma como consumimos informações. Numa disputa insana pela atenção dos usuários, cada vez mais dependentes de dopamina, os vídeos curtos (Reels, TikTok) já se tornaram a principal fonte de informação. Porém, as novas tecnologias estão apontando uma saída para que o jornalismo não fique tão curto, tão raso.

Slow journalism é o nome dado ao movimento que busca contrapor o jornalismo focado em hard news, conteúdos curtos, rápidos e rasos. A ideia? Fazer um jornalismo profundo, focado em grandes narrativas e grandes investigações, para um consumo lento, para um público que não deseja apenas o fast food jornalístico.

Então, qual o grande diferencial dos podcasts? É a possibilidade de produzir este tipo de jornalismo lento, mas em um formato que se encaixa bem dentro da realidade corrida do público no século XXI. Por quê? Porque os podcasts podem ser consumidos na rua, no transporte público, no treino, enquanto se faz a limpeza da casa…

Os podcasts narrativos são a cereja do bolo do jornalismo em um formato popular. Linguagem acessível, fácil acesso, muitas vezes gratuito. É uma democratização do jornalismo da melhor qualidade

E por fim, ainda temos a questão dos recursos. Um podcast é um formato popular de consumo, mas diferente dos vídeos longos, eles são muito mais baratos para serem produzidos. Aqui separa-se o trabalho investigativo, igual em qualquer formato. Falo da produção técnica. É inegável que é mais fácil para um meio independnete fazer um podcast com muita qualidade que um documentário. O Projeto Humanos e o Fumaça são provas disso.

Palavras finais

Este artigo não defende que todos os veículos de comunicação devam produzir narrativas em podcast. Sou defensor e leitor da grande reportagem escrita, das revistas, dos livros-reportagem e dos documentários.

Mas defendo que os podcasts são uma arma para popularizar um estilo de jornalismo que vinha perdendo força nas últimas décadas. Um formato capaz de trazer novas audiências e, quiçá, devolvê-las também às grandes reportagens escritas.

Giovanni Ramos

Jornalista, professor e pesquisador.

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