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A censura a Miriam Leitão em Santa Catarina assusta

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Feira desconvidou a jornalista por causa de ameaças de morte

A jornalista das Organizações Globo Miriam Leitão era apenas uma das convidadas para a Feira do Livro de Jaraguá do Sul, uma das mais tradicionais do Estado de Santa Catarina. Jornalista famosa no Brasil por comentários de Economia, ela iria para o Norte catarinense como autores de sete livros, dois deles vencedores do Prêmio Jabuti.

Crítica dos governos do PT, onde chegou a ser chamada de urubóloga por um jornalista/blogueiro de esquerda, Miriam também era crítica do atual governo. Sua presença em Jaraguá do Sul, município que deu quase 90% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno, seria marcada com polêmicas em redes sociais e nos comentários de sites de jornais. Tudo certo ate aí.

Até mesmo um abaixo-assinado pedindo a não presença da jornalista e do sociólogo Sérgio Abranches seria normal em um período conturbado da política brasileira. Mas o que aconteceu foi muito além disso. E o fato mais preocupante do que se possa pensar.

Ameaças

Segundo o escritor Carlos Henrique Schroeder, coordenador artístico da Feira do Livro, não foi apenas uma petição online e críticas em redes sociais. Foi um verdadeiro bombardeio que incluía ameaças de morte a jornalista. Sem condições de garantir a segurança da convidada, a organização do evento optou por desconvidá-la, situação semelhante do sociólogo.

“A Feira do Livro sempre foi um evento para as crianças e para famílias. Por causa da característica truculenta, intimidadora e ameaçadora de mensagens recebidas, decidimos cancelar parte da programação para proteger a integridade física dos convidados e o bem estar do público”, afirmou Schroeder para a jornalista Dagmara Spautz, do grupo NSC (leia entrevista completa aqui).

Miriam não é a única jornalista a ser alvo da extrema-direita em eventos culturais. Recentemente grupos extremistas tentaram atrapalhar a palestra do americano Glenn Greenwald, do The Intercept Brasil, na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) no Estado do Rio de Janeiro. O grupo tentou impedir a palestra com carros de som.

Fora de controle

Se a sociedade brasileira não quer se assemelhar com países ditatoriais de outros continentes onde jornalistas são mortos por discordarem do governo, alguma coisa precisa ser feita. Em várias ditaduras pelo mundo, a opressão contra quem discorda do governo vem de agentes do estado. No Brasil, não. Essas atitudes não partem do governo e sim de simpatizantes dele. É uma milícia que se organiza pela internet para caçar quem pensa contra. Eles começaram com linchamentos virtuais e agora levaram para o mundo real.

Eram mais de três mil assinaturas na petição que pedia a censura a jornalista. Provavelmente muitos não eram de Jaraguá e região, muitos nem reais eram. Porém, quem garantia que não haveria malucos entrando na feira para impedir a palestra dela? Quem não garante que poderia entrar alguém armado?

Governos populistas simpatizantes de ditaduras não sabem lidar com jornalistas, com o contraditório, com críticas. Neste caso, alinho-me aos conservadores (de verdade) que defendem que o fortalecimento das instituições serve com freio para estes populismos. Governos simpatizantes de regimes autoritários são comuns na democracia e a vigilância eterna ajuda a combater as insanidades.

O que vemos no Brasil assusta ainda mais porque a iniciativa vem da sociedade. O governo apoia, incentiva com suas ideias e projetos? Sim, mas a iniciativa vem realmente de grupos organizados na internet. Foram essas milícias que elegeram o governo e não o governo que ajudou eles.

Em alta com a eleição de Bolsonaro, as milícias virtuais da extrema-direita ganham terreno no mundo real. Se você é de direita, se você não gosta das esquerdas e por isso não se preocupa com o que está acontecendo, pense que uma reação igual pode ocorrer. Se grupos anti-bolsonaristas se comportarem da mesma forma, qualquer tipo de evento público estará sob risco.

É preciso fazer algo logo, com urgência.